
Juliette, Nossa Senhora Aparecida e a disputa eleitoral: fé religiosa não deve ser reduzida a instrumento de campanha
Vídeo publicado no Dia de Nossa Senhora Aparecida questiona a relação entre Flávio Bolsonaro e o bispo JB Carvalho; episódio reacende debate sobre o uso de símbolos religiosos na política e a necessidade de respeitar a diversidade de crenças.
A cantora e influenciadora Juliette Freire participou de um vídeo do projeto Revelando, intitulado “A Guerra à Santa”, publicado em 12 de outubro, Dia de Nossa Senhora Aparecida. A produção aborda declarações atribuídas ao bispo evangélico JB Carvalho sobre a santa católica e questiona a relação do religioso com o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência. O episódio também provocou reações nas redes sociais e comentários de figuras públicas ligadas à disputa eleitoral.
A discussão, porém, exige uma reflexão que vai além da disputa entre candidatos: a fé das pessoas merece respeito e não deve ser transformada em ferramenta de hostilidade política ou religiosa. Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar central na devoção de milhões de brasileiros, e o debate público sobre declarações de lideranças religiosas precisa considerar o contexto e distinguir as posições individuais das crenças de comunidades inteiras.
No vídeo, Juliette fala sobre a importância de Nossa Senhora Aparecida e defende a convivência entre pessoas de diferentes religiões. A artista também menciona sua própria família, na qual há tradições religiosas distintas, como parte da reflexão sobre respeito e tolerância.
A produção relaciona declarações atribuídas a JB Carvalho à proximidade do bispo com Flávio Bolsonaro, que foi batizado na igreja liderada pelo religioso. Essa relação é apresentada como motivo para questionamentos políticos, mas não significa, por si só, que o candidato compartilhe todas as opiniões atribuídas ao bispo. A distinção é importante para que a discussão não transforme associação pessoal em prova automática de concordância.
Após a publicação, Flávio Bolsonaro comentou: “Quem é 22 curte!”, além de criticar o vídeo e classificá-lo como uma exploração eleitoral da imagem da santa. Pablo Marçal também interagiu com a publicação, utilizando emojis e referências ao número do PL. Segundo reportagem do The Insider, os comentários alcançaram ampla repercussão nas redes sociais.
O episódio demonstra como símbolos religiosos podem ocupar o centro de disputas eleitorais, especialmente quando manifestações de fé são associadas a candidatos, partidos ou lideranças religiosas. Nesse cenário, tanto as críticas quanto as respostas precisam ser avaliadas pelo conteúdo e pelas evidências, sem presumir intenções que não estejam demonstradas.
Cabe, portanto, repudiar o uso da devoção religiosa como instrumento de desrespeito, discriminação ou manipulação — seja por artistas, políticos, influenciadores ou líderes religiosos. Defender Nossa Senhora Aparecida e a liberdade de culto não exige transformar adversários políticos em inimigos da fé, assim como questionar uma liderança religiosa não autoriza atribuir suas declarações a todos os fiéis ou a qualquer pessoa que mantenha vínculo com ela.
A liberdade de expressão permite questionar posicionamentos públicos, inclusive de autoridades e representantes religiosos. O limite ético está em preservar o respeito às crenças, contextualizar as declarações e não apresentar como comprovada uma responsabilidade que os fatos disponíveis não demonstram.
Em um país plural como o Brasil, a fé deve ser tratada com seriedade. Nossa Senhora Aparecida não pertence a um partido nem deve ser reduzida a um slogan eleitoral: sua importância religiosa e cultural merece ser reconhecida sem que a devoção dos brasileiros seja convertida em motivo de ataque, divisão ou disputa política.