
Desembargadora do Pará compara corte de benefícios à “escravidão” e gera reação diante de altos salários e privilégios
Declaração de Eva do Amaral Coelho ocorre após decisão do Supremo Tribunal Federal que limitou penduricalhos; magistrada recebeu mais de R$ 91 mil líquidos em um único mês
Uma declaração feita pela desembargadora Eva do Amaral Coelho colocou novamente o Judiciário brasileiro no centro de críticas e debates sobre salários, benefícios e distanciamento da realidade da população.
Durante sessão do Tribunal de Justiça do Pará, a magistrada afirmou que as recentes limitações impostas pelo Supremo Tribunal Federal aos chamados “penduricalhos” estariam levando juízes a um “regime de escravidão” — declaração que rapidamente repercutiu e gerou indignação.
A fala que gerou polêmica
A manifestação ocorreu após o STF estabelecer novas regras para restringir benefícios extras pagos a magistrados, determinando que essas verbas não ultrapassem 35% do teto constitucional.
Incomodada com as mudanças, a desembargadora afirmou que a categoria estaria sendo injustamente atacada e que a redução de benefícios impactaria diretamente a vida financeira dos juízes.
“Daqui a pouco estaremos no rol daqueles que trabalham em regime de escravidão”, disse durante a sessão.
Ela também alegou que colegas estariam enfrentando dificuldades para arcar com despesas médicas e até medicamentos — um argumento que acabou provocando forte reação pública.
Salários elevados e contraste com a realidade
As declarações ganharam ainda mais repercussão quando vieram à tona os valores recebidos pela magistrada. Apenas em março, Eva do Amaral Coelho recebeu cerca de R$ 117,8 mil brutos, com aproximadamente R$ 91 mil líquidos.
No acumulado do trimestre, os rendimentos ultrapassaram R$ 200 mil — valores muito acima da média salarial brasileira e até mesmo do teto do funcionalismo, que gira em torno de R$ 46 mil.
Esse contraste entre o discurso de dificuldade financeira e os altos rendimentos reforçou críticas sobre a desconexão de parte do Judiciário com a realidade da população.
Benefícios e estrutura de alto padrão
Além dos salários elevados, a magistrada também conta com uma série de benefícios estruturais. Entre eles, está o uso de veículo oficial com motorista, custeado pelo tribunal.
O contrato firmado pelo Tribunal de Justiça do Pará prevê carros novos, com padrão elevado de conforto, podendo chegar a cerca de R$ 175 mil por unidade. O custo total do serviço ultrapassa R$ 500 mil por mês, com previsão de mais de R$ 30 milhões ao longo dos anos.
Embora o tribunal justifique os gastos como necessários para a atividade institucional, os números ampliam o debate sobre privilégios dentro do serviço público.
Críticas e percepção de distanciamento
A comparação feita pela desembargadora foi recebida com forte reprovação em diversos setores. Para críticos, o uso do termo “escravidão” em um contexto de altos salários e benefícios evidencia um distanciamento preocupante da realidade vivida pela maioria dos brasileiros.
A decisão do Supremo Tribunal Federal, por sua vez, foi vista por parte da sociedade como uma tentativa de impor limites a excessos históricos no pagamento de vantagens dentro do Judiciário.
Debate sobre privilégios e transparência
O episódio reacende uma discussão antiga no país: os limites dos benefícios no serviço público e a necessidade de maior transparência e equilíbrio nas remunerações.
Enquanto membros da magistratura defendem que a carreira exige dedicação intensa e responsabilidades elevadas, cresce a pressão social por maior controle sobre gastos e redução de vantagens consideradas excessivas.
Um caso que vai além de uma fala
Mais do que uma declaração polêmica, o caso expõe uma ferida aberta na relação entre Judiciário e sociedade.
De um lado, magistrados que alegam perda de direitos. Do outro, uma população que observa salários elevados e benefícios robustos — e questiona até que ponto esse modelo ainda se sustenta.
No fim, a fala sobre “escravidão” acabou tendo o efeito contrário: trouxe ainda mais luz para um sistema que, para muitos, já vinha sendo visto como cercado de privilégios difíceis de justificar.