
Globo transmite ao vivo xingamentos contra Lula durante a Festa do Peão de Barretos
Protestos partiram de parte do público durante a transmissão da 71ª Festa do Peão; episódio ocorreu em um evento marcado pela presença de Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira e por forte identificação com o agronegócio
A transmissão da Festa do Peão de Barretos, realizada pela TV Globo na noite de sábado (22), acabou registrando ao vivo um dos momentos mais politizados da edição de 2026. Durante uma entrada da emissora diretamente do evento, parte do público presente nas arquibancadas passou a entoar ofensas contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O áudio ambiente captado durante a transmissão levou o coro dos espectadores para a televisão. Segundo relatos publicados após o episódio, entre as manifestações ouvidas estava o grito: “Ei, Lula, vai tomar no c…”.
O episódio rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais e passou a ser interpretado dentro do ambiente político da campanha presidencial de 2026.
Um evento que já carregava forte conteúdo político
A manifestação aconteceu em uma noite particularmente marcada pela política.
Horas antes, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) havia subido ao palco principal da Festa do Peão acompanhado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), além de outros integrantes da direita, entre eles Nikolas Ferreira (PL-MG) e os candidatos ao Senado Guilherme Derrite e André do Prado.
Flávio fez um discurso curto e concentrou sua fala no agronegócio. Em vez de atacar diretamente Lula, o candidato afirmou que o setor rural estaria sendo “atacado” e prometeu recuperar seu protagonismo.
“Vamos resgatar o nosso agro. O agro vai voltar a ser um grande orgulho mundial.”
A ausência de ataques diretos a Lula no discurso de Flávio contrastou com a reação de parte da plateia, que, segundo relatos, passou a gritar “Fora Lula” e também a insultar o presidente.
A política entrou na arena
A Festa do Peão de Barretos possui uma relação histórica com o universo rural, a cultura sertaneja e o agronegócio. Por isso, o evento tornou-se também um espaço importante de aproximação de políticos com o eleitorado do interior.
A presença de Flávio e Tarcísio reforçou essa característica nesta edição.
Tarcísio declarou apoio à candidatura presidencial de Flávio e o apresentou como herdeiro do projeto político de Jair Bolsonaro. O governador também aproveitou seu discurso para exaltar o agronegócio e a própria Festa de Barretos como símbolos da produção e da cultura do interior paulista.
A participação de Nikolas Ferreira acrescentou outro elemento político. O deputado publicou nas redes sociais a frase “Neutro é detergente, o agro é 22”, associando o agronegócio ao número eleitoral do PL.
E o que a Globo mostrou?
A repercussão do episódio não ocorreu apenas porque houve manifestações políticas contra Lula, mas porque elas foram captadas durante uma transmissão ao vivo.
A reportagem que repercutiu o caso descreveu a cena como um momento em que a Globo transmitiu o coro de parte do público durante a cobertura da festa.
É importante fazer uma distinção: o fato de o áudio ter sido levado ao ar não significa que a emissora tenha endossado as manifestações. O que ocorreu, conforme os relatos disponíveis, foi a captação do som ambiente durante a transmissão.
Também não é possível atribuir o comportamento de toda a plateia ao conjunto do público presente. Os gritos partiram de parte dos espectadores e ocorreram em um ambiente com forte presença de apoiadores do campo conservador.
Gusttavo Lima também estava no centro da noite
O episódio ocorreu no contexto da apresentação de Gusttavo Lima, uma das principais atrações da Festa do Peão de Barretos.
O cantor retornou à arena após três anos e foi recebido com grande entusiasmo pelos fãs. Durante o espetáculo, manifestações contra Lula também foram registradas, mas Gusttavo Lima não aderiu aos gritos e manteve o foco na apresentação, segundo relatos sobre a noite.
O comportamento do artista chamou atenção justamente porque Gusttavo Lima é conhecido por sua proximidade com o eleitorado conservador e por ter declarado apoio a Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. Ainda assim, durante o show, sua postura foi a de não transformar a apresentação em discurso político.
Flávio não citou Lula no palco
Um dos aspectos mais interessantes da noite foi justamente o contraste entre o discurso do candidato e a reação do público.
Flávio falou sobre o agronegócio, sobre a necessidade de recuperar o setor e sobre a força do Brasil. Não fez de Lula o centro de sua fala.
Depois do discurso, entretanto, os gritos contra o presidente surgiram entre os espectadores.
Ao deixar o evento, Flávio ainda manifestou o desejo de retornar a Barretos em 2027 acompanhado do pai, Jair Bolsonaro, dizendo esperar que o ex-presidente pudesse estar ao seu lado.
A declaração reforçou a estratégia de apresentar Flávio como continuidade política do pai.
O simbolismo de Barretos para o bolsonarismo
A relação entre Bolsonaro e Barretos não é recente. Jair Bolsonaro já havia utilizado a Festa do Peão como espaço de aproximação com o agronegócio e com o eleitorado do interior paulista.
Flávio repetiu essa estratégia em 2026.
A diferença é que, desta vez, o ambiente foi atravessado por uma eleição presidencial já em andamento. O candidato chegou ao palco acompanhado por Tarcísio e outros representantes da direita, falou diretamente ao setor agropecuário e recebeu manifestações favoráveis de parte da plateia.
Nesse cenário, os gritos contra Lula acabaram funcionando como uma espécie de pano de fundo político para a noite.
A disputa eleitoral ao fundo
A manifestação também ocorreu em um momento de intensa disputa eleitoral.
Pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto apontou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro. Em uma simulação de segundo turno entre os dois, Lula apareceu com 47% e Flávio com 43%, segundo os números divulgados naquele período.
O agronegócio, portanto, tornou-se um dos segmentos estratégicos da campanha.
Para Flávio, Barretos representa a oportunidade de dialogar diretamente com esse eleitorado. Para Tarcísio, a festa oferece uma vitrine importante no interior paulista. Para Nikolas, o evento permite mobilizar uma base conservadora altamente engajada.
E, para Lula, os episódios de Barretos mostram o grau de resistência que sua candidatura ainda enfrenta em determinados segmentos do eleitorado.
Entre o entretenimento e a política
A Festa do Peão continua sendo, essencialmente, um grande evento cultural, musical e esportivo. A programação reúne rodeio, shows e artistas populares e atrai centenas de milhares de visitantes ao longo de sua realização.
Mas, em um ano eleitoral, a política inevitavelmente atravessa o espetáculo.
Na mesma noite estavam no Parque do Peão:
Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência;
Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo;
Nikolas Ferreira, deputado federal;
Guilherme Derrite, candidato ao Senado;
André do Prado, também candidato ao Senado;
Gusttavo Lima, principal atração musical da noite;
e uma multidão que reagiu de maneiras diferentes aos acontecimentos no palco.
A Globo apenas captou parte desse ambiente durante sua transmissão.
Um episódio que ganhou vida própria
O caso mostra como a fronteira entre entretenimento e política se tornou cada vez mais tênue durante a campanha de 2026.
O palco era de rodeio. O espetáculo era musical. A transmissão era televisiva. Mas, por alguns segundos, o som que dominou as imagens foi político.
Os gritos contra Lula não foram feitos por um candidato nem pela emissora: partiram de parte do público presente. A Globo, por sua vez, captou o áudio durante uma transmissão ao vivo, e o episódio passou a circular nas redes sociais.
O mérito da transmissão, do ponto de vista jornalístico, está justamente em registrar o ambiente como ele se apresentava naquele momento — sem confundir o comportamento de parte da plateia com a posição institucional da emissora ou com a opinião de todos os presentes.
Em Barretos, a noite que deveria ser dominada pelo rodeio e pela música sertaneja acabou oferecendo também uma fotografia do clima político brasileiro: um candidato presidencial falando ao agro, lideranças da direita reunidas, um cantor diante de uma multidão e, ao fundo, uma parcela do público transformando a arquibancada em manifestação contra o presidente da República.