JONES MANOEL DEFENDE “MENOS POLÍCIA E MENOS PRESÍDIOS” PARA REDUZIR A VIOLÊNCIA E PROVOCA DEBATE SOBRE SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL

JONES MANOEL DEFENDE “MENOS POLÍCIA E MENOS PRESÍDIOS” PARA REDUZIR A VIOLÊNCIA E PROVOCA DEBATE SOBRE SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL

Deputado federal eleito pelo PSOL de Pernambuco sustenta que o encarceramento e o modelo de policiamento atual não resolvem a criminalidade. Declaração contrasta com a preocupação de milhões de brasileiros com a violência e com iniciativas do próprio governo Lula, que anunciou investimentos para reforçar a estrutura de presídios e o combate às organizações criminosas.

Uma declaração do historiador e deputado federal eleito Jones Manoel (PSOL-PE) voltou a provocar discussões sobre segurança pública no Brasil. Em vídeo que voltou a circular nas redes sociais, o político defendeu que a redução da violência passa por uma diminuição do número de policiais e de presídios. A frase que sintetiza sua posição é direta: “Para reduzir a violência, a gente tem que ter menos polícia e menos presídio”.

A afirmação reacendeu o debate sobre o papel das forças de segurança, o sistema penitenciário e a maneira como o Estado deve enfrentar o avanço da criminalidade. Em um país que convive com homicídios, roubos, tráfico de drogas, facções criminosas e territórios submetidos à influência de organizações armadas, a proposta exige discussão cuidadosa sobre suas consequências práticas.

O ponto central da controvérsia é a distância entre a defesa de uma redução do aparato policial e penitenciário e a necessidade de garantir proteção à população. Para quem vive em regiões afetadas pela criminalidade, a presença policial e a capacidade do Estado de prender e manter criminosos perigosos sob custódia são questões diretamente relacionadas à segurança cotidiana.

Jones Manoel, por sua vez, argumenta que o modelo tradicional de segurança pública não consegue solucionar as causas da violência e que o encarceramento em massa pode contribuir para o fortalecimento das organizações criminosas.

O QUE JONES MANOEL DEFENDE?

A declaração não surgiu isoladamente. Jones já havia apresentado posicionamento semelhante em uma sabatina promovida pela Folha de S.Paulo e pelo UOL, em junho de 2022, quando era pré-candidato ao governo de Pernambuco.

Na ocasião, defendeu uma política de desencarceramento e afirmou que seu eventual governo não construiria novos presídios. Também argumentou que prender pessoas pode aumentar a violência, especialmente quando indivíduos envolvidos em delitos de menor gravidade são colocados no mesmo sistema prisional que integrantes de organizações criminosas.

O político defende ainda a redução do efetivo da Polícia Militar, maior fiscalização da atividade policial, instalação de câmeras nos uniformes dos agentes e investimentos em investigação e inteligência.

É importante compreender a proposta em sua totalidade: Jones não apresenta simplesmente a ideia de retirar policiais das ruas sem oferecer outra estratégia. Sua posição é a de substituir parte do modelo de policiamento ostensivo e do encarceramento por políticas de prevenção, investigação, controle da atividade policial e redução da população prisional.

Ainda assim, a afirmação de que é necessário ter menos polícia e menos presídios provoca questionamentos legítimos: como garantir a proteção das vítimas? Como impedir que facções ampliem seu domínio territorial? E como assegurar que criminosos violentos sejam efetivamente retirados de circulação?

O CONTRASTE COM A REALIDADE DA SEGURANÇA PÚBLICA

A discussão não pode ignorar a realidade enfrentada por brasileiros que vivem em áreas dominadas ou ameaçadas por organizações criminosas.

Em diferentes regiões do país, moradores convivem com disputas entre facções, ameaças, extorsões, tráfico de drogas, restrições à circulação e dificuldades para acessar serviços públicos. Nessas circunstâncias, a presença do Estado não é apenas uma discussão ideológica: é uma necessidade concreta de proteção.

A crítica à atuação policial, quando existem abusos, deve ser acompanhada de mecanismos de fiscalização, investigação e responsabilização. Mas isso não elimina a necessidade de forças de segurança preparadas, equipadas e capazes de enfrentar organizações criminosas.

Da mesma forma, reconhecer problemas no sistema penitenciário não significa ignorar a necessidade de vagas adequadas para presos perigosos, isolamento de lideranças criminosas e controle das atividades ilícitas realizadas de dentro das unidades prisionais.

O debate exige distinguir situações diferentes: pessoas presas por delitos de menor potencial ofensivo, condenados por crimes violentos, integrantes de facções e lideranças responsáveis por ordenar atividades criminosas. Uma política de desencarceramento não pode ser tratada como se todos esses casos fossem iguais.

A CONTRADIÇÃO QUE ENVOLVE O CAMPO POLÍTICO DE LULA

A discussão também ganha dimensão política porque Jones Manoel é uma figura da esquerda que declarou apoio a Lula e manifestou interesse em colaborar com a campanha digital do petista.

Ele foi eleito deputado federal por Pernambuco em 2026, pelo PSOL, com 249.077 votos, sendo o segundo mais votado do estado, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo.

Apesar da proximidade política com setores da esquerda e de sua disposição de ajudar Lula, Jones também já apresentou críticas ao presidente. Em outubro de 2026, por exemplo, classificou como “erro grosseiro” a defesa de Lula de reduzir a maioridade penal para determinados crimes hediondos.

Essa divergência mostra que não existe necessariamente uma posição única dentro do campo político que apoia o presidente. Jones defende uma linha mais radical de desencarceramento e critica propostas de endurecimento penal, enquanto Lula, naquela declaração, manifestou apoio à redução da maioridade penal em casos específicos.

Há também um contraste entre a proposta de Jones e iniciativas anunciadas pelo próprio governo federal.

Em maio de 2026, o governo Lula lançou o programa Brasil contra o Crime Organizado, com previsão de investimentos e medidas para fortalecer o enfrentamento às facções. Entre as ações anunciadas estava a elevação do padrão de segurança de 138 presídios estaduais, além do monitoramento de presos identificados por critérios técnicos e do reforço da inteligência policial.

O programa também previa equipamentos para unidades prisionais, como bloqueadores de celulares, drones e aparelhos de raio-X, além de viaturas blindadas e integração das estruturas de inteligência dos estados.

Ou seja, enquanto Jones defende a redução do número de presídios e policiais como parte de sua estratégia de combate à violência, o governo federal anunciou medidas que incluem o fortalecimento da segurança penitenciária e da capacidade de monitoramento de criminosos.

Isso não significa que todas as políticas do governo sejam incompatíveis com o desencarceramento. É possível defender penas alternativas para delitos menos graves e, simultaneamente, fortalecer o controle de presos de alta periculosidade. Mas a diferença de abordagem merece ser explicitada.

O QUE DIZEM OS CRÍTICOS DA PROPOSTA?

Entre os principais questionamentos levantados por críticos da posição de Jones está o risco de que uma redução generalizada da presença policial prejudique justamente as comunidades mais vulneráveis à criminalidade.

A população que vive em áreas dominadas por facções precisa de proteção, investigação de crimes, atendimento às vítimas e presença efetiva das instituições públicas. Uma política que reduza o policiamento sem demonstrar como essas necessidades serão atendidas pode deixar dúvidas importantes sobre sua eficácia.

Outro ponto é o sistema penitenciário. Presídios superlotados e com falhas de controle são problemas conhecidos, mas a solução não se resume à diminuição de vagas. O Estado também precisa impedir que lideranças criminosas continuem comandando atividades ilícitas a partir das unidades prisionais.

Por isso, a discussão deve considerar a qualidade da administração penitenciária, a separação de presos conforme o perfil de risco, o combate à corrupção, a investigação financeira das facções e a capacidade de impedir a comunicação criminosa.

O questionamento não é se o sistema atual precisa de mudanças. É como fazer essas mudanças sem reduzir a proteção de quem já é vítima da violência.

JONES MANOEL E O DEBATE QUE DEVERÁ CHEGAR À CÂMARA

A eleição de Jones Manoel acrescenta uma voz de esquerda radical ao debate sobre segurança pública no Congresso Nacional. Com sua chegada à Câmara dos Deputados, em fevereiro de 2027, a posição deverá integrar as discussões sobre legislação penal, sistema penitenciário, atuação policial e políticas de prevenção.

O parlamentar defende uma agenda que inclui desencarceramento, fiscalização das forças policiais e investimentos em investigação. Também apresenta críticas ao que chama de populismo penal, expressão que utiliza para questionar propostas de aumento de penas e redução da maioridade penal.

O desafio será transformar essas ideias em propostas concretas, com critérios claros e mecanismos capazes de demonstrar resultados. A redução de prisões por delitos de menor gravidade, por exemplo, é uma discussão diferente da diminuição da capacidade do Estado de manter sob custódia integrantes perigosos de organizações criminosas.

A mesma exigência vale para a polícia: combater abusos e melhorar a fiscalização são objetivos importantes, mas a população também precisa saber como será garantida a segurança em locais onde a presença policial é indispensável.

SEGURANÇA PÚBLICA NÃO PODE IGNORAR AS VÍTIMAS

A declaração de Jones Manoel coloca em evidência uma das maiores divergências do debate brasileiro sobre criminalidade: de um lado, propostas que priorizam o desencarceramento e a transformação do modelo de policiamento; de outro, a defesa de maior presença policial, capacidade de investigação e rigor no enfrentamento de organizações criminosas.

Nenhuma política séria pode ignorar os problemas do sistema prisional ou os abusos cometidos por agentes públicos. Mas também não pode tratar a preocupação de quem sofre com assaltos, homicídios, ameaças e extorsões como se fosse apenas uma disputa ideológica.

O cidadão que tem seu comércio assaltado, a família que perde um parente para a violência e o morador que precisa conviver com criminosos armados esperam respostas concretas do poder público.

A discussão sobre menos policiais e menos presídios precisa, portanto, apresentar mais do que uma palavra de ordem. Precisa explicar quais estruturas serão mantidas, como as facções serão enfrentadas, de que maneira os criminosos violentos serão retirados de circulação e como a população terá sua segurança garantida.

O debate está lançado, e Jones Manoel terá a oportunidade de defender suas ideias no Congresso. O que a sociedade precisa cobrar de todos os representantes, independentemente de partido ou ideologia, são propostas verificáveis, responsabilidade com as vítimas e resultados concretos no enfrentamento à criminalidade.

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