
Lula critica modelo econômico global no G7 e diz que mundo fracassou em encontrar soluções duradouras para as crises
Presidente brasileiro afirma que décadas de neoliberalismo ampliaram desigualdades, enfraqueceram democracias e impediram respostas coletivas para desafios globais
Durante sua participação na reunião ampliada da Cúpula do G7, realizada nesta terça-feira (16), na cidade francesa de Évian-les-Bains, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso marcado por críticas ao atual modelo econômico global e pela defesa de uma cooperação internacional mais efetiva para enfrentar os desafios que afetam bilhões de pessoas em todo o planeta.
Convidado pelo presidente francês Emmanuel Macron para participar do encontro que reúne algumas das principais economias do mundo, Lula afirmou que a comunidade internacional acumulou décadas de fracassos na tentativa de construir soluções permanentes para crises econômicas, sociais, ambientais e humanitárias.
Ao iniciar sua fala, o presidente relembrou sua primeira participação no então G8, em 2003, também em Évian-les-Bains. Segundo ele, passados mais de vinte anos, muitos dos problemas debatidos naquela época continuam sem respostas concretas.
“Desde aquele ano, participei de outras nove cúpulas do G8 ou do G7. Em todas elas enfrentamos crises que impactam milhões de pessoas ao redor do mundo. No entanto, não conseguimos construir respostas coletivas e duradouras para esses desafios”, afirmou.
Lula critica neoliberalismo e responsabiliza políticas econômicas por aumento das desigualdades
Durante o discurso, Lula direcionou críticas ao que chamou de “dogmas econômicos” que dominaram boa parte das últimas décadas. Para o presidente, a defesa irrestrita da desregulamentação dos mercados, do Estado mínimo e das políticas de austeridade fiscal contribuiu para aprofundar desigualdades e fragilizar instituições democráticas.
Segundo ele, a promessa de prosperidade ampla não se concretizou para grande parte da população mundial.
“O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e alimentou a crise política que hoje afeta diversas democracias”, declarou.
A fala reforça uma posição que Lula vem defendendo em fóruns internacionais: a necessidade de ampliar investimentos públicos, fortalecer políticas sociais e promover mecanismos de distribuição de renda como forma de combater a exclusão social.
Protecionismo e unilateralismo preocupam presidente brasileiro
Outro ponto destacado pelo presidente foi o crescimento de medidas protecionistas e decisões unilaterais adotadas por grandes potências econômicas em meio às atuais disputas comerciais globais.
Sem citar países específicos, Lula afirmou que esse caminho pode aumentar tensões internacionais e dificultar ainda mais a construção de consensos multilaterais.
“O protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas ilusórias para problemas extremamente complexos”, disse.
A declaração ocorre em um momento de crescente disputa comercial entre grandes economias e em meio a debates sobre tarifas, subsídios e restrições ao comércio internacional.
Concentração de riqueza e distância entre países ricos e pobres
Lula também chamou atenção para o aumento da concentração de riqueza no mundo. Em seu discurso, afirmou que a distância entre as nações mais desenvolvidas e os países do chamado Sul Global continua crescendo, apesar dos avanços tecnológicos e econômicos registrados nas últimas décadas.
Segundo o presidente, o atual cenário evidencia que os benefícios do crescimento econômico global não estão sendo distribuídos de forma equilibrada.
Ele citou como exemplo o crescimento acelerado das grandes fortunas e afirmou que a riqueza acumulada por alguns bilionários supera a renda de parcelas expressivas da população mundial.
Para Lula, esse desequilíbrio é resultado de políticas econômicas que favoreceram a concentração de renda e reduziram a capacidade dos Estados de promover inclusão social.
Agenda 2030 está cada vez mais distante, alerta presidente
Na parte final do pronunciamento, Lula demonstrou preocupação com o avanço insuficiente das metas previstas pela Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), conjunto de objetivos voltados para erradicação da pobreza, proteção ambiental e promoção do desenvolvimento sustentável.
Segundo o presidente, a comunidade internacional precisa retomar o compromisso com a cooperação global para evitar que os objetivos estabelecidos pela ONU se tornem ainda mais distantes da realidade.
“Caminhamos na direção oposta da Agenda 2030”, alertou.
A participação de Lula no G7 acontece em um momento de forte instabilidade internacional, marcado por conflitos geopolíticos, desaceleração econômica em várias regiões do mundo, disputas comerciais e desafios climáticos cada vez mais urgentes.
Ao defender uma atuação conjunta entre os países, o presidente brasileiro procurou reforçar a posição do Brasil como defensor do multilateralismo e da busca por soluções negociadas para os principais problemas globais.