
Governo Lula tenta reabrir diálogo com Trump após tarifas surpresas: carta oficial será enviada aos EUA
Vice-presidente Alckmin e chanceler Mauro Vieira assinam documento pedindo retomada de negociações comerciais; decisão de Trump de sobretaxar exportações brasileiras pegou até autoridades americanas de surpresa.
O governo Lula está preparando uma nova cartada diplomática: uma carta endereçada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pedindo que as negociações tarifárias entre os dois países sejam retomadas. O documento será assinado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
A iniciativa é uma tentativa de reacender o diálogo após o susto causado pela decisão de Trump de sobretaxar todas as exportações brasileiras em 50% a partir de 1º de agosto — uma medida que surpreendeu até os próprios órgãos americanos envolvidos nas negociações, segundo relataram diplomatas ao Itamaraty.
Alckmin e Vieira vão reforçar o argumento já usado por Lula na semana passada, quando o presidente citou a separação entre os Poderes e lembrou que, apesar da pressão tarifária, os EUA acumulam um amplo superávit na balança comercial com o Brasil. Só neste ano, entre janeiro e junho, os americanos fecharam com saldo positivo de US$ 1,6 bilhão. Nos últimos 15 anos, o superávit dos EUA foi de cerca de US$ 410 bilhões.
A carta será enviada assim que o Palácio do Planalto der o sinal verde e seguirá via embaixada brasileira para os interlocutores norte-americanos: o Departamento de Comércio e o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). Esses mesmos órgãos participaram da primeira videoconferência técnica entre os dois países, realizada em março.
De acordo com o Itamaraty, o último contato oficial ocorreu no dia 4 de julho, apenas cinco dias antes do anúncio das tarifas. E desde 16 de maio, quando o governo brasileiro enviou uma proposta de negociação de forma reservada, não houve qualquer resposta vinda de Washington.
A pressão agora vem também do setor industrial brasileiro, que pede ao governo Lula que negocie ao menos uma prorrogação de 90 dias — até o fim de agosto — para tentar salvar parte das exportações. Entre os produtos mais afetados estão aeronaves, suco de laranja e itens de alta tecnologia, que perderiam totalmente a competitividade com as novas taxas.
Diante do silêncio americano e da dureza das medidas, Lula já deixou claro que poderá acionar a Lei de Reciprocidade Econômica, caso não haja avanço no diálogo. “As estatísticas do próprio governo dos Estados Unidos mostram que eles têm um superávit enorme com o Brasil”, afirmou o presidente.
Agora, com a carta nas mãos de Alckmin e Vieira, o Planalto tenta evitar uma escalada comercial que pode prejudicar ainda mais a relação bilateral em ano eleitoral — tanto para Trump quanto para Lula.