Lula manda Flamengo e Corinthians procurarem outra forma de ganhar dinheiro após anunciar fim das bets

Lula manda Flamengo e Corinthians procurarem outra forma de ganhar dinheiro após anunciar fim das bets

Presidente afirma que clubes não podem depender das apostas esportivas e diz que Flamengo e Corinthians terão de buscar novas receitas; mudança ocorre depois de anos de regulamentação do setor pelo próprio governo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a atacar a dependência dos clubes brasileiros em relação às casas de apostas e, durante um ato no Recife, direcionou o discurso especialmente a Flamengo e Corinthians.

Lula afirmou que os clubes terão de encontrar outra fonte de receita porque, segundo ele, “a bet vai acabar”. O presidente citou valores de aproximadamente R$ 240 milhões para o Flamengo e R$ 150 milhões para o Corinthians e criticou o modelo de financiamento do futebol por meio das empresas de apostas.

“Os clubes não têm o direito de querer sobreviver às custas do povo pobre que torce para o time”, afirmou Lula, acrescentando que os clubes deveriam ter se estruturado como empresas depois da criação das Sociedades Anônimas do Futebol.

A declaração ocorre justamente quando o governo anunciou uma Medida Provisória para proibir as bets no Brasil e impedir novos patrocínios de casas de apostas no futebol. O Executivo também anunciou proposta de criminalização da exploração das plataformas, com penas de prisão.

A contradição que provoca questionamentos

A decisão provoca uma pergunta inevitável sobre a própria política adotada pelo governo federal: como um mercado que foi regulamentado pelo Estado passou, poucos anos depois, a ser tratado pelo mesmo governo como uma atividade que precisa acabar?

A regulamentação permitiu a operação de empresas licenciadas, que pagaram outorgas e passaram a firmar contratos dentro das regras estabelecidas pelo próprio poder público. Agora, o governo pretende interromper esse mercado de forma abrupta.

O Flamengo reagiu defendendo a manutenção de um mercado regulado. O clube argumentou que empresas e instituições assumiram compromissos e realizaram investimentos com base nas regras estabelecidas pelo Estado e alertou para os efeitos de uma mudança repentina.

Impacto no futebol

A discussão não envolve apenas Flamengo e Corinthians.

Segundo levantamento divulgado pelo Lance!, 14 dos 20 clubes da Série A utilizavam casas de apostas como patrocinadoras principais de seus uniformes, além de outros contratos comerciais. O setor havia se tornado uma importante fonte de receitas para o futebol brasileiro.

O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, afirmou que a perda das receitas das bets produziria impactos relevantes não apenas no futebol profissional, mas também nas categorias de base, no futebol feminino e nos esportes olímpicos do clube.

O dirigente também calculou que uma perda de centenas de milhões de reais obrigaria o Flamengo a realizar ajustes significativos em seu orçamento.

“Vai ter que arranjar outra forma”

É nesse cenário que a declaração de Lula ganhou repercussão.

O presidente não apresentou, naquele discurso, uma alternativa concreta para substituir imediatamente os valores provenientes dos contratos de apostas. Limitou-se a afirmar que Flamengo, Corinthians e outros clubes precisarão encontrar novas formas de arrecadação.

A crítica ao discurso está justamente nesse ponto: é relativamente simples determinar que os clubes abandonem determinada fonte de receita; mais complexo é explicar como substituir contratos milionários sem comprometer investimentos, salários, categorias de base e outras modalidades esportivas.

O governo, por sua vez, sustenta que a prioridade é combater o vício em apostas e impedir que dinheiro de pessoas vulneráveis seja direcionado para esse mercado. Lula afirmou que não aceita perder a vida de pessoas pobres em razão das apostas.

O problema da mudança de regra

O debate, portanto, não se resume a ser favorável ou contrário às bets.

Existe uma discussão sobre segurança jurídica, proteção dos apostadores, combate ao mercado ilegal e responsabilidade do Estado na formulação das regras.

O Flamengo sustenta que uma proibição repentina pode fortalecer justamente o mercado clandestino, retirando do governo instrumentos de fiscalização e tributação. O clube citou estimativas segundo as quais uma parcela significativa das apostas online já ocorre em plataformas ilegais.

Já o governo defende que a atividade produz danos sociais que justificam uma intervenção mais dura.

A crítica política

A declaração de Lula também expõe uma contradição política que merece ser discutida: o governo que regulamentou o setor agora anuncia que pretende eliminá-lo.

Para os clubes que fizeram investimentos com base nas regras vigentes, a mudança representa uma ruptura importante no ambiente regulatório. Para o governo, trata-se de uma medida necessária diante dos efeitos sociais das apostas.

O ponto que permanece em aberto é como fazer essa transição sem produzir consequências econômicas relevantes para clubes, trabalhadores, empresas e para o próprio mercado esportivo.

Flamengo e Corinthians foram citados nominalmente por Lula, mas o problema é muito maior. O futebol brasileiro inteiro construiu parte significativa de sua estrutura comercial recente em torno das bets.

Agora, diante da decisão do governo, os clubes realmente terão de procurar “outra forma” de arrecadar.

Mas a pergunta que fica para o governo federal é outra: se o Estado criou as regras, autorizou as empresas, recebeu outorgas e permitiu os contratos, quem deve assumir o custo da mudança repentina de direção?

Essa é a principal controvérsia provocada pelo anúncio de Lula sobre o fim das bets.

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