
“Ladrão não vai governar o Brasil”, diz Lula; histórico da Lava Jato e retorno de políticos investigados reacendem debate sobre coerência e responsabilidade
Em campanha pela Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva usa acusações contra adversários e afirma que não permitirá que “ladrões” governem o país. A declaração provoca questionamentos sobre o passado judicial do próprio presidente, os escândalos de corrupção que marcaram a política brasileira e a presença de figuras controversas na vida pública.
Lula sobe o tom contra adversários a poucos dias da eleição
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a adotar um discurso de confronto contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante atos de campanha realizados em outubro de 2026. Em uma manifestação entre Juazeiro, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco, na terça-feira, 20 de outubro, Lula declarou: “Enquanto eu tiver perna para andar, enquanto eu tiver braço para trabalhar, enquanto eu tiver cabeça para pensar e boca para falar, o ladrão não vai governar o Brasil”>
A declaração ocorreu na reta final da disputa presidencial, com o segundo turno marcado para 25 de outubro. Em outra manifestação, realizada em Porto Alegre, no dia 19, o presidente havia afirmado que “os ladrões” não poderiam governar o país e que não permitiria a chegada de “milicianos” ao poder. As declarações foram dirigidas politicamente ao campo adversário, especialmente a Flávio Bolsonaro.
O tom escolhido por Lula levanta uma questão importante: qual deve ser o padrão de responsabilidade exigido de quem pretende governar o Brasil? E como avaliar um discurso que apresenta o adversário como criminoso quando o próprio presidente carrega um histórico judicial que marcou profundamente a política nacional?
A resposta exige olhar para os fatos, para as decisões da Justiça e para a responsabilidade dos partidos na escolha de seus representantes.
O passado judicial de Lula e a Operação Lava Jato
O histórico judicial de Lula é um dos capítulos mais controversos da política brasileira contemporânea.
Nos processos relacionados ao tríplex do Guarujá e ao sítio de Atibaia, o então ex-presidente foi condenado em primeira instância. No caso do tríplex, a condenação foi confirmada em outras instâncias da Justiça, e Lula chegou a cumprir pena de prisão em Curitiba, entre abril de 2018 e novembro de 2019.
Em março de 2021, porém, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), anulou as condenações relacionadas aos casos do tríplex, do sítio de Atibaia e do Instituto Lula, por entender que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar aquelas acusações. Em abril daquele ano, o plenário do STF manteve a anulação das condenações.
Separadamente, a Segunda Turma do STF reconheceu a parcialidade do ex-juiz Sergio Moro no processo do tríplex, determinando a anulação das decisões por ele tomadas naquele caso.
Essas decisões têm consequências jurídicas claras: as condenações anuladas não podem ser apresentadas como condenações atualmente válidas. Ao mesmo tempo, o histórico continua sendo relevante para compreender o debate político sobre corrupção, Justiça e confiança pública.
É justamente nesse contexto que críticos de Lula questionam a força moral de seu discurso contra adversários que ele chama de ladrões. A crítica política se concentra na aparente contradição entre exigir rigor dos rivais e ter sido protagonista de um dos episódios judiciais mais marcantes da história recente do país.
Mensalão e Lava Jato: escândalos que continuam na memória brasileira
A história política do Brasil também foi marcada pelo escândalo do Mensalão, revelado em 2005, e pela Operação Lava Jato, iniciada em 2014.
O Mensalão envolveu um esquema de pagamentos a parlamentares em troca de apoio político, com condenações de dirigentes partidários, empresários e outros envolvidos. A Lava Jato investigou esquemas de corrupção relacionados a contratos públicos, especialmente na Petrobras, e resultou em processos contra políticos, executivos e operadores financeiros.
Os dois casos deixaram uma marca profunda na confiança da população nas instituições. Também provocaram disputas sobre os limites da atuação judicial, o uso político de investigações e a validade de provas obtidas durante os processos.
Ao longo dos anos, algumas condenações e decisões da Lava Jato foram anuladas, enquanto outras permaneceram válidas. Por isso, é incorreto afirmar que todos os investigados foram condenados ou que todas as decisões judiciais tiveram o mesmo destino.
A crítica política, contudo, permanece legítima quando questiona a presença de figuras envolvidas em escândalos na vida pública e cobra dos partidos critérios rigorosos para selecionar candidatos, dirigentes e integrantes de governos.
A ironia do discurso contra os “ladrões”
Quando Lula afirma que um ladrão não governará o Brasil, o discurso provoca uma reação previsível entre críticos que recordam suas condenações posteriormente anuladas e os escândalos de corrupção que atingiram integrantes de seu partido.
A ironia política está no contraste entre a contundência da frase e a complexidade do histórico judicial do próprio presidente.
Mas há uma distinção essencial: a anulação das condenações de Lula impede que elas sejam apresentadas como condenações válidas hoje. Criticar seu passado judicial é legítimo; afirmar que ele permanece condenado nesses processos, como se as decisões do STF não existissem, seria incorreto.
O mesmo padrão deve valer para Flávio Bolsonaro e qualquer outro político. Suspeitas, investigações, acusações e condenações definitivas são situações juridicamente diferentes.
O eleitor pode questionar a coerência de um candidato sem substituir a Justiça por um julgamento antecipado. O debate democrático precisa de fatos verificáveis, não apenas de rótulos lançados em palanques.
Quarto mandato e responsabilidade política
Lula busca um quarto mandato presidencial não consecutivo, depois de ter governado o país entre 2003 e 2010 e retornado à Presidência em 2023. A tentativa de permanecer no poder coloca novamente em discussão seu legado, a atuação de seu partido e a confiança que os eleitores depositam em sua administração.
Uma campanha presidencial deveria permitir que a população avaliasse resultados, propostas e compromissos. Quando o discurso se concentra em chamar adversários de ladrões ou milicianos, cresce o risco de que as discussões sobre políticas públicas sejam substituídas por ataques pessoais.
O presidente tem o direito de criticar seus concorrentes e cobrar explicações sobre suspeitas. Também precisa aceitar que seu próprio histórico seja examinado, que seu governo seja fiscalizado e que os eleitores questionem as escolhas políticas feitas pelo PT.
A responsabilidade pública não pode depender da filiação partidária. Nenhum partido deve ser tratado como imune a investigações, e nenhum político deve ser considerado culpado apenas por pertencer a determinado grupo.
A volta de figuras controversas à política
Outro ponto que alimenta a crítica pública é a permanência, o retorno ou a tentativa de retorno de figuras envolvidas em escândalos de corrupção à vida política.
No caso do Mensalão e da Lava Jato, diferentes personagens continuaram atuando na política após o cumprimento de penas, a conclusão de processos ou a anulação de decisões judiciais. Cada situação precisa ser examinada individualmente, levando em conta as decisões existentes, a situação eleitoral e os direitos políticos de cada pessoa.
A pergunta política é pertinente: os partidos estão realmente comprometidos em impedir a repetição de práticas de corrupção ou apenas administram os escândalos conforme a conveniência eleitoral?
Essa cobrança vale para o PT, para o PL e para todas as demais legendas. Não basta usar a palavra honestidade como slogan; é necessário demonstrar compromisso com transparência, fiscalização, prestação de contas e afastamento de pessoas quando houver fundamento legal para isso.
A sociedade não deve aceitar que escândalos sejam esquecidos apenas porque seus protagonistas pertencem ao grupo político preferido de determinado eleitor.
Conclusão: o combate à corrupção exige coerência e respeito aos fatos
A frase de Lula — “o ladrão não vai governar o Brasil” — resume o tom de confronto que marca a reta final da campanha de 2026. Ao atacar adversários, o presidente também reabre o debate sobre o próprio histórico judicial e sobre os escândalos de corrupção que abalaram a política brasileira.
A crítica à coerência do discurso é legítima. O que exige cuidado é transformar condenações anuladas em condenações ainda válidas ou atribuir crimes a pessoas sem comprovação judicial.
O Brasil precisa de representantes comprometidos com a legalidade, com a fiscalização do dinheiro público e com a responsabilização de quem efetivamente comete irregularidades. Isso inclui investigar suspeitas sem distinção partidária, respeitar as decisões judiciais e cobrar explicações de quem exerce cargos públicos.
A ironia política pode ser forte, mas os fatos devem permanecer claros: Lula foi condenado em processos da Lava Jato, cumpriu pena e teve aquelas condenações anuladas pelo STF. Esse histórico faz parte do debate público, mas não equivale a uma condenação vigente nesses casos.
A pergunta que fica para o eleitor é se os candidatos e seus partidos aplicam a si mesmos o padrão de transparência e responsabilidade que exigem dos adversários.
O combate à corrupção não pode ser seletivo. Deve valer para todos, independentemente de partido, cargo ou popularidade.