
Novo áudio atribuído a Daniel Vorcaro expõe relato sobre reação de integrante da PGR a acusações envolvendo Lula e Instituto Lula
Gravação divulgada pela revista Veja menciona Ubiratan, apontado como auxiliar de Paulo Gonet, e relata a reação atribuída ao integrante da Procuradoria-Geral da República ao ouvir alegações sobre Paulo Okamotto e supostos pagamentos em dinheiro; PF e PGR negam que tenha ocorrido depoimento oral com esse conteúdo, enquanto a origem e a integridade do áudio continuam sob questionamento.
O que diz o novo áudio atribuído a Vorcaro
A revista Veja divulgou, em 9 de outubro de 2026, um novo trecho de áudio atribuído a Daniel Vorcaro, fundador e ex-controlador do Banco Master. Na gravação, o banqueiro relata a reação que um integrante da Procuradoria-Geral da República (PGR) teria apresentado quando informações envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Paulo Okamotto e o Instituto Lula foram levadas à instituição por meio de seus advogados.
O trecho divulgado apresenta a seguinte declaração atribuída a Vorcaro:
“Quando coloquei o Okamotto pra cá, na primeira vez que levei, por meio dos advogados, na PGR, ele falou: ‘pelo amor de Deus, cê não tem nada disso aqui não’”.
Na sequência, a voz atribuída ao banqueiro afirma que o interlocutor teria argumentado que, por se tratar de dinheiro entregue em espécie, seria difícil comprovar os pagamentos. A gravação reproduzida pela Veja apresenta a seguinte frase: “Isso aqui foi em dinheiro, não consegue provar, você tira tudo”.
A publicação relaciona a pessoa mencionada na conversa a Ubiratan, descrito pela revista como auxiliar de Paulo Gonet, procurador-geral da República. O material, entretanto, não apresenta uma confirmação independente de que a conversa tenha ocorrido exatamente da maneira relatada, nem uma manifestação de Ubiratan confirmando o diálogo.
O ponto central da gravação é a alegação de que informações sobre supostos pagamentos ligados ao Instituto Lula teriam sido apresentadas durante as tratativas para uma possível colaboração premiada de Vorcaro. O áudio não equivale, por si só, à comprovação de que os pagamentos ocorreram ou de que algum integrante da PGR tenha agido para proteger qualquer pessoa.
Quem é o ouvinte mencionado na gravação?
O nome citado pela reportagem é Ubiratan, apresentado pela Veja como auxiliar de Paulo Gonet na PGR. Segundo a narrativa atribuída a Vorcaro, ele teria reagido com preocupação diante da falta de elementos comprobatórios para sustentar as acusações apresentadas pelos advogados do banqueiro.
É importante separar três questões: o que a voz na gravação afirma, como a revista identifica o interlocutor e o que as autoridades confirmaram oficialmente.
Até a divulgação das informações consultadas, não havia confirmação pública independente de Ubiratan sobre o diálogo narrado. A PGR, por sua vez, contestou a existência de depoimento oral de Vorcaro sobre o assunto e afirmou que as tratativas de colaboração foram conduzidas por advogados.
Portanto, não é possível concluir, somente com base no áudio, que Ubiratan tenha tentado encobrir um crime, que tenha recebido alguma ordem para proteger Lula ou que tenha praticado qualquer irregularidade. Essas hipóteses exigiriam provas adicionais.
A ligação com Paulo Okamotto e o Instituto Lula
Paulo Okamotto, dirigente ligado ao Instituto Lula, aparece no relato como uma das pessoas mencionadas durante as negociações para uma possível delação.
A reportagem anterior da Veja havia divulgado alegações de que Vorcaro teria destinado cerca de R$ 30 milhões em dinheiro vivo à produção do documentário Lula, dirigido por Oliver Stone, além de supostos repasses ao Instituto Lula. A nova gravação procura apresentar a reação que o banqueiro afirma ter recebido quando essas informações foram levadas à PGR.
As acusações, porém, permanecem contestadas. Okamotto negou o recebimento dos recursos mencionados, e a equipe de Oliver Stone afirmou que o documentário não recebeu dinheiro de Vorcaro ou do Banco Master. A negativa dos envolvidos não substitui uma investigação independente, assim como as alegações da gravação não constituem prova definitiva dos pagamentos.
A existência de uma denúncia envolvendo recursos financeiros exige a análise de registros bancários, documentos, contratos, testemunhos e outros elementos que possam confirmar a origem, o destino e a finalidade dos valores.
PF e PGR contestam a existência de depoimento com esse conteúdo
A Polícia Federal informou que Daniel Vorcaro não prestou depoimento com o teor descrito nas reportagens e que não entregou à instituição documentos, anexos ou informações correspondentes às alegações divulgadas.
A corporação também esclareceu que as propostas de colaboração premiada apresentadas pela defesa não foram acolhidas por não atenderem aos requisitos legais. A PF informou ainda que recebeu uma notícia-crime relacionada à publicação e encaminhou o expediente para análise e adoção das providências cabíveis.
A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, afirmou que não houve depoimento oral de Vorcaro durante as tratativas. Segundo o órgão, as negociações foram conduzidas por advogados, sem interlocução direta do banqueiro com representantes da Procuradoria.
A PGR também informou que as razões para a rejeição da proposta foram apresentadas à defesa e que o procedimento está sujeito ao sigilo legal.
Essas manifestações não esclarecem, por si sós, a origem da gravação divulgada pela Veja. Elas contestam especificamente a existência do depoimento formal descrito nas notícias e a apresentação de documentos com o conteúdo atribuído ao banqueiro.
A defesa de Vorcaro e as dúvidas sobre a gravação
A defesa de Daniel Vorcaro, representada pelo advogado Daniel Bialski, afirmou que o banqueiro possui informações relevantes para o caso e permanece disponível para colaborar com as autoridades. Ao mesmo tempo, a defesa questionou as circunstâncias relacionadas ao material divulgado.
No caso do áudio anterior, Bialski reconheceu que uma das vozes era de seu cliente, mas ressaltou que desconhecia quando e em quais circunstâncias a gravação havia sido produzida. O reconhecimento da voz não representa uma confirmação automática da veracidade de todas as afirmações nela contidas.
A divulgação dos novos trechos ampliou as dúvidas sobre a procedência do material, a data das conversas e as pessoas que tiveram acesso às gravações. A apuração dessas questões é necessária para avaliar a autenticidade, a integridade e o contexto dos arquivos.
O que está em discussão
O episódio reúne questões de interesse público: as alegações sobre possíveis pagamentos irregulares, a atuação da PGR durante as negociações de colaboração premiada, a origem dos áudios e a divulgação de informações graves em meio à campanha eleitoral.
A investigação precisa distinguir o conteúdo atribuído a Vorcaro das informações oficialmente confirmadas. Também deve verificar se existem provas materiais dos supostos pagamentos e se a conversa narrada ocorreu com o interlocutor identificado pela revista.
A divulgação de acusações dessa natureza exige responsabilidade jornalística, mas o interesse eleitoral do caso não deve impedir a apuração. Se surgirem elementos concretos de irregularidades, cabe às autoridades examiná-los com independência. Se as acusações não forem comprovadas, os envolvidos também têm direito à correção de informações falsas e à proteção de sua reputação.
Até o momento, o novo áudio apresenta um relato atribuído a Daniel Vorcaro sobre a reação de um integrante da PGR identificado pela Veja como Ubiratan. Não comprova, isoladamente, os supostos pagamentos ao Instituto Lula nem demonstra que o integrante citado tenha cometido qualquer irregularidade. A origem da gravação, as circunstâncias da conversa e a existência de provas independentes continuam sendo pontos essenciais para esclarecer o caso.