
Instrumentalização do Estado para calar adversários
Pedido absurdo do Ministério da Justiça escancara perseguição política e tentativa de apagar fatos
O episódio envolvendo o Ministério da Justiça e o pedido de investigação contra o senador Flávio Bolsonaro ultrapassa os limites do razoável e escancara um uso político da máquina pública. Trata-se de mais um movimento que soa menos como defesa da honra presidencial e mais como perseguição a opositores — algo incompatível com um Estado que se diz democrático.
A iniciativa partiu de um requerimento de uma deputada do PT e foi prontamente encaminhada à Polícia Federal pelo então ministro Ricardo Lewandowski, em um de seus últimos atos à frente da pasta. Um gesto que levanta suspeitas e provoca repúdio, já que o conteúdo apontado como “crime” nada mais é do que uma crítica política — prática comum e legítima em qualquer democracia madura.
Causa ainda mais estranheza o contexto. Nicolás Maduro esteve no Brasil a convite do próprio presidente Lula logo após sua vitória eleitoral. Não se trata de especulação ou fake news, mas de um fato público e amplamente divulgado. Além disso, o próprio Lula, em outro momento, buscou interlocução com Donald Trump para tratar de questões relacionadas à Venezuela. Esses registros existem e fazem parte da história recente da política internacional brasileira.
Diante disso, soa absurdo tentar criminalizar quem relembra esses episódios. O que se vê é uma tentativa clara de reescrever a narrativa, apagar rastros e silenciar vozes críticas por meio do aparato estatal. Usar a Polícia Federal para investigar opiniões políticas, ainda que duras, é um sinal perigoso de intolerância institucional.
A alegação de que não haveria imunidade parlamentar também não se sustenta com facilidade. Opinar, criticar e associar fatos políticos faz parte do exercício do mandato. Transformar isso em caso de polícia é abrir um precedente grave, que amanhã pode atingir qualquer outro parlamentar — inclusive os que hoje aplaudem esse tipo de ação.
O legado final de Lewandowski no Ministério da Justiça, infelizmente, fica marcado por esse gesto questionável. Um ato que não fortalece a democracia, não protege instituições e apenas aprofunda a desconfiança de que há dois pesos e duas medidas no tratamento da liberdade de expressão no país.
Criticar governo não é crime. Crime é tentar calar críticas usando o poder do Estado.