
Depois de vigiar Bolsonaro dia e noite, PF diz que agora olha para o filho de Lula
Investigação cita Lulinha como possível “sócio oculto”, mas polícia ressalta que, por enquanto, é só conversa de terceiros
Enquanto a Polícia Federal passa dias e noites monitorando cada passo de Jair Bolsonaro e de seus familiares, a corporação informou ao Supremo Tribunal Federal que, desta vez, resolveu olhar com lupa para referências envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, no escândalo bilionário de descontos indevidos em aposentadorias do INSS.
Segundo a PF, o nome do filho do presidente apareceu em diferentes momentos da Operação Sem Desconto — em depoimentos, mensagens de celular e até em registros de viagens. Nada muito concreto, ressalta a própria polícia, mas suficiente para “merecer atenção”, ao menos no papel. A informação foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo.
Os investigadores fazem questão de frisar que, até agora, não existe qualquer prova de participação direta de Lulinha no esquema. As menções seriam indiretas, baseadas em falas de terceiros e em vínculos que ainda precisam ser confirmados. Mesmo assim, o nome foi parar no relatório.
A principal linha analisada envolve a suspeita — ainda no campo das hipóteses — de que Fábio Luís teria sido citado como possível “sócio oculto” do empresário Antônio Camilo Antunes, o chamado Careca do INSS, apontado como operador central das fraudes. A ponte entre os dois, segundo a investigação, seria a empresária Roberta Luchsinger, amiga pessoal de Lulinha.
Roberta foi alvo de buscas na última fase da operação. Ela teria firmado um contrato de consultoria com o Careca do INSS, recebendo cerca de R$ 1,5 milhão para prospectar negócios junto ao governo. A defesa sustenta que tudo se limitou a estudos iniciais sobre cannabis medicinal e que nenhum contrato público saiu do papel.
Outro ponto que despertou curiosidade na PF foram viagens feitas por Roberta e Lulinha com passagens compradas juntas, inclusive deslocamentos frequentes entre São Paulo e Brasília em 2025 e um voo para Lisboa em 2024 — coincidência que, para investigadores atentos, nunca passa despercebida.
Mensagens extraídas dos celulares do Careca do INSS e de Roberta também entraram no pacote. Nelas, aparecem comentários vagos sobre pagamentos ligados ao “filho do rapaz” e preocupação com eventual exposição do nome de Lulinha. Nada comprovado, tudo ainda no terreno das suposições.
Em relatório enviado ao ministro André Mendonça, a PF reconhece que, no meio político e empresarial, é comum que pessoas citem nomes conhecidos para ganhar prestígio ou tentar vantagens — recomendando, curiosamente, “cautela redobrada” antes de conclusões precipitadas.
A defesa de Fábio Luís nega qualquer relação com o esquema, com o INSS ou com Antônio Camilo, e classifica as citações como ilações sem base factual. O próprio presidente Lula já afirmou, em outras ocasiões, que familiares devem ser investigados se houver provas — o que, até agora, a PF admite não ter.
Antônio Camilo está preso desde setembro, acusado de liderar um esquema de fraudes bilionárias contra aposentados, com pagamento de propina a agentes públicos. Seu filho também foi detido na fase mais recente da operação.
A Polícia Federal garante que seguirá analisando o material “sem interferências externas”. Resta saber se o mesmo ritmo e rigor aplicados a Bolsonaro e sua família — 24 horas por dia — também valerão quando o sobrenome investigado é outro.