
Fala de Lula sobre homem negro sem dentes provoca acusação de racismo
Deputado Carlos Jordy protocola representação na PGR; governo defende que contexto da declaração foi distorcido
O deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ) acionou a Procuradoria-Geral da República após uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ser considerada racista. A fala, feita durante evento em Sorocaba (SP) na última quinta-feira (21), criticava a escolha de uma foto usada em peça publicitária do governo que mostrava um homem negro sorrindo sem dentes ao lado de uma mulher branca de descendência europeia.
Segundo Lula, ao ver a imagem, questionou um ministro sobre a decisão: “Um cara sem dente e ainda negro. Você não acha que isso é preconceito?”. A declaração tinha o objetivo de criticar a utilização da imagem, apontando o preconceito implícito na propaganda oficial.
Para Carlos Jordy, porém, as palavras do presidente configuram racismo. O deputado comparou o episódio à postura de partidos de esquerda durante a gestão Bolsonaro: “Por muito menos, partidos de esquerda teriam protocolado centenas de representações. Mas quando se trata de Lula, é o ‘racismo do bem’”, afirmou. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) também classificou a fala como “absurdamente racista” e questionou como a Justiça reagiria se o autor fosse Bolsonaro. Nas redes sociais, a hashtag #LulaRacista chegou a figurar entre os assuntos mais comentados.
O Ministério da Igualdade Racial e aliados do governo explicaram que a fala de Lula foi retirada de contexto. Segundo nota, o presidente relatou o episódio para criticar o preconceito da imagem e reforçou a necessidade de políticas públicas de saúde bucal, especialmente para os mais pobres, retomando o programa Brasil Sorridente. A edição do vídeo teria suprimido essa explicação, gerando interpretação equivocada sobre a intenção do presidente.
A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, também defendeu Lula, afirmando que o objetivo era questionar a reprodução de estigmas raciais: “Mostrar isso é reproduzir uma visão que tentamos banir. Não porque a desigualdade não exista, mas porque usar esse tipo de imagem reforça hierarquias e preconceitos”.
O episódio coloca novamente em pauta o debate sobre racismo, representações midiáticas e o cuidado na utilização de imagens de grupos historicamente marginalizados em campanhas institucionais.