
Flávio Bolsonaro anuncia voto a favor do fim da escala 6×1 após visitar o pai e defende mudanças para proteger trabalhadores e empresas
Senador e candidato à Presidência afirma que respeitará a vontade da maioria dos trabalhadores, mas cobra flexibilidade na jornada e compensação do governo aos empresários; proposta prevê redução da carga semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, anunciou nesta terça-feira, 13 de outubro de 2026, que votará a favor da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6×1. A declaração foi feita após uma visita ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. A votação da proposta no Senado está prevista para quarta-feira, 14 de outubro.
A decisão marca uma mudança de posicionamento de Flávio, que vinha criticando a iniciativa e questionando a forma como o governo Lula passou a defender o tema durante o período eleitoral. Apesar das ressalvas anteriores, o senador afirmou que levará em consideração a posição manifestada pelos trabalhadores brasileiros e confirmou que votará favoravelmente à medida.
“Estou rodando o Brasil, e a maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da 6 por 1. Então, vou votar a favor do fim da 6 por 1”, declarou Flávio. Ao mesmo tempo, ressaltou que defende uma alternativa que, em sua avaliação, ofereça mais liberdade para os trabalhadores organizarem suas próprias jornadas.
Flávio defende o trabalhador, mas cobra responsabilidade com as empresas
Ao explicar sua posição, Flávio Bolsonaro argumentou que a redução da jornada precisa ser acompanhada de medidas capazes de evitar prejuízos econômicos, especialmente para empresas que já enfrentam dificuldades financeiras.
O senador afirmou que a diminuição das horas trabalhadas poderá exigir novas contratações e elevar os custos dos empregadores. Também alertou para o risco de aumento da informalidade caso a mudança seja implementada sem mecanismos adequados de adaptação.
“Os empresários estão sufocados, estão quebrados. Então o governo vai ter que bancar essa compensação”, declarou, ao defender que o poder público assuma os custos adicionais relacionados à transição.
Entretanto, Flávio ainda não apresentou uma estimativa dos gastos nem detalhou como o governo financiaria essa eventual compensação. O tema permanece como um dos pontos que exigem esclarecimentos na discussão sobre a implementação da proposta.
A posição anunciada pelo senador reúne duas preocupações: a reivindicação dos trabalhadores por mais tempo de descanso e a necessidade de avaliar os impactos financeiros da redução da jornada sobre empresas de diferentes portes.
Liberdade para organizar a jornada de trabalho
Além de confirmar seu voto favorável ao fim da escala 6×1, Flávio voltou a defender um modelo que permita maior flexibilidade na organização dos horários.
O candidato questionou como uma jornada rígida poderia atender às necessidades de pessoas que precisam conciliar o emprego com os cuidados familiares, especialmente mães que não dispõem de alguém para cuidar dos filhos durante todo o dia.
“Como fica aquela mãe que não tem com quem deixar seu filho e só pode trabalhar, por exemplo, quatro horas por dia? Ou só pode trabalhar de manhã? Ou só pode trabalhar à tarde?”, questionou.
Flávio também defendeu a possibilidade de o trabalhador negociar diretamente com o empregador uma jornada compatível com suas necessidades, inclusive com remuneração por hora trabalhada.
A proposta de flexibilidade, contudo, levanta uma questão importante para o debate público: como assegurar que a negociação entre empregado e empregador ocorra sem enfraquecer direitos trabalhistas, reduzir a previsibilidade da renda ou ampliar a vulnerabilidade de quem depende do salário para sobreviver?
O desafio será encontrar um equilíbrio entre liberdade de organização, proteção legal, remuneração adequada e condições dignas de trabalho.
O que muda com o fim da escala 6×1?
A escala 6×1 é um regime no qual o trabalhador trabalha seis dias e descansa um. A proposta em discussão busca alterar esse modelo, reduzindo a jornada semanal de 44 para 40 horas e estabelecendo dois dias de descanso por semana, preferencialmente aos domingos, sem redução salarial.
O texto prevê uma implementação gradual. Conforme o cronograma divulgado para a proposta, a jornada seria inicialmente reduzida para 42 horas semanais, dois meses após a promulgação, chegando a 40 horas depois de mais 12 meses.
A medida pretende ampliar o tempo disponível para descanso, convivência familiar, lazer e cuidados pessoais. Seus efeitos concretos, porém, dependerão das regras aprovadas, do período de adaptação e das condições de cada setor econômico.
A discussão envolve trabalhadores do comércio, dos serviços, da indústria e de outras atividades que utilizam escalas de trabalho, além de empresas que precisarão reorganizar equipes, horários e custos operacionais.
Por se tratar de uma PEC, a proposta precisa cumprir as etapas constitucionais de votação no Congresso antes de se tornar uma mudança definitiva. A declaração de Flávio representa o anúncio de seu posicionamento, e não a aprovação final da medida.
Visita a Jair Bolsonaro e repercussão política
O anúncio ocorreu depois de Flávio visitar Jair Bolsonaro, em Brasília, após a autorização para a retomada dos encontros presenciais entre pai e filho. As visitas estavam suspensas havia cerca de três meses, em razão de restrições determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
A autorização para o encontro manteve restrições relacionadas ao uso político-eleitoral das visitas e à divulgação de cartas, manifestos ou declarações do ex-presidente por terceiros.
Após deixar a residência do pai, Flávio afirmou que recebeu orientações e conselhos para a reta final da campanha presidencial. O encontro aconteceu em um momento decisivo da disputa pelo segundo turno, marcado para 25 de outubro.
A mudança de posição sobre a escala 6×1 também ocorre em meio à pressão pública em torno do tema. Lula vinha desafiando o adversário a declarar se apoiaria a proposta, enquanto manifestações recentes em grandes cidades reforçaram a cobrança pelo fim do regime de seis dias de trabalho para um de descanso.
O presidente atribuiu a mudança de posicionamento do PL à pressão popular. Flávio, por sua vez, justificou seu voto afirmando que a maioria dos trabalhadores brasileiros deseja o fim da escala.
Anteriormente, o senador havia classificado a iniciativa como oportunista e questionado o momento escolhido pelo governo para impulsionar a discussão. Agora, mesmo mantendo críticas ao texto e às possíveis consequências econômicas, anunciou que votará a favor.
O significado da decisão e os pontos que ainda precisam ser esclarecidos
A declaração de Flávio Bolsonaro coloca o candidato entre os parlamentares que afirmam apoiar o fim da escala 6×1, embora com ressalvas sobre a forma de implementação.
O anúncio também evidencia que a discussão ultrapassa a disputa entre governo e oposição. O tema envolve uma reivindicação trabalhista de grande alcance e exige respostas sobre produtividade, geração de empregos, custos empresariais, informalidade e preservação dos salários.
O apoio declarado pelo senador deve ser acompanhado de atenção a três pontos fundamentais: o voto efetivamente registrado no Senado, a apresentação de mecanismos concretos para compensar eventuais custos e a definição de garantias para que a flexibilidade de horários não se transforme em precarização das relações de trabalho.
O mérito do debate está em buscar uma solução que considere tanto a qualidade de vida de quem trabalha quanto a sustentabilidade dos empregos e das atividades econômicas. O fim da escala 6×1 pode representar uma mudança significativa na rotina de milhões de brasileiros, mas sua efetividade dependerá das regras aprovadas e da capacidade de garantir direitos sem ignorar os desafios da implementação.
Ao anunciar seu voto favorável, Flávio assume publicamente uma posição sobre uma das questões trabalhistas mais discutidas do momento. A próxima etapa será verificar como essa declaração se traduzirá na votação e quais propostas concretas serão apresentadas para conciliar descanso, renda, liberdade de organização e segurança econômica.
O debate está aberto, e a decisão do Senado será determinante para os próximos passos da proposta. Mais do que declarações de campanha, os trabalhadores e os empregadores precisarão de regras claras, compromissos verificáveis e medidas que produzam resultados concretos na vida cotidiana.