JANJA CHAMA LULA DE “VERDADEIRO UNGIDO DE DEUS” E ATACA BOLSONARO: “SE DEPENDESSE DELE, OS NORDESTINOS ESTAVAM COMENDO CAPIM”

JANJA CHAMA LULA DE “VERDADEIRO UNGIDO DE DEUS” E ATACA BOLSONARO: “SE DEPENDESSE DELE, OS NORDESTINOS ESTAVAM COMENDO CAPIM”

Primeira-dama transforma comício no Piauí em palco de forte discurso eleitoral, critica a família Bolsonaro e associa Lula a uma missão quase religiosa; fala provoca debate sobre o tom da campanha de 2026

A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, conhecida como Janja, elevou o tom político durante um comício realizado em Teresina, no Piauí, e colocou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no centro de uma retórica que misturou campanha eleitoral, religião e ataques ao ex-presidente Jair Bolsonaro e sua família.

Em uma das frases mais fortes do discurso, Janja afirmou que, se dependesse de Bolsonaro, “os nordestinos estavam comendo capim”. A declaração foi feita diante de apoiadores durante o ato em apoio à reeleição do governador Rafael Fonteles, do PT, e rapidamente ganhou destaque justamente pela linguagem agressiva utilizada contra o ex-presidente.

“Se dependesse do Bolsonaro, os nordestinos estavam comendo capim. Vocês lembram disso.”

A primeira-dama também afirmou que a família Bolsonaro não teria um projeto para o país, mas apenas interesses próprios. Segundo Janja, o grupo representaria “um projeto de medo” e de retrocesso. Ela ainda associou o período do governo Bolsonaro a filas nos hospitais, abandono, medo e aos efeitos sociais da pandemia. Essas são avaliações políticas de Janja sobre o governo anterior, apresentadas em um discurso de campanha.

“O verdadeiro ungido de Deus”

Mas o momento mais simbólico do discurso veio quando Janja decidiu responder, ainda que sem citar diretamente seu nome, à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Dias antes, Michelle havia publicado uma mensagem de apoio ao ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, chamando-o de “escolhido e ungido do Senhor” em meio à crise institucional envolvendo o ministro e Alexandre de Moraes.

Janja então apresentou uma espécie de contraponto político-religioso:

“Esse é o verdadeiro ungido de Deus. Esse, sim, é o homem que quer que todos tenham uma vida digna.”

A frase foi uma referência indireta ao episódio envolvendo Michelle e Mendonça. A primeira-dama passou a apresentar Lula não apenas como o candidato que deveria permanecer no governo, mas como aquele que, em sua interpretação, estaria destinado a conduzir o país em direção à dignidade social.

É justamente nesse ponto que o discurso de Janja merece crítica.

Em uma democracia, Lula deve ser avaliado por políticas públicas, resultados econômicos, empregos, saúde, educação, segurança, equilíbrio fiscal e respeito às instituições — e não pela suposta condição de “ungido de Deus”.

A utilização de uma linguagem religiosa para reforçar a imagem eleitoral de um presidente pode mobilizar sua base política, especialmente em regiões onde a fé possui forte presença social, mas também abre espaço para questionamentos. Uma coisa é um político declarar sua fé; outra é transformar a própria candidatura em uma espécie de missão providencial.

A resposta política a Michelle

A declaração também revela como a disputa eleitoral de 2026 começa a ultrapassar a tradicional briga entre propostas e partidos.

Michelle Bolsonaro havia utilizado uma linguagem religiosa para defender André Mendonça em meio à crise no STF. Janja respondeu utilizando a mesma referência para exaltar Lula.

Ou seja, a religião acabou entrando novamente no centro de uma disputa essencialmente política.

Michelle chamou Mendonça de “escolhido e ungido do Senhor”. Janja, por sua vez, afirmou que Lula seria o “verdadeiro ungido de Deus”.

O resultado é uma disputa simbólica pela imagem de quem representaria, perante o eleitorado religioso, o candidato “abençoado” ou escolhido para conduzir o país.

O ataque a Bolsonaro e a exploração eleitoral do Nordeste

Ao atacar Jair Bolsonaro diretamente, Janja também mirou uma das regiões eleitoralmente mais importantes para Lula.

O Piauí é um dos estados em que o petista possui historicamente forte desempenho eleitoral. Em 2022, Lula alcançou 76,84% dos votos válidos no segundo turno no estado, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral. O comício ocorreu justamente nesse território político favorável ao PT.

Nesse ambiente, a frase sobre os nordestinos “comendo capim” tem evidente força retórica.

O problema é que uma afirmação desse tipo simplifica uma discussão extremamente complexa. Bolsonaro pode ser criticado por decisões tomadas durante seu governo, assim como Lula deve ser submetido à avaliação sobre seus próprios resultados. Mas transformar milhões de nordestinos em personagens de uma disputa verbal entre dois grupos políticos reduz o debate a uma provocação eleitoral.

A crítica a Bolsonaro é legítima dentro da democracia. O que precisa ser questionado é quando a crítica abandona argumentos concretos e passa a depender de frases destinadas principalmente a provocar a plateia.

Janja também apresenta Lula como contraponto

Janja tentou construir exatamente esse contraste ao afirmar que Lula representaria um governo preocupado com saúde, educação, cultura, emprego e alimentação.

Ela também defendeu o fim da escala de trabalho 6×1, argumentando que uma jornada menor proporcionaria às mulheres mais tempo para si mesmas e para suas famílias. Também afirmou que direitos não podem ser considerados permanentemente garantidos e que a democracia precisa ser preservada diariamente.

São bandeiras que fazem parte da estratégia política do governo Lula para 2026 e que procuram associar o presidente a uma agenda social.

Entretanto, novamente, a discussão deveria avançar para os resultados concretos: quanto custará cada política, como será financiada, quais serão seus efeitos sobre empresas e trabalhadores e quais resultados efetivamente chegarão à população.

Bolsonaro continua como principal personagem do discurso petista

Mesmo fora do governo, Jair Bolsonaro continua sendo um dos principais personagens utilizados pelo campo político de Lula para mobilizar eleitores.

O discurso de Janja mostra que o PT ainda pretende construir parte significativa de sua campanha em oposição ao bolsonarismo. Bolsonaro aparece como símbolo de um período que os petistas querem apresentar como negativo, enquanto Lula é apresentado como a alternativa de continuidade.

O problema dessa estratégia é que ela também demonstra uma dependência política do adversário.

Se o governo precisa constantemente recorrer ao nome de Bolsonaro para explicar por que Lula deveria permanecer no poder, o eleitor pode fazer uma pergunta simples: quais são, afinal, os resultados do governo atual que justificariam a reeleição?

Essa é a questão que deveria estar no centro da campanha.

Lula também sobe o tom

No mesmo evento, Lula atacou uma eventual interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras e criticou diretamente Donald Trump. O presidente afirmou que brasileiros não deveriam permitir interferência estrangeira e disse que Trump deveria “se meter no país dele”.

Lula também declarou que o principal tema da eleição seria a defesa da democracia e classificou como “traidores da pátria” brasileiros que comparecem a comícios portando a bandeira dos Estados Unidos.

O tom mostra que o palanque petista está sendo preparado para uma eleição marcada por forte polarização.

De um lado, o discurso apresenta Lula como defensor da democracia, dos direitos sociais e dos trabalhadores. Do outro, Bolsonaro e seus aliados são retratados como representantes do medo, do retrocesso e dos interesses particulares.

É uma narrativa eleitoral legítima enquanto discurso político, mas não deve ser confundida com uma descrição neutra da realidade brasileira.

O ponto mais controverso: transformar política em disputa de “ungidos”

A fala de Janja sobre Lula ser o “verdadeiro ungido de Deus” talvez seja ainda mais reveladora do que o ataque a Bolsonaro.

A política brasileira já é extremamente polarizada. Quando lideranças políticas começam a apresentar seus candidatos como escolhidos ou ungidos por Deus, existe o risco de transformar uma disputa democrática de propostas em uma disputa moral ou religiosa entre “bons” e “maus”.

Nenhum candidato deveria estar acima da crítica.

Lula não está acima da crítica porque é presidente. Bolsonaro não está acima da crítica porque foi presidente. Michelle não está acima da crítica porque é ex-primeira-dama. E Janja também não está acima da crítica porque ocupa a posição de primeira-dama.

O eleitor precisa ter liberdade para avaliar todos.

A eleição de 2026 será decidida nas urnas

O discurso de Teresina deixa claro que a campanha de 2026 será marcada por ataques, religião, memória do governo Bolsonaro, defesa do legado de Lula e uma intensa disputa pelo eleitorado nordestino.

Janja escolheu uma linguagem contundente para defender o marido e atacar Bolsonaro. Ao mesmo tempo, utilizou uma expressão religiosa extremamente forte para definir Lula como o “verdadeiro ungido de Deus”.

A frase pode agradar aos apoiadores do presidente, mas também merece ser questionada por quem entende que a política deve ser decidida por propostas, resultados e votos — e não pela tentativa de atribuir a um candidato uma espécie de legitimidade divina.

No fim, Bolsonaro será julgado pelo legado de seu governo. Lula será julgado pelo seu próprio governo. E Janja, como uma das principais vozes políticas do entorno presidencial, também terá suas declarações examinadas pelo eleitor.

A urna não escolhe um “ungido”. Escolhe, democraticamente, quem receber a maioria dos votos.

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