Lula diz que “acabou com a fome” duas vezes, mas a história da fome brasileira é mais complexa que o discurso eleitoral

Lula diz que “acabou com a fome” duas vezes, mas a história da fome brasileira é mais complexa que o discurso eleitoral

Presidente transforma combate à fome em principal vitrine política, enquanto Brasil volta a deixar o Mapa da Fome da ONU; crítica é que Lula apresenta como conquista pessoal um processo que atravessou diferentes governos — e que ainda não significa o fim da fome no país

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a colocar a fome no centro de seu discurso político. Em entrevista à Band, nesta quinta-feira (27), o petista afirmou que conseguiu “acabar com a fome” no Brasil duas vezes e, ao mesmo tempo, minimizou as preocupações relacionadas ao crescimento da dívida pública.

A declaração ocorre em plena corrida eleitoral de 2026 e recupera uma das marcas mais fortes da trajetória política de Lula: a promessa de que seu governo seria capaz de retirar milhões de brasileiros da pobreza e garantir comida na mesa.

A frase é politicamente poderosa.

Mas também merece ser examinada com cuidado.

Porque “acabar com a fome” é uma expressão muito mais ampla do que “retirar o Brasil do Mapa da Fome da ONU”.

E essa diferença é fundamental.

A frase de Lula

Ao falar sobre seus governos, Lula apresentou o combate à fome como uma conquista repetida.

O presidente procura construir uma narrativa na qual sua trajetória política estaria diretamente associada a duas grandes saídas do Brasil do Mapa da Fome.

Existe, de fato, uma relação entre as políticas sociais associadas ao lulismo e a redução da insegurança alimentar.

Mas a história não é tão linear quanto a frase presidencial sugere.

O Brasil saiu do Mapa da Fome em 2014, durante o governo de Dilma Rousseff, depois de mais de uma década de políticas públicas de combate à pobreza e à insegurança alimentar iniciadas e ampliadas nos governos de Lula.

A segunda saída ocorreu em 2025, durante o atual governo Lula.

Segundo dados divulgados pelo governo brasileiro com base nos indicadores da FAO, a prevalência de subalimentação ficou abaixo de 2,5% da população no período de referência utilizado pela organização.

Portanto, há uma base factual para Lula associar seu governo ao combate à fome.

O problema está na maneira como a conquista é apresentada.

“Acabou com a fome” não significa que ninguém passa fome

Esse é talvez o principal ponto que precisa ser explicado ao eleitor.

O chamado Mapa da Fome da FAO não significa uma lista de países onde existe ou não existe qualquer pessoa passando fome.

O indicador utilizado pela Organização das Nações Unidas mede a prevalência de subalimentação crônica.

Para deixar de figurar no mapa, o país precisa apresentar índice inferior a 2,5% da população no indicador utilizado pela FAO.

Isso significa que um país pode estar fora do Mapa da Fome e ainda possuir pessoas em situação de insegurança alimentar.

Portanto, dizer que o Brasil “acabou com a fome” pode funcionar como slogan político, mas não deve ser interpretado literalmente como se nenhum brasileiro mais passasse fome.

A própria checagem de declarações semelhantes de Lula apontou que a afirmação é exagerada quando tomada literalmente.

O Brasil realmente saiu do Mapa da Fome

Aqui está o contraponto necessário à crítica.

A conquista é real.

Em julho de 2025, a ONU confirmou que o Brasil havia saído novamente do Mapa da Fome.

O governo brasileiro informou que a insegurança alimentar severa apresentou forte queda e que milhões de pessoas deixaram essa condição durante o período analisado.

A FAO também reconheceu a evolução brasileira.

Portanto, não seria correto afirmar que Lula simplesmente inventou a conquista.

Ela existe.

O que pode ser questionado é quanto dela pertence exclusivamente ao presidente, quanto decorre de políticas de Estado e quanto é resultado de um processo econômico e social mais amplo.

A primeira saída não foi apenas de Lula

Aqui está uma das partes mais importantes da história.

Quando o Brasil deixou o Mapa da Fome em 2014, o presidente da República era Dilma Rousseff.

Lula havia governado o país de 2003 a 2010.

Durante seus dois mandatos, programas como o Bolsa Família, o Fome Zero, políticas de valorização do salário mínimo, expansão do emprego e transferência de renda foram colocados no centro da política social.

Mas a saída oficial do Mapa da Fome aconteceu durante o governo Dilma.

Por isso, quando Lula afirma que “acabou com a fome duas vezes”, existe uma simplificação histórica.

Ele pode reivindicar parte importante da construção política que levou à primeira saída.

Mas a primeira saída ocorreu sob Dilma.

E depois o Brasil voltou

Essa é a parte que o discurso eleitoral normalmente trata com menos entusiasmo.

O Brasil saiu do Mapa da Fome em 2014.

Depois, voltou.

O país passou a apresentar deterioração nos indicadores de insegurança alimentar, especialmente durante a crise econômica, a pandemia de Covid-19 e os anos seguintes.

Em 2021, o Brasil voltou a figurar no Mapa da Fome da FAO.

Foi um retrocesso importante.

E aqui aparece uma pergunta incômoda para o discurso de Lula:

se a fome foi “acabada”, como ela voltou?

A resposta não pode ser atribuída simplesmente a um único presidente.

Crises econômicas, desemprego, inflação, pandemia, políticas públicas, transferência de renda e desigualdade social interferem diretamente na segurança alimentar.

Mas a pergunta permanece válida politicamente.

Lula saiu, a fome voltou, Lula voltou e a fome saiu novamente

É justamente essa sequência que alimenta a crítica.

Saiu do Mapa da Fome em 2014.

Voltou ao Mapa posteriormente.

Saiu novamente em 2025.

O discurso presidencial transforma essa trajetória em uma narrativa quase pessoal:

“Eu acabei com a fome duas vezes.”

É uma frase eficiente para campanha.

É simples.

É emocional.

É fácil de memorizar.

E toca diretamente na principal marca política de Lula: a identificação com os brasileiros mais pobres.

Mas a história real é mais complicada.

Porque governos não funcionam como interruptores.

Não existe um botão chamado “Lula” que liga ou desliga a fome.

A fome como patrimônio político

Lula compreendeu há décadas que a fome é um dos temas mais poderosos da política brasileira.

Sua própria trajetória pessoal ajudou a construir essa identificação.

O menino pobre de Caetés, no interior de Pernambuco, que migrou com a família para São Paulo, transformou a experiência da pobreza em parte central de sua identidade política.

Quando Lula fala sobre comida, pobreza e desigualdade, não fala apenas como presidente.

Fala como personagem de uma história pessoal.

É justamente por isso que a mensagem possui tanta força.

A crítica possível não é dizer que Lula não fez políticas de combate à fome.

Fez.

A crítica é perguntar se a fome não se transformou também em uma espécie de patrimônio eleitoral permanente.

A cada eleição, o tema retorna.

E retorna porque funciona.

Bolsa Família como símbolo

Um dos instrumentos mais associados a essa trajetória é o Bolsa Família.

O programa foi criado em 2003, durante o primeiro governo Lula, a partir da unificação de programas anteriores de transferência de renda.

Ao longo dos anos, tornou-se uma das principais políticas sociais do país.

O governo atual recuperou o nome Bolsa Família depois de o programa ter sido substituído pelo Auxílio Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro.

Lula utiliza o programa como símbolo de continuidade de sua política social.

Seus adversários, por outro lado, argumentam que programas de transferência de renda não podem ser utilizados como substitutos de emprego, produtividade, educação e crescimento econômico.

As duas questões não são necessariamente incompatíveis.

Transferir renda pode aliviar a pobreza imediatamente.

Criar oportunidades econômicas pode reduzir a dependência da transferência no longo prazo.

O desafio está em fazer as duas coisas simultaneamente.

A crítica ao discurso presidencial

É justamente nesse ponto que o discurso de Lula merece crítica.

Quando o presidente diz que “acabou com a fome”, ele produz uma impressão muito maior do que os números permitem afirmar.

O Brasil não se tornou um país sem fome.

O país conseguiu atingir um indicador internacional que permite sua retirada do Mapa da Fome.

São coisas diferentes.

Uma é uma conquista estatística e social importante.

A outra seria a eliminação absoluta da fome.

E essa segunda realidade ainda não existe.

A questão da dívida pública

Na mesma entrevista, Lula também minimizou as preocupações com a dívida pública.

O presidente afirmou que não está preocupado com o endividamento brasileiro e defendeu a ideia de que o crescimento econômico ajudará a reduzir a relação entre dívida e PIB.

O argumento presidencial é que uma economia que cresce consegue aumentar sua arrecadação e melhorar a relação entre dívida e produto interno bruto.

É uma tese econômica possível.

Mas não significa que a dívida seja irrelevante.

Dados recentes indicam dívida pública bruta na casa de 81,9% do PIB, número que alimenta a preocupação de agentes do mercado e economistas com a trajetória fiscal.

Aqui, novamente, Lula prefere uma narrativa otimista.

O problema é que contas públicas não funcionam apenas com discurso.

Funcionam com receita, despesa, juros, resultado primário e confiança.

O contraste entre fome e dívida

O contraste entre os dois assuntos da entrevista é interessante.

De um lado, Lula apresenta o Estado como instrumento fundamental para combater a pobreza e garantir comida.

De outro, minimiza os efeitos do crescimento da dívida pública.

Mas as duas questões estão relacionadas.

Programas sociais custam dinheiro.

Transferência de renda custa dinheiro.

Saúde custa dinheiro.

Educação custa dinheiro.

Infraestrutura custa dinheiro.

Se o governo quer manter políticas sociais fortes, precisa ter capacidade fiscal para financiá-las de maneira sustentável.

Esse é o ponto que o discurso eleitoral costuma esconder.

Não basta tirar do Mapa da Fome

O desafio brasileiro agora é maior.

Não basta permanecer abaixo do limite estatístico da FAO.

É preciso garantir que famílias não voltem à insegurança alimentar quando houver uma crise econômica.

É preciso melhorar salários.

É preciso gerar empregos.

É preciso controlar a inflação dos alimentos.

É preciso ampliar produtividade.

É preciso melhorar educação.

E é preciso manter políticas de proteção social para quem realmente precisa.

Caso contrário, o país corre o risco de repetir o ciclo:

melhora → queda da insegurança alimentar → crise → piora → recuperação → nova melhora.

Esse ciclo já aconteceu.

E pode acontecer novamente.

A política transforma uma conquista coletiva em slogan

Lula tem razão ao comemorar a saída do Brasil do Mapa da Fome.

Mas é preciso separar comemoração de propaganda.

A conquista pertence a uma combinação de políticas públicas, condições econômicas, programas sociais, agricultura, mercado de trabalho e ações de diferentes governos.

A primeira saída aconteceu no governo Dilma.

A segunda ocorreu no terceiro governo Lula.

E o período entre as duas mostrou que conquistas sociais podem ser perdidas.

Portanto, a frase mais precisa seria:

os governos petistas tiveram papel importante em dois momentos em que o Brasil deixou o Mapa da Fome.

Isso é diferente de afirmar que Lula, pessoalmente, “acabou com a fome duas vezes”.

A fome não pode ser apenas um troféu eleitoral

O problema da fome é sério demais para virar apenas uma medalha política.

Quando Lula apresenta a saída do Mapa da Fome como prova definitiva de seu sucesso, corre o risco de transformar uma questão social permanente em um troféu de campanha.

E a fome não é troféu.

A fome é uma realidade que precisa ser combatida todos os dias.

Se o país estiver fora do Mapa da Fome, ótimo.

Mas o trabalho não termina.

Porque ainda existe insegurança alimentar.

Ainda existem famílias pobres.

Ainda existem crianças que dependem da alimentação escolar.

Ainda existem brasileiros que precisam escolher entre comprar comida, pagar aluguel ou comprar medicamentos.

E isso não desaparece porque uma estatística internacional mudou.

O eleitor precisa olhar além da frase

O discurso de Lula é politicamente eficiente porque combina três elementos muito fortes:

memória pessoal, emoção e resultado estatístico.

Ele lembra ao eleitor que veio da pobreza.

Apresenta a saída do Mapa da Fome como prova de sua capacidade administrativa.

E promete continuar combatendo a desigualdade.

Mas o eleitor também precisa fazer a pergunta que o slogan não responde:

como garantir que o Brasil não volte novamente ao Mapa da Fome?

Essa é a questão realmente importante.

Porque tirar o país da fome uma vez é uma conquista.

Tirar duas vezes é outra conquista.

Mas conseguir construir um país que não volte a colocar sua população em insegurança alimentar seria uma conquista muito maior.

O verdadeiro teste do discurso de Lula

A declaração de Lula funciona muito bem em palanque.

“Acabei com a fome duas vezes.”

É curta.

É emocional.

É poderosa.

Mas a realidade brasileira exige uma frase mais longa:

o Brasil saiu duas vezes do Mapa da Fome, voltou a entrar e conseguiu sair novamente; agora o desafio é construir condições econômicas e sociais para que a fome não volte.

Essa é a parte menos eleitoral da história.

E talvez seja justamente a mais importante.

Porque, no final, não deveria importar quantas vezes um presidente consegue dizer que acabou com a fome.

O que deveria importar é quantas gerações de brasileiros conseguem crescer sem conhecer a fome.

E esse resultado não pode ser propriedade de Lula, de Dilma, de Bolsonaro ou de qualquer outro presidente.

É patrimônio do povo brasileiro.

É obrigação do Estado.

E deve ser uma política pública que sobreviva aos governos, às eleições e aos discursos de campanha.

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