
Depois de atacar as redes, Lula agora quer ensiná-las a falar bem dele
PT lança cartilha para orientar militância digital pró-governo e levanta críticas sobre controle do discurso nas redes sociais
O Partido dos Trabalhadores (PT) lançou uma cartilha direcionada a influenciadores e militantes digitais alinhados ao governo Lula. O material, divulgado nesta segunda-feira (29), reúne orientações jurídicas e práticas para quem atua nas redes sociais em defesa do presidente. A iniciativa, no entanto, tem gerado forte repúdio e desconfiança, especialmente pelo contraste com o discurso recorrente do próprio Lula, que frequentemente ataca as redes sociais quando estas lhe são críticas.
Segundo o PT, o manual nasceu a partir de pedidos dos próprios influenciadores, que alegam enfrentar processos judiciais e insegurança jurídica ao publicar conteúdos políticos. Com mais de 90 páginas, a cartilha promete ensinar como se manifestar nas redes “com segurança”, evitando problemas com a Justiça.
Na prática, porém, o documento soa para muitos como um guia de autocensura. Um dos principais alertas é sobre o uso de termos como “fascista”, “genocida” ou “corrupto”, que, segundo a cartilha, só devem ser usados quando houver condenação judicial. Fora disso, o militante pode ser processado. A recomendação chama atenção porque o próprio campo político que hoje pede cautela já utilizou — e ainda utiliza — esse tipo de linguagem contra adversários sem qualquer pudor.
O manual também dedica espaço ao uso de vídeos nas redes. Orienta que o militante avalie se a gravação foi feita em local público, se expõe indivíduos específicos, se há crianças ou pessoas vulneráveis envolvidas e se o conteúdo pode ser considerado constrangedor. A prioridade, diz o texto, deve ser o “fato político”, e não a vida pessoal de quem aparece nas imagens — uma regra que raramente foi seguida quando o alvo eram opositores do PT.
Outro ponto que causa estranheza é a recomendação para que influenciadores arquivem links, vídeos originais e capturas de tela, como forma de proteção jurídica. Para críticos, isso reforça a sensação de que o ambiente digital se tornou um campo minado, onde falar de política exige mais cautela do que nunca — especialmente quando não se está do lado do governo.
O lançamento da cartilha ocorre em um contexto delicado. O mesmo presidente que frequentemente acusa as redes sociais de espalharem “ódio” e “mentiras” agora aposta nelas como ferramenta organizada de defesa política. A mudança de tom não passa despercebida: quando as redes criticam, são tratadas como ameaça; quando servem ao governo, viram alvo de orientação e treinamento.
Para opositores e defensores da liberdade de expressão, a cartilha simboliza mais um passo rumo ao controle do discurso político online. Não se trata apenas de orientar juridicamente, mas de moldar narrativas, escolher palavras permitidas e estabelecer limites claros sobre o que pode ou não ser dito — sempre em favor de um lado.
O resultado é um cenário preocupante: um governo que demoniza as redes quando perde o controle do debate público, mas tenta domesticá-las quando percebe seu poder. Para muitos brasileiros, isso não é proteção jurídica — é tentativa de enquadramento político.