
Lula busca virada inédita para conquistar o 4º mandato, enquanto PT corre atrás do prejuízo diante de Flávio Bolsonaro
Presidente terminou o primeiro turno em segundo lugar e agora tenta fazer algo que nenhum candidato conseguiu desde a redemocratização: virar uma eleição presidencial depois de largar atrás
A eleição presidencial de 2026 entrou em uma nova fase com um cenário inédito desde a redemocratização. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca seu quarto mandato presidencial, terminou o primeiro turno em segundo lugar e agora terá de enfrentar Flávio Bolsonaro (PL), que saiu na frente na votação realizada em 4 de outubro.
Com 99,99% das urnas apuradas, o Tribunal Superior Eleitoral registrou 56.104.268 votos para Flávio Bolsonaro, equivalente a 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 53.876.617 votos, ou 45,16%. A diferença ficou em aproximadamente 2,2 milhões de votos.
O segundo turno está marcado para 25 de outubro.
O resultado colocou Lula diante de um desafio histórico. Desde 1989, nenhum candidato que terminou o primeiro turno na segunda colocação conseguiu virar a eleição presidencial no segundo turno. Nas sete eleições com segundo turno realizadas desde a redemocratização, o vencedor da primeira etapa também terminou vencedor na votação final.
Agora, Lula tenta quebrar essa sequência.
Um duplo ineditismo
O cenário representa dois desafios para o presidente.
O primeiro é tentar realizar uma virada inédita no segundo turno.
O segundo é conquistar um quarto mandato presidencial, algo que também seria inédito na história brasileira.
Lula já disputou quatro segundos turnos presidenciais. Em 1989, perdeu para Fernando Collor. Em 2002, venceu José Serra. Em 2006, derrotou Geraldo Alckmin, que hoje é seu vice-presidente. Em 2022, venceu Jair Bolsonaro.
A diferença desta vez é que Lula chega à segunda etapa atrás do adversário, situação que nunca conseguiu reverter em uma eleição presidencial desde a adoção do segundo turno.
Flávio Bolsonaro larga na frente
O desempenho de Flávio Bolsonaro representa um marco na trajetória eleitoral da família Bolsonaro.
O senador terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A vantagem de aproximadamente 2,2 milhões de votos não garante o resultado final, mas coloca o candidato do PL na liderança da primeira etapa.
O próprio Flávio afirmou, após a apuração, que interpretava o resultado como uma demonstração de que havia um desejo de mudança no país.
O mérito eleitoral de Flávio, neste primeiro turno, está justamente em ter conseguido terminar à frente de um presidente que buscava a reeleição e que já havia vencido três eleições presidenciais.
PT terá de correr atrás do prejuízo
O resultado obriga o PT a reorganizar sua estratégia para o segundo turno.
Segundo o Poder360, a campanha petista trabalha com pelo menos três frentes: ampliar alianças, disputar a narrativa sobre a trajetória dos candidatos e buscar eleitores que não compareceram às urnas. O partido também pretende conversar com outras legendas e lideranças políticas.
O desafio é significativo.
Os quatro candidatos que ficaram atrás de Lula e Flávio — Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema — somaram aproximadamente 9 milhões de votos. Porém, esses votos não podem ser considerados automaticamente transferíveis para qualquer um dos dois candidatos.
Caiado, Zema e Renan Santos fizeram campanha em oposição ao governo Lula, mas Flávio também terá de disputar esse eleitorado.
Além disso, o número de abstenções foi muito superior à soma dos votos desses quatro candidatos, tornando o eleitor que não compareceu às urnas outro grupo importante na estratégia das campanhas.
Lula aposta no segundo turno
Depois do resultado, Lula procurou apresentar a nova etapa como uma espécie de “prorrogação”.
O presidente utilizou uma comparação com o futebol para afirmar que a primeira fase terminou e que agora começa uma nova disputa. Também disse ser “muito bom no mata-mata” e afirmou que os eleitores gostam de vê-lo disputando o segundo turno.
A estratégia é transformar a derrota no primeiro turno em um novo começo de campanha.
Na prática, entretanto, os números colocam o PT diante da necessidade de recuperar uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos.
A disputa pela biografia
Uma das principais linhas anunciadas pelo PT será levar a disputa para o campo da trajetória dos dois candidatos.
Lula afirmou que o segundo turno permitirá ao eleitor conhecer melhor a história de Flávio Bolsonaro. O presidente fez críticas à família Bolsonaro e levantou acusações sobre supostas ligações com milícias, crime organizado e o Banco Master.
Essas são alegações feitas por Lula no discurso, e o Poder360 registrou que ele não apresentou provas dessas acusações durante a fala.
A estratégia mostra que a campanha tende a ser ainda mais polarizada nas próximas semanas.
Flávio também terá de ampliar seu eleitorado
Apesar de ter terminado o primeiro turno na frente, Flávio Bolsonaro não pode contar automaticamente com todos os votos dos candidatos derrotados.
O segundo turno começa do zero no sentido de que os eleitores dos candidatos eliminados precisarão escolher entre os dois finalistas, votar em branco ou nulo ou simplesmente não comparecer.
A vantagem de Flávio, portanto, é concreta, mas não representa uma vitória definitiva.
O candidato do PL terá agora de transformar a liderança numérica do primeiro turno em uma coalizão eleitoral capaz de sustentar sua candidatura até 25 de outubro.
PT reconhece sentimento de mudança
Outro dado destacado pelo Poder360 é o reconhecimento, dentro do próprio PT, de que existe um sentimento de mudança na sociedade.
O presidente do partido, Edinho Silva, afirmou antes do primeiro turno que Flávio Bolsonaro funcionava como um catalisador desse sentimento e que o PT não estava disputando somente contra o candidato, mas contra uma percepção mais ampla de mudança.
Esse diagnóstico aumenta a pressão sobre a campanha petista.
Não se trata apenas de buscar votos de candidatos que ficaram pelo caminho. O partido terá de convencer eleitores que expressaram desejo de mudança a permanecerem com Lula.
São Paulo acende o alerta
O resultado paulista também pesa na análise da campanha.
Lula lamentou a derrota de Fernando Haddad para Tarcísio de Freitas e reconheceu que o partido precisa repensar algumas de suas decisões. O presidente também sofreu derrotas de nomes que apoiava na disputa pelo Senado paulista, como Marina Silva e Simone Tebet.
São Paulo é o maior colégio eleitoral do país e, por isso, seu desempenho tem peso significativo na disputa nacional.
O resultado reforça a importância de o PT recuperar terreno entre os eleitores paulistas na segunda etapa.
Uma campanha que começa praticamente do zero
O segundo turno muda completamente a dinâmica eleitoral.
Serão três semanas de disputa direta entre Lula e Flávio Bolsonaro, com espaço reduzido para candidatos intermediários e com os dois campos políticos buscando alianças, apoios e votos.
Para Lula, o objetivo é fazer história duas vezes: virar uma eleição presidencial depois de terminar o primeiro turno atrás e conquistar um quarto mandato.
Para Flávio, o desafio é preservar a vantagem conquistada na primeira etapa e ampliar sua votação para alcançar a maioria dos votos válidos.
O TSE confirmou oficialmente que os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
O primeiro turno mudou o ponto de partida
O resultado de 4 de outubro produziu uma fotografia diferente daquela esperada pelo campo petista: Lula não terminou na liderança.
Flávio Bolsonaro ficou à frente com 56,1 milhões de votos, enquanto Lula registrou 53,9 milhões.
A partir de agora, o PT terá de correr atrás do prejuízo, buscar novas alianças, tentar recuperar eleitores e convencer uma parcela do eleitorado que não escolheu Lula no primeiro turno.
Flávio, por sua vez, chega ao segundo turno carregando o mérito de ter sido o candidato mais votado da primeira etapa e de ter colocado Lula diante de uma situação inédita na era do segundo turno presidencial.
A vantagem não decide a eleição, mas estabelece o ponto de partida.
E, desta vez, é Lula quem terá de tentar buscar a virada.