
Documento oficial registra negativa a pedido de aeronaves para combater queimadas no Amazonas; governo federal e comando dos Bombeiros divergem sobre a ajuda
Ofício do Ministério da Justiça, assinado em 1º de outubro, informa que não seria possível atender naquele momento à solicitação do Corpo de Bombeiros do Amazonas. Coronel Orleilso Muniz cobra reforço aéreo, enquanto o governo federal afirma manter operações no estado e anuncia mais aeronaves e brigadistas.
O avanço das queimadas no Amazonas e a fumaça que afeta a qualidade do ar em Manaus colocaram em evidência uma divergência entre o comando do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) e o governo federal. Documentos divulgados pelo governo estadual mostram que o Ministério da Justiça e Segurança Pública respondeu negativamente, naquele momento, a um pedido de equipamentos para reforçar o combate aos incêndios florestais.
O documento, assinado em 1º de outubro pelo secretário nacional de Segurança Pública, Francisco Lucas Costa Veloso, confirma que a solicitação encaminhada pela corporação não poderia ser atendida nos termos apresentados. A justificativa oficial foi a indisponibilidade de equipamentos daquela natureza aptos para doação. O registro administrativo, portanto, comprova uma resposta negativa ao pedido específico, embora não signifique, por si só, que todas as formas de apoio federal ao Amazonas tenham sido interrompidas.
O que o Amazonas solicitou ao governo federal
De acordo com os documentos divulgados, o pedido foi enviado em 18 de setembro pelo comandante-geral do CBMAM, coronel Orleilso Ximenes Muniz. A corporação solicitou uma estrutura adicional para enfrentar os incêndios em um estado marcado por grandes distâncias, regiões de difícil acesso e limitações logísticas para o deslocamento de equipes terrestres.
A lista incluía quatro aeronaves destinadas ao combate aéreo às chamas, um avião do tipo Bandeirante para transportar militares e equipamentos, além de picapes e caminhões adaptados às condições geográficas do Amazonas.
A solicitação buscava ampliar a capacidade operacional dos bombeiros em áreas onde o acesso por estradas é limitado ou inexistente. Em ocorrências dessa natureza, o apoio aéreo pode ser importante tanto para transportar profissionais e materiais quanto para lançar água sobre focos de incêndio, conforme o tipo de aeronave e a operação planejada.
A resposta do Ministério da Justiça foi formalizada no ofício nº 10380/2026, relacionado ao processo administrativo nº 08001.004241/2026-77. A Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) informou que não poderia atender ao pedido naquele momento, apontando a falta de bens disponíveis para doação.
Coronel Orleilso Muniz confirma resposta negativa
O comandante-geral dos Bombeiros do Amazonas, coronel Orleilso Muniz, tornou pública a situação durante entrevista ao Jornal do Amazonas, da Rede Amazônica. Na ocasião, afirmou que a corporação havia recebido um retorno negativo sobre o pedido de reforço.
“Nós já tivemos um retorno negativo, de que não seria possível apoiar”, declarou o comandante, segundo as reportagens sobre o caso.
Muniz defendeu a ampliação da cooperação entre o governo estadual e a União e destacou que os incêndios também atingem áreas cuja responsabilidade operacional envolve órgãos federais. Na avaliação do comandante, a disponibilização de aeronaves seria importante para melhorar a resposta às queimadas e alcançar regiões distantes.
A divulgação do ofício deu respaldo documental à afirmação de que o pedido específico de equipamentos não foi atendido naquele momento. A questão central, porém, é distinguir essa negativa administrativa das demais ações federais que estavam em andamento ou que foram anunciadas posteriormente.
Ministério indicou alternativas de financiamento
No documento, a Senasp também orientou o governo estadual a procurar outras formas de obter recursos para ampliar sua estrutura. Entre as alternativas mencionadas estão editais de financiamento, transferências do Fundo Nacional de Segurança Pública e emendas parlamentares executadas por meio de convênios ou contratos de repasse.
A pasta também indicou a possibilidade de obter esclarecimentos sobre as modalidades de financiamento junto à área responsável pela gestão do fundo.
Essas orientações, entretanto, não equivalem à entrega imediata das aeronaves solicitadas. O ofício não estabeleceu um prazo para a disponibilização dos equipamentos e tampouco garantiu que os recursos necessários seriam liberados de forma emergencial.
É justamente nesse ponto que se concentra parte da controvérsia: diante de incêndios florestais e dos efeitos da fumaça sobre a população, a indicação de caminhos burocráticos para captar recursos não resolve, por si só, a necessidade operacional imediata relatada pelo comando dos Bombeiros.
Governo federal apresenta outra versão sobre as operações
Em manifestação divulgada em 9 de outubro, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima afirmou que o governo federal mantinha ações permanentes de prevenção, monitoramento e combate aos incêndios florestais no Amazonas.
Segundo a pasta, o Ibama havia extinguido 229 incêndios desde o início da temporada crítica e continuava atuando em outros 20 focos ativos. O ministério também anunciou o reforço das operações com seis aeronaves adicionais: quatro aviões Air Tractor, destinados ao lançamento de água, e dois helicópteros para apoio logístico e transporte de equipes. Também foram anunciados mais 290 brigadistas.
O ministério relatou ainda que, em 23 de setembro, o Centro Integrado Multiagência de Coordenação Operacional Federal (Ciman Federal) recebeu uma solicitação de apoio do governo amazonense. Em resposta, foram acionados combatentes do Projeto de Resposta em Ações Integradas para Atuação em Situações de Desastres (Respad) e uma aeronave do Projeto de Gerenciamento de Aeronaves para Situações de Urgência e Socorro (Pegasus).
Segundo a versão federal, em 30 de setembro, após chuvas contribuírem para o controle de parte dos focos, o governo do Amazonas informou que o apoio da equipe do Respad já não seria necessário, dispensando seu deslocamento para o campo.
O Ministério do Meio Ambiente também informou que orientou o estado a solicitar recursos pelo Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (SINPDEC), mas afirmou que, até a publicação da nota, o pedido correspondente ainda não havia sido formalizado.
Dois pedidos diferentes estão no centro da discussão
Os documentos e as manifestações oficiais indicam que é necessário separar duas situações: de um lado, o pedido de equipamentos feito pelos Bombeiros ao Ministério da Justiça, cuja resposta foi negativa por indisponibilidade para doação; de outro, a mobilização de equipes e recursos federais por meio de estruturas coordenadas pelo Ibama e pelo Ciman Federal.
A existência de operações federais não elimina o fato de que o pedido específico de aeronaves e veículos recebeu uma resposta negativa. Da mesma forma, a negativa registrada no ofício não permite afirmar que a União tenha recusado toda e qualquer ajuda ao Amazonas durante a crise.
O debate envolve, portanto, o tipo de apoio solicitado, a disponibilidade de equipamentos, o momento em que os recursos poderiam chegar e a coordenação entre as autoridades estaduais e federais. Para esclarecer completamente o episódio, é importante conhecer os documentos integrais, a cronologia de cada solicitação e quais recursos estavam efetivamente disponíveis em cada etapa da crise.
Omar Aziz afirma que R$ 15 milhões para avião não foram executados
A controvérsia ganhou outra dimensão após o senador Omar Aziz afirmar que destinou, em 2023, uma emenda de R$ 15 milhões ao governo do Amazonas para a compra de uma aeronave que pudesse ajudar no combate aos incêndios florestais.
Segundo reportagem de A Crítica, Aziz declarou que o dinheiro não teria sido utilizado para a compra do avião. O senador atribuiu a responsabilidade pela execução ao governo estadual da época, comandado por Wilson Lima, e mencionou que o então secretário de Segurança, coronel Vinicius Almeida, poderia esclarecer o caso..
A declaração acrescenta uma questão à discussão sobre a capacidade de combate às queimadas: além da disponibilidade de equipamentos federais, é necessário esclarecer o destino e a execução dos recursos destinados à estrutura estadual. A afirmação de Aziz, contudo, deve ser confrontada com os registros orçamentários e administrativos para determinar em que situação se encontra o dinheiro e por que a aeronave não teria sido adquirida.
Queimadas agravaram a situação em Manaus
O episódio ocorre em meio a uma crise ambiental que prejudicou a qualidade do ar e provocou medidas de proteção à população. Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e reproduzidos pela Agência Brasil, o Amazonas registrou 3.726 focos de calor em setembro de 2026, quase quatro vezes o total do mesmo mês do ano anterior.
A fumaça levou à suspensão de atividades presenciais em instituições de ensino, incluindo a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), além de medidas adotadas pela rede municipal. A situação reforçou a preocupação com os efeitos da poluição atmosférica sobre a saúde dos moradores.
O combate ao fogo enfrenta obstáculos associados à estiagem, à vegetação ressecada, às grandes distâncias e à ocorrência de incêndios em diferentes tipos de áreas. Nesse contexto, a disponibilidade de brigadistas, veículos e aeronaves pode influenciar a capacidade de resposta das equipes.
Governo federal cita investimento de R$ 45 milhões
Além do reforço anunciado para as operações emergenciais, o Ministério do Meio Ambiente mencionou o projeto ProAmazon, apoiado pelo Fundo Amazônia com R$ 45 milhões. Segundo a pasta, houve pagamentos em janeiro de 2025 e março de 2026 para fortalecer a estrutura do Corpo de Bombeiros do Amazonas e apoiar ações de prevenção e combate a incêndios florestais e queimadas não autorizadas.
O investimento informado pelo ministério é um elemento relevante para avaliar o apoio federal ao estado, mas não responde sozinho à questão específica sobre a disponibilidade imediata das aeronaves solicitadas em setembro. Para avaliar os resultados do programa, seria necessário verificar a aplicação dos recursos, os equipamentos adquiridos e o impacto efetivo sobre a capacidade operacional dos Bombeiros.
O que os documentos permitem concluir
O ofício do Ministério da Justiça confirma que a solicitação apresentada pelo Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas em 18 de setembro não foi atendida naquele momento, sob a justificativa de indisponibilidade de equipamentos aptos para doação. O coronel Orleilso Muniz confirmou publicamente a resposta negativa e cobrou apoio adicional para enfrentar as queimadas.
Ao mesmo tempo, o governo federal afirma que outras frentes de combate estavam funcionando, que uma equipe terrestre e uma aeronave haviam sido mobilizadas em setembro e que o governo estadual posteriormente dispensou parte desse apoio. A União também anunciou seis aeronaves e 290 brigadistas adicionais.
O episódio exige transparência de todas as partes. É necessário esclarecer por que os equipamentos pedidos não estavam disponíveis, quais alternativas poderiam ter sido oferecidas em caráter emergencial, como foram executados os recursos destinados ao combate ao fogo e quais medidas foram efetivamente colocadas em prática.
Em uma crise que afeta a floresta, a fauna e a saúde da população, a prioridade deve ser a coordenação entre as autoridades e a apresentação de informações verificáveis. O documento comprova a negativa ao pedido específico; a dimensão total da assistência federal, porém, precisa ser avaliada à luz do conjunto das solicitações, das operações realizadas e dos recursos efetivamente entregues.