
Do “mito” ao “desencanto”: Soraya Thronicke cospe no prato que ajudou a encher
Eleita com o apoio direto de Jair Bolsonaro, a senadora agora renega suas origens políticas, chamando o bolsonarismo de “seita”. O discurso de gratidão virou crítica — e o passado, um fardo conveniente.
A política brasileira tem dessas ironias que beiram o teatro. Soraya Thronicke, senadora eleita em 2018 pelo PSL — o mesmo partido que lançou Jair Bolsonaro à Presidência —, agora faz questão de renegar o movimento que a colocou no mapa político.
Em entrevista à BBC News Brasil, Soraya disparou contra os antigos aliados: “Não apoio ninguém da seita bolsonarista”. A mesma “seita”, diga-se, que a projetou do anonimato à cadeira no Senado.
A advogada e empresária, que se apresentava ao eleitorado como “a senadora do Bolsonaro”, agora diz ter sido “enganada” e “vítima do gabinete do ódio”. Segundo ela, o bolsonarismo virou uma estrutura “kamikaze”, onde “não se pode pensar, apenas idolatrar o líder”.
Curioso é que essa “descoberta” não veio quando o discurso e a prática já batiam de frente — mas após as urnas garantirem seu mandato. A conversão tardia, pintada de arrependimento, soa mais como cálculo político do que iluminação moral.
“Eu me deixei enganar”, disse Soraya, reconhecendo que embarcou no bolsonarismo por vaidade. E agora, com a maré virando, tenta se reposicionar como uma voz “moderada de centro-direita”. O problema é que quem ajudou a acender o fogo não pode, depois, posar de bombeiro.
A senadora ainda revelou que hoje vota 98% das vezes com o governo Lula, alegando que o faz por “consenso e patriotismo”. É a mesma política que, há poucos anos, subia em palanques ao lado de quem chamava o PT de “câncer nacional”.
Soraya encerra sua fala afirmando que “na seita você tem que seguir o líder e não pensar”. Talvez tenha razão — mas o arrependimento só convence quando vem acompanhado de autocrítica real, não de conveniência eleitoral.
No fim das contas, a história de Soraya Thronicke é mais uma amostra do oportunismo que contamina Brasília: quem sobe pela escada do bolsonarismo, mas tenta descer de elevador quando o vento muda.