
Janja publica Lula com Nossa Senhora Aparecida após polêmica eleitoral envolvendo Flávio Bolsonaro
Primeira-dama compartilha imagem religiosa durante disputa política; publicação ocorre após circulação de informação falsa sobre o candidato do PL, que nega qualquer intenção de retirar o título de Padroeira do Brasil
A primeira-dama Janja Lula da Silva publicou, em 25 de setembro, uma fotografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Na legenda, escreveu: “Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, olhai por nós!”. A publicação ocorreu em meio à polêmica eleitoral envolvendo o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro e uma informação falsa que circulava nas redes sociais sobre uma suposta intenção de retirar da santa o título de Padroeira do Brasil.
A postagem ganhou repercussão justamente porque ocorreu poucas horas depois de o assunto entrar no centro da campanha eleitoral. Flávio Bolsonaro negou que exista qualquer proposta de sua autoria para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida e classificou a informação como falsa. O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), chegou a determinar a remoção de publicações que apresentavam a alegação como verdadeira.
Uma imagem em meio à disputa pelo eleitorado católico
A fotografia de Lula com Nossa Senhora passou a ser interpretada no contexto de uma disputa política pelo eleitorado católico. Embora a legenda de Janja não cite diretamente Flávio Bolsonaro, a publicação surgiu no mesmo momento em que adversários do candidato exploravam eleitoralmente a falsa informação.
A escolha também foi acompanhada por outras manifestações do grupo político de Lula. O vice-presidente Geraldo Alckmin declarou que as tradições religiosas estariam “protegidas e preservadas” enquanto ele e Lula estivessem no governo. Posteriormente, o próprio Lula voltou ao assunto durante um comício em Belém e afirmou que ninguém iria “avacalhar Nossa Senhora Aparecida” enquanto estivesse na Presidência.
O episódio, portanto, deixou de ser apenas uma discussão sobre uma publicação nas redes sociais e passou a integrar o discurso eleitoral.
A informação falsa atribuída a Flávio Bolsonaro
A origem da controvérsia está em publicações que associaram Flávio Bolsonaro a um antigo projeto legislativo que pretendia alterar a redação relacionada ao título de Nossa Senhora Aparecida. O projeto, entretanto, não foi apresentado por Flávio Bolsonaro e acabou arquivado. A informação de que o candidato pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil foi classificada como falsa em diferentes reportagens.
Flávio passou a negar publicamente a existência de qualquer proposta nesse sentido. Em 28 de setembro, durante ato em São Paulo ao lado do governador Tarcísio de Freitas, ele ergueu uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e afirmou que a história era, em suas palavras, “a maior fake news dessa campanha”.
A CNBB também se manifestou e negou participação na produção ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral.
Críticas à atuação de Lula e Janja
A publicação de Janja pode ser analisada como uma peça de comunicação política inserida em uma disputa eleitoral que envolve diretamente a religião e o voto católico. A crítica feita por adversários de Lula e Janja é que o governo estaria utilizando a polêmica para apresentar o presidente como defensor de Nossa Senhora, enquanto Flávio Bolsonaro era associado a uma proposta que, segundo as evidências disponíveis, não era dele.
É importante, porém, separar crítica política de fato comprovado. Não há evidência nas fontes consultadas de que a fotografia publicada por Janja, isoladamente, prove uma tentativa deliberada de enganar católicos. O que está documentado é que a postagem ocorreu em meio à controvérsia e que a informação associando Flávio à retirada do título de Padroeira do Brasil foi considerada falsa por veículos que acompanharam o caso.
A crítica mais objetiva, portanto, recai sobre a utilização eleitoral de um tema religioso em um momento no qual a informação falsa já havia provocado forte reação política e judicial. Para os críticos do governo, transformar a imagem de Nossa Senhora em elemento de comunicação eleitoral pode ser visto como uma estratégia de aproximação com o eleitorado católico; essa interpretação, entretanto, é uma avaliação política e não um fato comprovado sobre a intenção pessoal de Janja.
O caso chegou ao STF
A controvérsia também provocou uma disputa judicial. André Mendonça determinou a remoção de conteúdos relacionados à falsa associação. Posteriormente, o ministro Flávio Dino, do STF, suspendeu os efeitos da decisão e determinou o restabelecimento de publicações, argumentando sobre a proteção constitucional à liberdade de expressão. O caso foi encaminhado para análise do plenário do Supremo.
Na sequência, o ministro Luiz Fux voltou a bloquear publicações relacionadas ao episódio, aumentando a disputa entre diferentes decisões judiciais sobre o assunto.
Nomes e partes envolvidas
O episódio envolve Janja Lula da Silva, autora da publicação; Luiz Inácio Lula da Silva, presidente que aparece na fotografia; Flávio Bolsonaro, candidato associado à informação falsa e que negou qualquer intenção de retirar o título da santa; André Mendonça, responsável pela primeira decisão de remoção; Flávio Dino, que posteriormente suspendeu aquela determinação; e Luiz Fux, que voltou a bloquear os conteúdos.
Também estão envolvidos o TSE e o STF, diante da discussão sobre os limites da Justiça Eleitoral, liberdade de expressão e retirada de conteúdos durante a campanha.
O caso revela como uma informação falsa envolvendo Nossa Senhora Aparecida acabou sendo incorporada ao confronto eleitoral de 2026. De um lado, Flávio Bolsonaro tenta afastar a associação e afirma que não existe proposta para retirar o título da Padroeira do Brasil. De outro, Lula e seus aliados passaram a explorar politicamente o tema, enquanto Janja publicou a imagem do presidente com a santa em meio à controvérsia.
O debate permanece aberto entre a liberdade de expressão, o combate à desinformação e os limites da utilização de símbolos religiosos durante uma campanha eleitoral. Para o eleitor, a distinção entre fatos documentados, acusações políticas e informações falsas é essencial para compreender o episódio.