
Sapucaí como palanque
Desfile que exaltou Lula gera reação e acusações de pré-campanha com dinheiro público
O que deveria ser apenas espetáculo virou debate nacional. A escola Acadêmicos de Niterói, primeira a desfilar no domingo (15) pelo Grupo Especial do Rio, levou para a Marquês de Sapucaí um enredo inteiramente dedicado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva — e não economizou nas provocações aos adversários.
Sob a narrativa da trajetória de Lula, contada a partir da visão de Dona Lindu, o desfile misturou emoção, militância e críticas políticas. Para opositores, no entanto, o evento ultrapassou os limites da homenagem cultural e se transformou em vitrine eleitoral antecipada.

Bolsonaro retratado como palhaço preso
Logo na comissão de frente, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi representado como o personagem “Bozo”. Em outro momento, surgiu a imagem de um palhaço atrás das grades, usando tornozeleira eletrônica — alegoria que gerou forte reação nas redes sociais.
Uma ala trouxe foliões fantasiados de latas de “família em conserva”, em referência à chamada família tradicional. Outra, intitulada “Patriotas da América”, exibiu símbolos ligados ao conservadorismo internacional, como o boné vermelho associado à campanha de Donald Trump.
Para críticos do governo, o tom deixou claro que o desfile foi além da arte e entrou no campo da disputa ideológica.
Lula na avenida e polêmica nos bastidores
O ator Paulo Vieira interpretou Lula na avenida, enquanto Juliana Baroni viveu Marisa Letícia. A atriz Dira Paes representou Dona Lindu.
O presidente acompanhou tudo de um camarote da Prefeitura do Rio, ao lado do prefeito Eduardo Paes, ministros e da primeira-dama Rosângela Lula da Silva. Lula chegou a descer à pista para cumprimentar integrantes da escola.
Janja era esperada em um dos carros alegóricos, mas desistiu de desfilar diante das acusações de propaganda antecipada. A cantora Fafá de Belém assumiu o posto.
TSE entra no radar
As cenas levaram a questionamentos formais. O Tribunal Superior Eleitoral passou a apurar possível propaganda eleitoral antecipada no desfile.
Para opositores, o problema não é o Carnaval — patrimônio cultural do país — mas o uso de recursos públicos e de uma festa popular para promover um governante em clima de campanha.
Cultura ou estratégia política?
O samba exaltou a história pessoal e política de Lula, repetiu palavras de ordem tradicionais da militância e incluiu versos como “sem mitos falsos, sem anistia”, reforçando o embate ideológico.
Enquanto apoiadores celebraram o enredo como reconhecimento à trajetória do presidente, críticos viram na Sapucaí um grande ato político travestido de festa.
A discussão agora ultrapassa a avenida: até que ponto o Carnaval pode servir de palco para homenagens políticas sem se transformar em instrumento de pré-campanha?