
Ex-primeira-ministra de Bangladesh é sentenciada à morte por repressão violenta
Sheikh Hasina é responsabilizada por ordenar operação militar que deixou mais de mil mortos; ela afirma que decisão é política e nega ter comandado massacre
A ex-primeira-ministra de Bangladesh, Sheikh Hasina, foi condenada à morte nesta segunda-feira (17) sob a acusação de cometer crimes contra a humanidade. O julgamento, que se estendeu por meses, concluiu que Hasina ordenou a repressão brutal contra protestos estudantis ocorridos no ano passado, episódio que deixou cerca de 1.400 mortos, segundo estimativas da ONU — a maioria atingida por tiros disparados pelas Forças Armadas.
O Tribunal de Crimes Internacionais do país afirmou que ficou comprovado que Hasina autorizou diretamente o uso de força letal contra os manifestantes. O juiz Golam Mortuza Mozumder declarou que os requisitos legais para a acusação estavam “plenamente configurados” e que, por isso, a Corte decidiu aplicar a pena máxima.
Os protestos, que começaram como reação ao sistema de cotas que favorecia familiares de veteranos da guerra de independência, logo se transformaram em um movimento que exigia a renúncia de Hasina. A mobilização, liderada principalmente pela Geração Z, tomou as ruas entre julho e agosto de 2024 e se tornou um dos episódios mais sangrentos da história recente do país.
Hasina, de 78 anos, não estava presente no tribunal. Ela fugiu para a Índia após a onda de violência e, depois da condenação, o governo bangladense já pediu oficialmente sua extradição. A ex-líder afirma que o processo é “enviesado”, com “motivações políticas”, e critica o que considera falta de direito à ampla defesa. Segundo ela, embora seu governo tenha perdido o controle da situação, “não houve ordem deliberada para atacar civis”.
A decisão da Corte ocorre poucos meses antes das eleições parlamentares, previstas para fevereiro, das quais o partido de Hasina, a Liga Awami, está impedido de participar. Analistas temem que o veredito alimentará novos protestos em um país já tensionado.
Desde a queda de Hasina, Bangladesh é comandado por um governo provisório liderado pelo Nobel da Paz Muhammad Yunus, antigo crítico da ex-premiê e condenado por corrupção durante a gestão dela.
O caso, considerado a maior onda de violência desde a independência de 1971, ainda provoca repercussão internacional. Relatórios da ONU apontam que até 1.400 pessoas podem ter sido mortas durante o levante, além de milhares de feridos — quase todos atingidos por disparos de forças de segurança.