
Jeanine Áñez deixa prisão após quatro anos: Justiça boliviana anula condenação e reacende debate sobre golpe de 2019
A ex-presidente da Bolívia foi libertada após o Tribunal Supremo considerar irregular seu julgamento; para seus apoiadores, a decisão é uma reparação tardia — para seus críticos, um retrocesso político.
Depois de quatro anos e meio atrás das grades, a ex-presidente boliviana Jeanine Áñez deixou nesta quinta-feira (6) o presídio feminino de La Paz. A libertação aconteceu após o Tribunal Supremo de Justiça anular a sentença de 10 anos de prisão, que havia sido imposta sob a acusação de “resoluções contrárias à Constituição” durante sua chegada ao poder em 2019.
A decisão judicial reconheceu que Áñez, por ter ocupado o cargo máximo do Executivo, deveria ter sido julgada pelo Congresso — um procedimento previsto para altas autoridades, e não por um tribunal penal comum.
Do lado de fora da prisão, a cena foi marcada por emoção. Familiares e apoiadores agitaram bandeiras bolivianas e celebraram o que chamaram de “vitória da justiça”.
“Ela é uma mulher corajosa, que enfrentou tudo com dignidade”, disse a enfermeira Lizeth Maure, entre lágrimas e aplausos.
Añez, de 58 anos, governou a Bolívia entre novembro de 2019 e novembro de 2020, após a renúncia de Evo Morales — episódio que dividiu o país entre quem via a transição como um ato de coragem e quem a considerava um golpe de Estado.
Presente em sua saída, a ex-presidente afirmou:
“Cumpri meu dever com a pátria. Nunca me dobraram, e jamais vou me arrepender de ter servido quando a Bolívia mais precisou de mim.”
Mas a história não termina aí. A libertação reacende as feridas políticas e sociais de um país que, desde 2019, tenta equilibrar justiça e revanchismo.
Os confrontos ocorridos logo após sua posse resultaram em 36 mortes, segundo a Defensoria do Povo, e continuam sendo investigados sob a pressão do atual governo de Luis Arce, herdeiro político de Evo Morales.
Enquanto uns comemoram a anulação da pena como um ato de correção judicial, outros a veem como um sinal preocupante de impunidade.
Na Bolívia, a linha que separa justiça e política segue tênue — e cada decisão parece reacender o fogo de uma ferida que nunca cicatrizou completamente.