
Lula ameaça cortar cargos de quem apoiar anistia a condenados do 8 de Janeiro
Planalto pressiona deputados e admite usar distribuição de cargos como moeda para barrar avanço do projeto que pode beneficiar Bolsonaro
O governo Lula mostrou, mais uma vez, como a política em Brasília funciona no fio da navalha do toma-lá-dá-cá. Para impedir que a anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro avance na Câmara — medida que, em alguns cenários, poderia até abrir espaço para Jair Bolsonaro recuperar seus direitos políticos — o Palácio do Planalto não apenas articula nos bastidores, mas também ameaça cortar cargos federais de parlamentares que votarem a favor do projeto.
A prioridade do governo é impedir que sequer a urgência da proposta seja votada, já que esse mecanismo acelera a tramitação. Mas, diante da pressão de bolsonaristas e de parte do Centrão, a equipe política de Lula montou um “plano B”: se a votação acontecer, quem contrariar o Planalto poderá perder espaços e indicações em ministérios e autarquias.
A pressão não é pouca. Deputados ligados a Bolsonaro tentam convencer o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a pautar a proposta até a próxima quarta-feira. Enquanto isso, a ministra Gleisi Hoffmann, responsável pela articulação, já mapeia quais cargos federais estão nas mãos de partidos do Centrão para apertar o cerco.
Gleisi chegou a declarar que só deve permanecer no governo quem estiver 100% alinhado a Lula. Em outras palavras: discordar pode custar caro.
O clima no Congresso é de guerra. De um lado, a base governista tenta impedir qualquer avanço do texto. Do outro, aliados de Bolsonaro fazem pressão aberta pela votação da urgência e pelo mérito. No meio disso tudo, deputados insatisfeitos com o ritmo de liberação de emendas deixam claro que podem virar o jogo, caso não recebam o que foi prometido.
A manobra expõe o que há de mais nocivo na política brasileira: a chantagem travestida de articulação. O governo que diz defender a democracia ameaça parlamentares com a retirada de cargos se não obedecerem à linha do Planalto. A mensagem é clara: ou vota como Lula quer, ou perde espaço.
Um detalhe ainda mais simbólico: para tentar frear a anistia, a base governista pretende usar como “isca” um projeto popular — a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil — numa tentativa de desviar a atenção da sociedade.
Enquanto isso, a discussão de fundo — se a anistia deve ou não existir e qual o seu alcance — fica em segundo plano. O que prevalece é o jogo de poder, marcado por pressões, ameaças e trocas de favores.
No fim, pouco importa se o projeto beneficia ou não Bolsonaro. O que salta aos olhos é que o governo Lula, que tanto fala em “democracia” e “respeito às instituições”, não hesita em recorrer à velha e repugnante prática da chantagem política para manter sua narrativa de pé.