
Flávio Bolsonaro defende medalha concedida a Adriano da Nóbrega há mais de 20 anos e diz: “Era um policial exemplar na época”
Candidato à Presidência afirma que homenagem ocorreu quando o ex-capitão do Bope ainda era reconhecido profissionalmente; Flávio também explica contratação de familiares de Adriano em seu gabinete e sustenta que não poderia prever no que o policial se transformaria anos depois
O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) voltou a ser questionado sobre sua relação com Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro que, anos mais tarde, passou a ser apontado pelas autoridades como chefe do grupo criminoso conhecido como Escritório do Crime.
Durante a sabatina do Jornal Nacional, da TV Globo, nesta sexta-feira (28), Flávio defendeu a homenagem concedida a Adriano e fez questão de ressaltar um detalhe temporal que considera fundamental para compreender o episódio: a medalha foi concedida há mais de duas décadas, quando, segundo sua versão, Adriano ainda tinha a imagem de policial exemplar.
“Na época, ele era um policial exemplar”, afirmou o senador ao explicar a homenagem. Segundo Flávio, Adriano era conhecido por sua atuação no Bope e não possuía, naquele momento, as acusações que posteriormente marcaram sua trajetória.
A explicação é uma tentativa de colocar o episódio no seu devido período histórico.
Flávio argumenta que não se pode olhar para o Adriano dos anos posteriores e projetar automaticamente aquela imagem sobre o policial que conheceu décadas antes.
A medalha foi concedida mais de 20 anos atrás
Esse é o principal ponto da defesa de Flávio.
A Medalha Tiradentes, considerada a mais importante honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), foi entregue a Adriano da Nóbrega quando ele ainda atuava como policial militar e era visto, segundo o candidato, como integrante destacado da corporação.
Flávio sustenta que, naquele período, não havia informações que justificassem uma avaliação negativa do homenageado.
A comparação temporal é fundamental.
O Adriano homenageado por Flávio e o Adriano que, anos depois, passou a ser associado ao Escritório do Crime são a mesma pessoa, mas pertencem a momentos completamente diferentes da trajetória do ex-policial.
É justamente nessa passagem do tempo que o candidato sustenta sua defesa.
“Eu não posso ser responsabilizado pelo que a pessoa se transforma”
Flávio também apresentou uma justificativa mais ampla.
Segundo ele, uma pessoa pode mudar de trajetória ao longo de cinco, dez, 15 ou 20 anos, e não seria razoável responsabilizar quem teve contato com ela no início da carreira por tudo o que acontecesse posteriormente.
“Eu não posso ser responsabilizado pelo que a pessoa se transforma depois de cinco, 10, 15, 20 anos”, afirmou.
Esse argumento forma o núcleo da defesa política.
Flávio não nega a homenagem.
Não tenta apagar o episódio.
Também não afirma que Adriano permaneceu “exemplar” durante toda a vida.
Sua argumentação é temporal:
na época da homenagem, segundo ele, a situação era outra.
Quem foi Adriano da Nóbrega
Adriano Magalhães da Nóbrega foi capitão do Bope e ganhou notoriedade por sua atuação na Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Posteriormente, seu nome passou a aparecer em investigações relacionadas ao chamado Escritório do Crime, grupo acusado de envolvimento com homicídios por encomenda e outras atividades criminosas.
Adriano também foi associado a investigações sobre milícias e tornou-se personagem recorrente em apurações sobre a criminalidade organizada no Rio.
Ele morreu em 2020, durante uma operação policial na Bahia.
Sua trajetória posterior é justamente o que hoje transforma a antiga homenagem em um problema eleitoral para Flávio Bolsonaro.
O que mudou ao longo dos anos
A defesa de Flávio depende de uma questão simples: o que se sabia sobre Adriano quando a homenagem foi concedida?
É diferente conhecer um policial premiado por seu desempenho profissional em determinada época e, anos depois, descobrir que esse mesmo indivíduo passou a ser alvo de graves acusações.
Essa diferença temporal é relevante.
Uma homenagem não constitui prova de participação em eventual crime futuro.
Da mesma forma, porém, a passagem do tempo não impede que a sociedade questione a decisão política tomada naquele momento.
O debate, portanto, não é simplesmente sobre culpa.
É sobre quais informações estavam disponíveis quando a homenagem foi concedida e por que Flávio considerou Adriano merecedor daquela distinção.
A Medalha Tiradentes
A Medalha Tiradentes é uma das principais honrarias do Legislativo fluminense.
Concedê-la representa uma manifestação institucional de reconhecimento.
Por isso, uma homenagem desse tipo ganha peso quando o homenageado posteriormente se torna alvo de investigações criminais.
Flávio sustenta que a medalha foi um reconhecimento à atuação profissional de Adriano e, naquele momento, também representava uma homenagem à sua guarnição.
A explicação apresentada durante a sabatina é que o ex-capitão era considerado um policial de elite e estava sendo, na avaliação de Flávio, injustamente perseguido.
A prisão que Flávio considera injusta
Outro ponto mencionado pelo candidato foi a prisão sofrida por Adriano no passado.
Flávio afirmou que o ex-policial havia sido preso em razão de um episódio envolvendo uma troca de tiros com criminosos e que, à época, considerava a prisão injusta.
Essa avaliação ajuda a explicar por que a relação entre Flávio e Adriano se estreitou.
Foi nesse contexto, segundo o candidato, que passou a conhecer também familiares do ex-policial.
Essa proximidade posteriormente produziria outro capítulo controverso.
A contratação da mãe e da esposa
Durante a mesma sabatina, Flávio foi questionado sobre a contratação da mãe e da esposa de Adriano da Nóbrega para trabalhar em seu gabinete na Alerj.
O caso veio à tona no contexto das investigações sobre o chamado esquema de rachadinhas.
A contratação de familiares de Adriano tornou-se um dos pontos mais explorados por adversários de Flávio porque demonstra que a relação não se limitou à concessão de uma medalha.
Houve também uma aproximação institucional com pessoas do círculo familiar do ex-policial.
Flávio novamente recorreu ao contexto da época.
Segundo ele, conheceu a família quando Adriano estava preso e era, em sua avaliação, vítima de uma injustiça.
A mãe de Adriano no gabinete
Flávio explicou que conheceu a mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, por meio de movimentos relacionados à defesa de mulheres de policiais e militares.
Segundo o candidato, ela participava de atividades voltadas a esposas e familiares de agentes de segurança que consideravam seus parentes perseguidos injustamente.
A contratação, portanto, teria ocorrido dentro desse contexto.
A explicação não elimina as dúvidas levantadas posteriormente, mas apresenta a versão de Flávio sobre a origem da relação.
O episódio das “rachadinhas”
A relação com Adriano também apareceu durante as investigações sobre o gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj.
O esquema conhecido como “rachadinha” consiste na apropriação, por parte de um parlamentar ou assessor, de parte dos salários pagos a funcionários do gabinete.
O caso relacionado ao gabinete de Flávio produziu investigações sobre movimentações financeiras de antigos assessores e sobre a atuação de Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar.
Flávio sempre negou ter participado de qualquer esquema criminoso e sua defesa contestou os elementos apresentados contra ele.
A menção a Adriano ocorre porque familiares do ex-policial foram empregados no gabinete.
A questão política
A crítica dirigida a Flávio possui uma lógica evidente.
Se Adriano passou a ser apontado como integrante de uma organização criminosa, seus adversários perguntam por que ele recebeu uma homenagem tão importante e por que seus familiares foram contratados para trabalhar no gabinete.
A resposta de Flávio é igualmente direta:
porque, naquele momento, ele não possuía a reputação criminosa que adquiriu posteriormente.
É uma defesa baseada no contexto temporal.
Uma fotografia do passado
O episódio também mostra como a política é capaz de reabrir decisões tomadas décadas atrás.
Uma medalha concedida mais de 20 anos atrás poderia ter permanecido como uma lembrança esquecida da carreira parlamentar de Flávio.
Mas o destino posterior de Adriano modificou completamente o significado político daquele gesto.
Hoje, a medalha voltou a aparecer no debate presidencial.
Isso demonstra como personagens públicos nunca controlam totalmente a forma como seus atos do passado serão interpretados no futuro.
A defesa de Flávio precisa enfrentar dois tempos
O senador tenta separar duas imagens.
A primeira:
Adriano, policial do Bope, reconhecido e homenageado.
A segunda:
Adriano, anos depois, associado pelas autoridades a atividades criminosas.
Sua tese é que não se pode utilizar a segunda imagem para julgar automaticamente a primeira.
É um argumento temporalmente coerente.
Mas seus críticos podem responder que justamente o conhecimento sobre a trajetória do policial e as relações estabelecidas ao longo dos anos deveriam ser objeto de questionamento.
O problema das relações políticas
A política brasileira frequentemente trabalha com relações pessoais.
Parlamentares homenageiam policiais.
Recebem famílias em seus gabinetes.
Ajudam grupos profissionais.
Criam vínculos com lideranças comunitárias.
Essas relações fazem parte da atividade política.
O problema surge quando, posteriormente, um dos personagens se torna alvo de acusações graves.
A partir daí, cada decisão anterior passa a ser reinterpretada.
Isso não significa que toda relação anterior seja ilícita.
Mas explica por que as perguntas continuam surgindo.
Observação em destaque
OBSERVAÇÃO: Flávio Bolsonaro afirma que a Medalha Tiradentes foi concedida a Adriano da Nóbrega há mais de 20 anos, quando o ex-capitão do Bope, segundo sua versão, era reconhecido como um “policial exemplar”. As acusações que posteriormente associaram Adriano ao crime organizado surgiram em outro período de sua trajetória. Portanto, a homenagem, isoladamente, não demonstra que Flávio Bolsonaro tivesse conhecimento antecipado de futuras acusações ou atividades criminosas. O que permanece legítimo é o debate político sobre os critérios usados para conceder a honraria e manter relações posteriores com familiares do ex-policial.
A morte de Adriano em 2020
Adriano da Nóbrega morreu em fevereiro de 2020, durante uma operação policial no município de Esplanada, na Bahia.
Sua morte encerrou uma trajetória que havia começado dentro de uma unidade de elite da Polícia Militar e terminado sob intensa suspeita das autoridades.
Para Flávio, porém, o fato de Adriano ter seguido uma trajetória diferente anos depois não poderia apagar aquilo que o senador afirma ter conhecido no passado.
Essa é a base de sua defesa.
O desafio de Flávio na campanha
O episódio é delicado porque aparece em uma eleição presidencial.
Não se trata mais apenas da história de um deputado estadual e de um policial militar.
Flávio é agora candidato à Presidência.
Cada relação de seu passado é reexaminada.
Cada homenagem ganha novo significado.
Cada aliado é novamente apresentado ao eleitor.
E a pergunta que acompanha o candidato é sempre a mesma:
o que ele sabia e quando sabia?
No caso de Adriano, Flávio responde que não sabia de qualquer atividade criminosa quando concedeu a homenagem.
O ponto que a defesa precisa provar politicamente
Flávio não precisa provar que Adriano nunca cometeu crimes.
Essa questão pertence às investigações e à Justiça.
O que o candidato precisa explicar é outra coisa:
por que o considerava digno da homenagem naquele momento e por que manteve relações com seus familiares.
Sua resposta já foi dada:
era um policial reconhecido, estava sendo injustamente preso e somente muito depois sua trajetória teria tomado outro rumo.
Essa explicação deverá ser confrontada pelo eleitor com os demais fatos conhecidos sobre o caso.
Entre o policial e o personagem posterior
Há uma ironia pesada na história.
A Medalha Tiradentes foi criada para homenagear pessoas consideradas merecedoras pelo Legislativo fluminense.
Décadas depois, o nome de um dos homenageados tornou-se associado justamente ao submundo criminal que a polícia deveria combater.
É essa inversão que transforma uma antiga condecoração em problema político.
Flávio olha para o passado.
Seus adversários olham para o desfecho.
E a campanha coloca os dois momentos frente a frente.
O que fica da explicação
A resposta de Flávio é baseada em uma premissa que merece ser considerada:
ninguém pode prever completamente o futuro de uma pessoa.
Um policial pode ser considerado exemplar aos 25 ou 30 anos e, muitos anos depois, envolver-se em atividades criminosas.
Uma homenagem concedida no passado não constitui prova automática de cumplicidade com crimes posteriores.
Ao mesmo tempo, relações políticas duradouras precisam ser explicadas quando surgem fatos novos.
Essa é a parte que continuará acompanhando a candidatura.
Conclusão
A antiga homenagem a Adriano da Nóbrega voltou ao debate nacional porque o passado político de Flávio Bolsonaro está sendo revisitado em plena disputa pela Presidência.
Flávio afirma que a medalha foi concedida há mais de 20 anos, quando Adriano ainda era, em sua avaliação, um policial exemplar.
Também afirma que não poderia prever que, anos depois, o ex-capitão do Bope seria apontado pelas autoridades como líder do Escritório do Crime.
O candidato ainda explicou que a contratação da mãe e da esposa de Adriano ocorreu dentro de um contexto no qual considerava o policial injustamente perseguido.
Essas são as explicações apresentadas pelo próprio Flávio Bolsonaro.
O outro lado da história é que, posteriormente, Adriano passou a ser associado pelas autoridades a organizações criminosas, e suas relações com a família Bolsonaro tornaram-se objeto de intenso escrutínio.
A pergunta que permanece não é necessariamente se Flávio poderia prever o futuro.
É mais simples e mais concreta:
quais informações existiam naquele momento, quais critérios foram utilizados para conceder a Medalha Tiradentes e por que a relação com os familiares de Adriano continuou depois da homenagem?
Flávio respondeu que, naquela época, conhecia apenas o policial que considerava exemplar.
Agora, cabe à história — e aos documentos — separar a homenagem concedida há mais de duas décadas das acusações que surgiram muitos anos depois.