
Governo Lula reconhece vice de Maduro e gera repúdio após crise na Venezuela
Brasil ignora captura de Maduro, legitima sucessão chavista e mantém discurso de soberania diante de ofensiva dos EUA
O governo brasileiro decidiu reconhecer a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, como presidente em exercício da Venezuela, mesmo após a captura de Nicolás Maduro durante a ofensiva militar dos Estados Unidos. A posição, anunciada neste sábado (3), provocou forte reação crítica e repúdio político, por ser vista como uma tentativa de preservar o regime chavista, ainda que sob nova liderança.
Após uma nova reunião ministerial para avaliar os desdobramentos da crise, a ministra substituta das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, afirmou que o Brasil seguirá defendendo a soberania venezuelana e condenando qualquer tipo de intervenção estrangeira. Segundo ela, o reconhecimento de Delcy Rodríguez estaria em conformidade com o direito internacional e com a tradição diplomática brasileira.
A decisão foi tomada com a participação virtual do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que manteve a mesma linha de posicionamento adotada desde o início dos ataques, mesmo após o pronunciamento do presidente norte-americano Donald Trump, que declarou que os EUA pretendem controlar a Venezuela durante o que chamou de “transição pacífica”.
Para críticos da postura brasileira, o reconhecimento da vice de Maduro representa conivência política com um regime acusado de autoritarismo, violações de direitos humanos e colapso institucional, além de ignorar o contexto excepcional criado pela queda do líder chavista.
O Itamaraty confirmou que o Brasil levará essa posição à reunião do Conselho de Segurança da ONU, marcada para a próxima segunda-feira, e também à reunião extraordinária da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), prevista para domingo.
Enquanto isso, o governo tenta minimizar os impactos internos da crise. O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmou que a fronteira com a Venezuela permanece aberta e tranquila, descartando qualquer fechamento em Pacaraima (RR). Segundo ele, cerca de 100 brasileiros que estavam no país já retornaram com apoio da embaixada.
Mais cedo, Lula usou as redes sociais para condenar duramente a ação dos Estados Unidos, classificando o ataque como uma “afronta inaceitável à soberania venezuelana” e alertando para os riscos de escalada de violência e instabilidade na América Latina. O presidente também comparou a ofensiva a episódios históricos de interferência externa na região.
Do lado norte-americano, Trump deixou claro que os EUA têm interesse direto nas reservas de petróleo da Venezuela, afirmando que empresas americanas deverão investir bilhões de dólares no país. O republicano também não descartou novas ações militares, caso considere necessário.
A decisão do governo brasileiro de reconhecer a vice de Maduro, em meio a um cenário de ruptura institucional e intervenção estrangeira, aprofunda a polarização política interna e reforça críticas de que o Planalto prioriza alinhamentos ideológicos, mesmo diante de uma crise internacional sem precedentes recentes na América do Sul.