
“Não seja injusto com a Bahia”: Lula transforma crise de segurança em defesa política do PT no Estado
Presidente reage a pergunta de César Tralli sobre a violência baiana, evita responsabilizar diretamente o governador Jerônimo Rodrigues e sustenta que o problema da criminalidade ultrapassa as fronteiras estaduais
A segurança pública colocou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante de uma das perguntas mais incômodas de sua sabatina no Jornal Nacional, da TV Globo, na noite de quinta-feira (27). Questionado pelo jornalista César Tralli sobre os índices de violência na Bahia, Lula interrompeu a lógica da pergunta para defender o Estado e, indiretamente, o grupo político que governa a região há cerca de duas décadas.
A frase veio rápida e em tom de advertência:
“Não seja injusto com a Bahia.”
Tralli havia lembrado que o PT governa a Bahia há aproximadamente 20 anos e que o Estado aparece entre os locais com os mais elevados índices de violência do país. A pergunta colocava Lula diante de uma questão essencialmente política: se o mesmo grupo político administra o Estado há tantos anos, por que a criminalidade continua sendo um problema tão grave?
Lula preferiu ampliar o foco.
Segundo o presidente, nenhum governador brasileiro conseguiu resolver sozinho o problema da segurança pública. Ele citou diferentes regiões do país e argumentou que a violência não pode ser colocada exclusivamente na conta de um Estado ou de um governante.
Foi uma resposta política a uma pergunta que cobrava responsabilidade administrativa.
A Bahia no centro da discussão
A pergunta de Tralli não surgiu no vazio.
A Bahia vem sendo alvo de críticas recorrentes por seus indicadores de violência. Durante a entrevista, o jornalista mencionou que cinco das dez cidades mais violentas do Brasil estavam no Estado, além de destacar a situação envolvendo mortes violentas de crianças e adolescentes.
O Estado é governado pelo PT desde 2007, primeiro com Jaques Wagner, depois com Rui Costa e, atualmente, com Jerônimo Rodrigues.
Wagner governou a Bahia entre 2007 e 2014.
Rui Costa comandou o Estado entre 2015 e 2022.
Jerônimo Rodrigues assumiu em 2023.
São quase duas décadas de governos petistas consecutivos.
É justamente essa continuidade que torna a pergunta sobre responsabilidade política inevitável.
Lula não quis transformar a entrevista em julgamento do PT baiano
Em vez de admitir que o longo domínio petista impõe uma responsabilidade especial sobre os resultados da segurança pública, Lula preferiu afirmar que o problema é nacional.
A estratégia é compreensível do ponto de vista político.
Reconhecer uma crise específica na Bahia poderia significar admitir uma fragilidade de governos aliados justamente em um momento de campanha eleitoral.
Lula está concorrendo à reeleição.
Jerônimo Rodrigues pertence ao mesmo partido.
Jaques Wagner é um dos principais aliados políticos do presidente e uma das figuras mais importantes da história recente do PT baiano.
E Rui Costa, ex-governador e atual ministro da Casa Civil, também está profundamente ligado à administração petista no Estado.
A Bahia, portanto, não é apenas mais um Estado para Lula.
É um território político estratégico.
Jerônimo Rodrigues fica no centro, mesmo sem ser citado
Um dos aspectos mais curiosos da resposta foi justamente o que Lula não disse.
O presidente defendeu a Bahia, mas não fez uma defesa nominal do governador Jerônimo Rodrigues.
Segundo relatos da entrevista, Lula evitou citar diretamente o governador ao responder sobre a crise de segurança.
Politicamente, a escolha é reveladora.
Ao dizer que o problema é nacional, Lula protege o aliado sem precisar assumir integralmente a defesa da gestão estadual.
É uma espécie de escudo político:
não nega a existência do problema, mas desloca a responsabilidade.
A criminalidade passa a ser apresentada como uma questão nacional, e não como uma falha específica de uma administração estadual.
“Nenhum governador resolveu”
Lula repetiu que nenhum governador brasileiro conseguiu solucionar a segurança pública.
O presidente chegou a recorrer a São Paulo e ao passado político paulista.
Dirigindo-se a Tralli, lembrou que o jornalista é paulista e citou as antigas campanhas do ex-governador Paulo Maluf, marcadas pelo discurso de endurecimento contra a criminalidade.
A referência serviu para construir um argumento:
se São Paulo, um dos Estados mais ricos e estruturados do país, também não eliminou a criminalidade, seria injusto atribuir exclusivamente à Bahia a incapacidade de resolver o problema.
O raciocínio tem força política.
Mas não responde completamente à pergunta original.
Porque dizer que outros Estados também enfrentam violência não explica necessariamente por que determinados indicadores permanecem tão elevados em um Estado específico.
A crítica que ficou sem resposta
É justamente aí que a fala de Lula deixa uma lacuna.
Segurança pública realmente é uma responsabilidade compartilhada.
A União possui atribuições importantes.
Os Estados administram suas polícias civis e militares.
Os municípios também desempenham papel relevante em prevenção, iluminação urbana, ordenamento territorial, políticas sociais e proteção de espaços públicos.
O crime organizado, por sua vez, não respeita fronteiras administrativas.
Portanto, Lula tem razão ao dizer que a segurança não é um problema exclusivamente baiano.
Mas isso não elimina a responsabilidade de quem governa a Bahia.
São duas afirmações que podem coexistir:
a segurança é um problema nacional; e o governo estadual precisa responder pelos resultados de suas próprias políticas.
O discurso de Lula muda de direção
A resposta presidencial foi um dos momentos em que Lula demonstrou o estilo combativo que marcou sua sabatina.
O presidente vinha sendo pressionado sobre investigações envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, sobre o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro, conhecido como Marcola, sobre a lobista Roberta Luchsinger, sobre o senador Jaques Wagner e sobre questões econômicas.
Quando a segurança pública entrou no roteiro, Lula novamente reagiu de maneira defensiva.
Não apenas respondeu.
Contestou a pergunta.
A expressão “não seja injusto com a Bahia” sintetizou essa postura.
A PEC da Segurança Pública
Depois de defender o Estado, Lula apresentou uma solução de alcance nacional: a aprovação da PEC da Segurança Pública.
A proposta busca ampliar a integração entre os órgãos de segurança e definir de maneira mais clara as atribuições da União, dos Estados e dos municípios.
Lula afirmou que, caso a PEC seja aprovada, pretende criar um Ministério da Segurança Pública e estabelecer qual será a participação de cada ente federativo no combate ao crime.
A proposta faz parte de uma tentativa do governo federal de assumir maior protagonismo na segurança pública.
Durante muito tempo, o tema ficou concentrado nas mãos dos governos estaduais.
Agora, Lula tenta apresentar uma alternativa na qual a União teria maior participação.
“Recuperar o território”
Em outro momento da entrevista, Lula utilizou uma expressão de forte impacto:
“Meu desejo é recuperar o território.”
E completou:
“A rua é do povo, não é do bandido. A escola é do povo, não é do bandido.”
A frase tem força narrativa.
É quase uma imagem cinematográfica: de um lado, o Estado; do outro, o crime organizado disputando ruas, escolas e comunidades.
Mas também expõe o tamanho do desafio.
Recuperar território significa enfrentar grupos armados, tráfico de drogas, milícias, lavagem de dinheiro, corrupção, circulação de armas e estruturas criminosas que possuem recursos financeiros e capacidade de organização.
Não se trata apenas de colocar mais policiais nas ruas.
Inteligência como palavra-chave
Lula também defendeu investimentos em inteligência.
A ideia é substituir parcialmente uma política baseada apenas na presença ostensiva por uma estratégia capaz de identificar chefes de organizações criminosas, rotas financeiras, fornecedores de armas, redes de lavagem de dinheiro e conexões interestaduais.
Nesse ponto, o presidente apresentou uma proposta mais sofisticada do que simplesmente aumentar o policiamento.
O problema é transformar discurso em estrutura.
Inteligência exige tecnologia, integração de bancos de dados, investigação financeira, pessoal qualificado e cooperação permanente entre instituições.
A Polícia Federal entra na argumentação
Lula também defendeu uma atuação mais integrada da Polícia Federal nos Estados.
O presidente afirmou que nem sempre os governadores pedem a atuação da PF e citou a investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco como exemplo da importância da participação federal.
A menção foi politicamente significativa.
O caso Marielle tornou-se um dos maiores símbolos da violência política no Brasil.
Ao citá-lo, Lula procurou demonstrar que crimes de grande complexidade exigem atuação federal.
Também utilizou o exemplo para defender uma maior integração entre os diferentes níveis de segurança.
O narcotráfico como problema internacional
Lula ainda relacionou o combate à criminalidade brasileira ao tráfico internacional de drogas.
Segundo o presidente, ele teria levado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, uma proposta de cooperação contra o narcotráfico.
A ideia apresentada por Lula é que o crime organizado precisa ser combatido além das fronteiras brasileiras.
Isso significa atuar contra rotas internacionais, armas, drogas e fluxos financeiros.
É uma mudança importante no discurso.
A violência deixa de ser apenas um problema de polícia e passa a ser tratada como uma questão de segurança nacional e internacional.
A defesa política da Bahia
Mas, no fundo, a frase que ficou foi outra:
“Não seja injusto com a Bahia.”
É uma frase que pode ser interpretada de duas maneiras.
Para os aliados de Lula, representa a defesa de um Estado que frequentemente é apresentado de forma negativa por causa dos índices de violência.
Para seus críticos, pode parecer uma tentativa de evitar que o PT seja responsabilizado por quase 20 anos de governos consecutivos.
A verdade provavelmente está no meio.
A Bahia não pode ser reduzida à violência.
Mas também não pode ser protegida da crítica quando os números da segurança pública são ruins.
O problema de transformar responsabilidade em comparação
Comparar a Bahia com São Paulo, Rio de Janeiro ou outros Estados pode ser útil para demonstrar que a violência é um fenômeno nacional.
Mas existe um limite.
Quando um governo é questionado sobre seus próprios resultados, responder que “outros também têm problemas” não basta.
É como um aluno que, diante de uma nota baixa, responde ao professor que seus colegas também foram mal.
Isso pode ser verdade.
Mas não muda a nota.
A Bahia precisa ser analisada pelos próprios indicadores.
E seus governantes precisam apresentar respostas concretas.
O PT e a longa permanência no poder
O PT administra a Bahia desde 2007.
Isso significa que o partido teve tempo suficiente para desenvolver políticas próprias de segurança.
Também teve tempo suficiente para experimentar modelos diferentes, corrigir erros e construir uma estratégia de longo prazo.
Por isso, a cobrança sobre os governos petistas é legítima.
Não significa que o PT seja responsável por toda a violência existente no Estado.
Crime organizado, desigualdade, tráfico internacional, disponibilidade de armas, falhas históricas das instituições e problemas sociais são fatores muito mais amplos.
Mas o governo estadual tem responsabilidade pela política de segurança que escolheu implementar.
A Bahia não pode ser apenas uma bandeira política
Há também uma dimensão humana nessa discussão.
Por trás das estatísticas existem famílias.
Existem policiais mortos.
Existem crianças atingidas pela violência.
Existem comerciantes ameaçados.
Existem bairros onde moradores alteram suas rotinas por medo.
Existem escolas que precisam lidar com a presença ou a influência do crime.
Quando a segurança pública vira apenas uma disputa entre PT e oposição, o principal personagem desaparece:
o cidadão.
É ele quem paga o preço quando o Estado perde o controle de seu território.
Lula tenta ocupar o espaço da segurança
Historicamente, a segurança pública foi um tema mais explorado pela direita brasileira.
Bolsonaro construiu parte importante de sua identidade política em torno do discurso de endurecimento contra o crime.
Agora, Lula tenta disputar esse território.
Sua linguagem mudou.
Fala em recuperar territórios.
Fala em inteligência.
Fala em integração.
Fala em combater o narcotráfico internacional.
Fala em fortalecer a participação federal.
É uma tentativa de demonstrar que a esquerda também possui uma agenda para segurança pública.
Mas existe uma contradição política
A dificuldade é que Lula precisa defender simultaneamente duas coisas.
Precisa dizer que a segurança é um problema nacional.
E precisa explicar por que seu próprio partido, depois de quase duas décadas no comando da Bahia, ainda enfrenta tanta dificuldade para apresentar uma solução convincente.
É uma equação eleitoral complicada.
Se admite responsabilidade exclusiva do governo estadual, coloca Jerônimo e o PT na defensiva.
Se atribui tudo à União, assume maior responsabilidade como presidente.
Por isso, Lula escolheu uma terceira via:
a Bahia não é culpada sozinha, porque ninguém resolveu o problema.
Politicamente, é uma resposta inteligente.
Administrativamente, porém, ainda falta mostrar o resultado.
A frase que resume a entrevista
No fim, a frase “não seja injusto com a Bahia” acabou funcionando como uma espécie de título involuntário da resposta presidencial.
Lula quis proteger o Estado.
Quis proteger seu partido.
Quis evitar uma condenação política do governo de Jerônimo Rodrigues.
E, ao mesmo tempo, tentou transformar a segurança pública em uma agenda nacional.
Mas a realidade das ruas não responde a discursos.
Não responde a partidos.
Não responde a comparações entre Estados.
Responde a políticas públicas eficientes.
O desafio de Jerônimo Rodrigues
Para Jerônimo Rodrigues, a discussão é ainda mais direta.
O governador precisa apresentar resultados concretos na segurança pública.
A defesa de Lula pode ajudar politicamente, mas não substitui a ação do governo estadual.
O cidadão baiano não quer saber apenas se a culpa é da União, do Estado, do município ou do crime organizado.
Ele quer saber se pode sair de casa e voltar em segurança.
Quer saber se seus filhos podem ir à escola.
Quer saber se pode abrir seu comércio sem pagar taxas impostas por criminosos.
Quer saber se a polícia terá estrutura para protegê-lo.
O desafio de Lula
Para Lula, o desafio é ainda maior.
Se quer transformar segurança pública em uma bandeira de campanha, precisará entregar mais do que frases fortes.
Precisará demonstrar que a União pode efetivamente coordenar Estados e municípios.
Precisará mostrar resultados da inteligência policial.
Precisará avançar contra o financiamento das organizações criminosas.
Precisará combater o tráfico de armas e drogas.
E precisará provar que uma nova estrutura federal não será apenas mais um ministério em Brasília.
No fundo, a Bahia virou espelho
A Bahia acabou funcionando como um espelho da própria dificuldade brasileira.
De um lado, governos estaduais que não conseguem controlar completamente a criminalidade.
De outro, uma União que durante décadas deixou a segurança majoritariamente nas mãos dos Estados.
No meio, uma população cansada de ouvir explicações.
Lula tem razão ao dizer que a segurança pública não é um problema exclusivamente baiano.
Mas também é preciso dizer que essa verdade não pode servir como salvo-conduto para governos que precisam prestar contas.
Uma coisa não exclui a outra.
A violência é nacional.
A responsabilidade também é compartilhada.
Mas cada governador continua responsável por aquilo que acontece sob sua administração.
O que ficou da resposta de Lula
A defesa da Bahia mostrou um presidente politicamente atento.
Lula percebeu que uma crítica à segurança do Estado poderia atingir diretamente seus aliados.
Reagiu.
Ampliou o debate.
Citou São Paulo.
Citou Paulo Maluf.
Defendeu a PEC da Segurança.
Falou em inteligência.
Falou em Polícia Federal.
Falou em narcotráfico.
Falou em recuperar territórios.
Mas a pergunta inicial continuou pairando no ar:
depois de quase 20 anos de governos do PT na Bahia, por que a segurança continua sendo um dos maiores problemas do Estado?
Lula respondeu que é injusto colocar a culpa apenas na Bahia.
É uma resposta politicamente compreensível.
Mas a população baiana merece algo além de uma disputa de responsabilidades.
Merece segurança.
Merece Estado presente.
Merece polícia equipada, investigação eficiente, inteligência, prevenção e Justiça funcionando.
Porque, no fim, a rua realmente é do povo — e nenhum discurso político será suficiente enquanto o cidadão tiver medo de ocupá-la.