
Lula culpa o mundo pela fome em Cuba — mas ignora responsabilidades do próprio regime
Em discurso na FAO, presidente critica países ricos, ataca mercado e ONU, e volta a defender Cuba; fala repercute nas buscas sobre bloqueio, crise cubana e posição do Brasil
Durante a 39ª Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a fome em Cuba não seria resultado de falhas internas, mas consequência da ação — ou omissão — de países ricos.
Segundo Lula, a ilha não enfrenta escassez por incapacidade de produzir alimentos ou energia, mas por ser impedida de acessar recursos e mercados internacionais. Ele classificou a situação como fruto de perseguição ideológica contra um governo comunista.
A declaração reacende um debate antigo, mas espinhoso: até que ponto as dificuldades de Cuba decorrem exclusivamente do embargo externo, e quanto é resultado de décadas de gestão centralizada, repressão política e ausência de reformas estruturais?
Críticas externas, silêncio interno
No discurso, Lula argumentou que a comunidade internacional deveria ampliar a ajuda humanitária à ilha e questionou se a falta de apoio se deve ao fato de Cuba ser comunista. Também citou o Haiti como exemplo de negligência internacional.
O presidente ainda criticou o foco de governos na responsabilidade fiscal, apontando o mercado financeiro e o Fundo Monetário Internacional como influências que priorizam o controle do déficit em detrimento das políticas sociais.
“O mercado começa o ano preocupado com déficit e termina o ano preocupado com déficit. Para eles, não existe pobre”, afirmou.
A retórica, no entanto, levanta críticas de opositores, que enxergam uma contradição: ao mesmo tempo em que cobra solidariedade internacional, o governo brasileiro enfrenta desafios internos graves — da insegurança alimentar ao rombo fiscal crescente.
Embargo, Venezuela e a crise energética
É fato que o embargo imposto pelos Estados Unidos impacta a economia cubana há décadas. Recentemente, medidas do governo de Donald Trump ampliaram restrições, inclusive com tarifas sobre países que comercializem combustível com Havana.
Além disso, a redução do apoio da Venezuela agravou a crise energética na ilha, comprometendo abastecimento de alimentos e medicamentos.
Mas especialistas lembram que o modelo econômico cubano, fortemente estatizado e com baixa abertura ao setor privado, também limita produtividade e geração de divisas. Críticos de Lula argumentam que o presidente evita tocar nesse ponto, preferindo concentrar o discurso na responsabilidade externa.
Ataques à ONU e à agenda internacional
Lula também aproveitou o evento para criticar a atuação da Organização das Nações Unidas diante de conflitos recentes, acusando a entidade de ceder ao “fatalismo dos senhores da guerra”. A fala foi interpretada como indireta à postura americana em relação ao Irã e à Faixa de Gaza.
Ele voltou a questionar a duração da guerra na Ucrânia e sinalizou resistência a propostas diplomáticas alinhadas a Washington.
As declarações ocorrem em meio a tentativas do governo brasileiro de equilibrar relações com potências globais, inclusive articulando eventual visita oficial aos Estados Unidos.
Discurso ideológico ou pragmatismo seletivo?
Para apoiadores, Lula mantém coerência histórica ao defender Cuba e criticar sanções internacionais. Para adversários, o presidente insiste em proteger um regime que enfrenta denúncias de repressão e falta de liberdades civis, enquanto transfere responsabilidades econômicas para terceiros.
A crítica central é direta: ao atribuir a fome exclusivamente ao bloqueio externo, Lula ignora fatores internos que também contribuíram para a crise. E ao atacar o mercado e a política fiscal, evita reconhecer que equilíbrio orçamentário também é condição para políticas sociais sustentáveis.
No fim, o discurso reforça uma marca conhecida do presidente: posicionamento ideológico firme no cenário internacional — ainda que isso provoque ruídos diplomáticos e desgaste interno.
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