Fábio Faria aparece como elo entre Vorcaro e Moraes em mensagens apreendidas pela PF

Fábio Faria aparece como elo entre Vorcaro e Moraes em mensagens apreendidas pela PF

Ex-ministro de Jair Bolsonaro teria repassado contatos de Alexandre de Moraes a Daniel Vorcaro e ajudado a organizar encontros; mensagens separadas citam Davi Alcolumbre e mulheres chamadas de “suíças”, ampliando a repercussão do caso Banco Master

As mensagens recuperadas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, abriram uma nova frente na crise que envolve o banqueiro, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e uma série de autoridades políticas e institucionais.

Entre os personagens que ganharam destaque está Fábio Faria, ex-deputado federal pelo Rio Grande do Norte e ex-ministro das Comunicações do governo de Jair Bolsonaro.

Segundo o material analisado pela Polícia Federal, Faria teria desempenhado um papel de intermediário na aproximação entre Vorcaro e Moraes. As mensagens indicam que o ex-ministro repassou a Vorcaro os contatos do ministro do STF e, posteriormente, participou da organização de encontros entre os dois.

O conteúdo ganhou ainda mais repercussão porque, em outras conversas com Vorcaro, Fábio Faria fez referência a uma festa que envolveria autoridades políticas e mencionou mulheres chamadas de “suíças”. Em uma das mensagens, aparece o nome do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

As mensagens, contudo, não identificam quem seriam essas mulheres, nem esclarecem a natureza dos encontros. Também não constituem, por si só, prova de qualquer crime ou de eventual traição conjugal.

O conjunto dos documentos, porém, coloca Fábio Faria em uma posição relevante dentro da cronologia da aproximação entre Vorcaro e Moraes.

O início da aproximação entre Fábio Faria, Vorcaro e Moraes

De acordo com o relatório da Polícia Federal, a aproximação ganhou forma no final de 2023.

Fábio Faria teria enviado a Daniel Vorcaro os números de telefone de Alexandre de Moraes pelo WhatsApp. O contato teria sido imediatamente salvo na agenda do banqueiro.

Pouco depois, Faria encaminhou a Vorcaro uma mensagem mencionando “Alex” e um almoço marcado para o dia 30.

As conversas posteriores indicam que a relação deixou de ser apenas uma apresentação informal.

O material analisado pela PF registra tratativas sobre horários, locais e encontros entre Vorcaro e Moraes. Segundo as mensagens, os dois teriam se encontrado pelo menos seis vezes.

O ex-ministro aparece, portanto, não apenas como alguém que apresentou duas pessoas, mas como alguém que, em determinados momentos, ajudou a fazer a conexão funcionar.

A investigação identificou conversas em que Faria pergunta a Vorcaro se ele poderia falar, menciona que conversaria com um interlocutor identificado por um emoji de homem careca e pergunta se o banqueiro havia respondido a “Vivi”.

A referência a “Vivi” seria a Viviane Barci de Moraes, advogada e esposa de Alexandre de Moraes.

A aproximação com o escritório de Viviane Barci de Moraes

Esse ponto é particularmente importante para entender a dimensão da relação.

As mensagens analisadas pela PF indicam que Fábio Faria também apareceu nas tratativas que envolveram o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes.

O relatório policial aponta que Faria teria participado da aproximação e das tratativas relacionadas ao escritório.

Posteriormente, o Banco Master firmou contrato com a banca de Viviane.

A investigação também identificou alterações no documento atribuídas ao usuário denominado “Ministro Alexandre de Moraes”. Segundo os dados apresentados pela PF, a última modificação do documento ocorreu em janeiro de 2024, antes da assinatura do contrato.

A Folha informou que o contrato envolvia valor total de aproximadamente R$ 131 milhões, enquanto outra reportagem descreveu pagamentos mensais e negociações relacionadas à prestação de serviços jurídicos.

A existência do contrato, por si só, não prova ilegalidade. A questão investigada é se houve eventual conflito de interesses, interferência ou atuação indevida de autoridades em uma relação comercial envolvendo uma instituição financeira posteriormente investigada.

Fábio Faria afirmou que apenas sugeriu o escritório de Viviane Barci de Moraes para atuar em um caso na Justiça de São Paulo. Segundo sua versão, ele não participou de reuniões com a banca e não tomou conhecimento dos valores contratados.

O “Careca” e os encontros com Moraes

Outro elemento que chamou a atenção dos investigadores foram as referências ao “Careca”.

Em diferentes mensagens, Fábio Faria tratava de encontros entre Vorcaro e uma pessoa identificada dessa maneira.

Segundo a investigação, a referência seria a Alexandre de Moraes.

Em determinado momento, Faria informou a Vorcaro que havia confirmado um jantar com “o Careca”.

Em outra ocasião, Vorcaro procurou Moraes diretamente para marcar uma reunião.

A resposta do ministro, segundo o material divulgado, foi que não conseguiria jantar, mas teria tempo para “tomar um whisky”.

As conversas revelam, portanto, uma relação que, segundo a investigação, ultrapassava contatos estritamente formais.

Havia convites para almoços, jantares, encontros em residências e conversas pessoais.

A PF identificou pelo menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro.

Vorcaro e a preocupação com as investigações

A relevância das mensagens aumenta porque Daniel Vorcaro estava sendo investigado e demonstrava preocupação com sua situação perante as autoridades.

Dias antes de ser preso, em novembro de 2025, Vorcaro chegou a perguntar a Alexandre de Moraes se deveria deixar o país.

Em uma das mensagens, questionou se na segunda-feira já deveria estar fora.

No dia seguinte, informou que estava em voo e que iria diretamente encontrar o ministro.

Vorcaro acabou preso pela Polícia Federal em 17 de novembro de 2025, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta.

As mensagens também mostram o banqueiro tentando obter informações sobre as investigações e buscando ajuda de pessoas que ele acreditava possuir influência institucional.

Segundo o material analisado pela PF, Vorcaro chegou a mencionar a necessidade de atuação de “Andrei e Paulo”, em referência, segundo os investigadores, ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Augusto Passos Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

A segunda frente: Davi Alcolumbre e as “suíças”

Paralelamente às conversas sobre Moraes, Faria e Vorcaro mantiveram diálogos que provocaram uma enorme repercussão pública por outro motivo.

Em uma conversa de outubro de 2023, Fábio Faria escreveu a Vorcaro:

“Davi está louco perguntando se as suíças vão vir. Se der, vamos trazer.”

Vorcaro respondeu:

“Virão sim.”

A referência a “Davi” foi interpretada nas reportagens como sendo Davi Alcolumbre, senador pelo Amapá e presidente do Senado Federal.

O diálogo menciona ainda uma programação envolvendo encontros e posteriormente faz referência a uma ida de Faria ao banco com seus sócios.

A investigação, entretanto, não esclareceu quem seriam as mulheres chamadas de “suíças”.

Esse detalhe é fundamental.

Não há, nas mensagens divulgadas, identificação das mulheres, descrição inequívoca do que aconteceria no encontro ou prova de que elas tenham sido contratadas para alguma finalidade ilícita.

Também não existe, a partir desse diálogo isolado, comprovação de que Fábio Faria tenha traído sua esposa, Patrícia Abravanel.

A repercussão envolvendo Patrícia Abravanel

A divulgação das conversas acabou ultrapassando o campo político.

Fábio Faria é casado com a apresentadora Patrícia Abravanel, filha do empresário e apresentador Silvio Santos.

A repercussão nas redes sociais levou Patrícia a limitar os comentários em suas publicações.

A apresentadora, contudo, não se pronunciou publicamente sobre o significado das mensagens.

Fábio Faria e Patrícia Abravanel estão juntos desde 2013 e têm três filhos: Senor, Pedro e Jane.

É importante não transformar uma conversa ambígua em uma conclusão sobre a vida pessoal do casal. O material da PF não identifica as mulheres e não estabelece qualquer relação entre o diálogo e uma eventual infidelidade.

O aspecto jornalisticamente relevante é outro: a conversa mostra que Vorcaro mantinha comunicação informal com Fábio Faria e que o ex-ministro tratava com o banqueiro sobre encontros envolvendo nomes de grande relevância política.

Davi Alcolumbre no centro da repercussão política

A menção a Davi Alcolumbre ganhou peso adicional porque o senador ocupa a Presidência do Senado, instituição responsável, entre outras atribuições, por processar pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal.

Alcolumbre também se tornou personagem importante na crise envolvendo Alexandre de Moraes.

Depois das revelações sobre a relação entre Moraes e Vorcaro, setores da oposição aumentaram a pressão por um processo de impeachment contra o ministro.

Alcolumbre, entretanto, tem resistido a abrir esse tipo de procedimento.

A oposição passou a questionar justamente a proximidade política entre o presidente do Senado e integrantes do STF, enquanto aliados de Alcolumbre afirmam que não houve mudança de posição em razão das novas revelações.

Assim, uma mensagem aparentemente lateral — sobre uma festa e as chamadas “suíças” — passou a ser examinada dentro de um contexto político muito maior.

O que a PF efetivamente encontrou

O ponto mais importante é separar as informações comprovadas documentalmente das interpretações.

A Polícia Federal encontrou no celular de Daniel Vorcaro mensagens que:

  • registram a comunicação entre Vorcaro e Fábio Faria;
  • indicam que Faria repassou contatos de Alexandre de Moraes;
  • mostram Faria ajudando a organizar encontros entre Vorcaro e Moraes;
  • fazem referência a “Alex” e a “Careca”;
  • registram conversas sobre encontros, almoços, jantares e bebidas;
  • fazem referência a “Vivi”, identificada como Viviane Barci de Moraes;
  • indicam participação de Faria nas tratativas envolvendo o escritório da esposa de Moraes;
  • apresentam uma conversa em que Faria menciona Davi Alcolumbre e as chamadas “suíças”.

Esses são elementos documentais encontrados nas mensagens.

Outra questão completamente diferente é saber qual era a finalidade dessas relações e se alguma delas configurou ilícito.

Isso depende de investigação, contraditório, análise de documentos e eventual produção de outras provas.

Fábio Faria se defende

Fábio Faria negou ter participado de qualquer irregularidade.

Sobre o escritório de Viviane Barci de Moraes, afirmou que apenas fez uma indicação e que não participou da negociação dos valores.

Também disse desconhecer os valores envolvidos no contrato.

A posição apresentada pelo ex-ministro é importante porque o relatório da PF descreve sua participação na aproximação entre Vorcaro e Moraes, mas isso não significa automaticamente que Faria tenha cometido algum crime.

Até o momento, o fato de ter intermediado contatos não é suficiente, isoladamente, para estabelecer responsabilidade criminal.

Alexandre de Moraes não respondeu

Alexandre de Moraes foi procurado por reportagens que divulgaram o conteúdo das mensagens, mas não apresentou manifestação sobre os questionamentos feitos.

O ministro aparece no centro da investigação devido à quantidade de contatos com Vorcaro, aos encontros presenciais e às mensagens relacionadas à situação do banqueiro.

Também estão sob análise as circunstâncias do contrato entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes.

A defesa ou manifestação dos envolvidos é especialmente relevante porque as mensagens, embora possam revelar relações e cronologias, não estabelecem sozinhas a existência de um crime.

O papel de André Mendonça

Todo o material veio à tona após o ministro André Mendonça, do STF, determinar o levantamento do sigilo de partes da investigação.

Mendonça passou a analisar o material produzido pela Polícia Federal relacionado ao caso Banco Master.

A divulgação provocou uma crise interna no Supremo.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, criticou a atuação de Mendonça e pediu providências contra a forma como a investigação foi conduzida, enquanto Mendonça solicitou ao presidente do STF, Edson Fachin, que o plenário discutisse presencialmente as mensagens.

Fachin, por sua vez, determinou que Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues prestassem esclarecimentos sobre pontos relacionados ao caso.

A crise, portanto, deixou de ser exclusivamente financeira e passou a envolver diretamente a relação entre STF, PGR e Polícia Federal.

O significado político das mensagens

O elemento mais sensível das revelações não está necessariamente em uma única mensagem.

É a combinação de diferentes fatos.

Primeiro, um ex-ministro do governo Bolsonaro aparece aproximando um banqueiro de um ministro do STF.

Depois, as mensagens mostram encontros recorrentes entre o banqueiro e o magistrado.

Em seguida, surge a negociação de um contrato milionário entre o banco e o escritório da esposa do ministro.

Paralelamente, o celular do banqueiro registra conversas informais com políticos e autoridades, inclusive Fábio Faria e referências a Davi Alcolumbre.

Finalmente, as mesmas mensagens revelam que Vorcaro procurava obter ajuda diante das investigações que atingiam seu banco.

É essa sequência que transformou o conteúdo apreendido em uma crise institucional de grandes proporções.

Resumo das três matérias

A primeira revelação: a Polícia Federal identificou Fábio Faria como intermediário na aproximação entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes. O ex-ministro teria fornecido os contatos do magistrado e ajudado a organizar encontros entre os dois.

A segunda revelação: mensagens entre Fábio Faria e Vorcaro mostram que o ex-ministro também tratava de encontros e eventos envolvendo autoridades políticas. Uma das conversas menciona Davi Alcolumbre e mulheres chamadas de “suíças”.

A terceira dimensão: as mensagens precisam ser interpretadas dentro de uma investigação muito mais ampla sobre a relação entre Vorcaro, Moraes, o Banco Master, o escritório de Viviane Barci de Moraes, a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República.

O que ainda não está provado

Apesar da gravidade política das revelações, é necessário estabelecer limites.

As mensagens não provam, sozinhas, que Fábio Faria tenha praticado crime.

Também não provam que Davi Alcolumbre tenha cometido qualquer irregularidade por causa da referência às “suíças”.

Não identificam as mulheres mencionadas.

Não comprovam uma relação extraconjugal de Fábio Faria.

E não demonstram automaticamente que os encontros entre Vorcaro e Moraes tenham tido finalidade ilícita.

O que as mensagens comprovam, segundo o material divulgado, é a existência de uma rede de contatos e de relações informais que aproxima personagens dos mundos empresarial, político e judicial.

É justamente essa proximidade que agora precisa ser esclarecida.

Conclusão

As três matérias, reunidas, desenham um cenário politicamente explosivo.

Daniel Vorcaro, investigado e ex-controlador do Banco Master, mantinha uma rede de contatos que alcançava empresários, políticos, autoridades policiais e integrantes do Judiciário.

Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro, aparece como uma das peças dessa rede, atuando na aproximação entre Vorcaro e Alexandre de Moraes.

Alexandre de Moraes, por sua vez, aparece nas mensagens como interlocutor frequente do banqueiro, inclusive em período anterior à prisão de Vorcaro.

Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, aparece porque seu escritório manteve relação contratual com o Banco Master.

Davi Alcolumbre surge em uma conversa relacionada a um encontro em que Fábio Faria menciona as chamadas “suíças”, embora o material divulgado não esclareça quem eram essas mulheres ou o significado exato da expressão.

E, por trás de todos esses personagens, permanece a questão central: até onde iam essas relações e qual era a finalidade dos contatos?

Essa é a pergunta que a investigação precisa responder.

As mensagens revelam proximidade. Revelam intermediações. Revelam encontros. Revelam conversas informais.

Mas a transformação dessas revelações em acusações criminais depende de algo que nenhuma mensagem isolada pode substituir: provas capazes de demonstrar, de forma objetiva, a existência de uma conduta ilegal e a responsabilidade individual de cada envolvido.

É nesse ponto que o caso Banco Master deixa de ser apenas uma sucessão de mensagens vazadas e passa a representar um teste para a capacidade das instituições brasileiras de investigar, esclarecer e responsabilizar, quando houver provas, sem transformar suspeitas em condenações antecipadas.

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