
Flamengo reage a Lula e alerta: proibição das bets pode fortalecer mercado ilegal
Clube contesta mudança anunciada pelo governo, defende aperfeiçoamento da regulamentação e afirma que uma proibição repentina ameaça receitas, empregos, investimentos e a própria fiscalização das apostas
O Flamengo reagiu à decisão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de proibir as apostas esportivas e outros jogos on-line no Brasil e fez um alerta direto: tirar do mercado as empresas legalizadas não significa acabar com as apostas e pode abrir ainda mais espaço para plataformas clandestinas.
A manifestação foi divulgada pelo clube na sexta-feira, 25 de setembro de 2026, por meio de uma nota intitulada “Proibir não acaba com o jogo”. O Flamengo defendeu a manutenção de um mercado regulado, admitindo que as regras podem ser aperfeiçoadas e endurecidas, mas questionando a decisão de desmontar um sistema que havia sido criado pelo próprio Estado.
Segundo o clube, o Brasil passou anos discutindo a regulamentação das apostas, o Congresso aprovou as regras, o governo regulamentou o setor e empresas assumiram investimentos e compromissos para atuar legalmente. Para o Flamengo, uma mudança abrupta representa um problema de segurança jurídica.
Lula diz que os clubes terão de procurar outra fonte de receita
A reação do Flamengo ocorreu depois de Lula criticar a dependência dos clubes em relação às casas de apostas.
Durante um ato de campanha no Recife, o presidente citou nominalmente Flamengo e Corinthians e afirmou que os clubes precisariam encontrar outra maneira de arrecadar caso as bets fossem eliminadas.
Lula afirmou que o Flamengo receberia cerca de R$ 240 milhões e o Corinthians aproximadamente R$ 150 milhões das empresas de apostas e disse que os clubes deveriam aprender a viver sem esse dinheiro.
O discurso provocou reação imediata do futebol brasileiro.
No dia seguinte, o governo anunciou uma Medida Provisória proibindo as bets, incluindo plataformas de apostas esportivas e cassinos on-line. A MP entrou em vigor com a publicação, mas precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional em até 120 dias para não perder a validade.
Bap rebate Lula
O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, conhecido como Bap, contestou diretamente a ideia de que os clubes estariam fazendo algo irregular ao utilizar receitas provenientes das bets.
Em entrevista ao Poder360, Bap afirmou que o Flamengo atua dentro das regras estabelecidas pelo próprio país e lembrou que as licenças foram concedidas pelo governo.
Segundo o dirigente, o clube não estaria fazendo nada ilegal e deve simplesmente cumprir o marco regulatório vigente.
Bap também questionou se a proibição realmente alcançará o objetivo de reduzir o vício em apostas.
Na avaliação apresentada pelo dirigente, apostadores compulsivos podem migrar das plataformas legalizadas para sites clandestinos, onde existem menos mecanismos de controle, fiscalização e proteção ao consumidor.
Flamengo aponta crescimento do mercado clandestino
O principal argumento apresentado pelo clube é que proibir o mercado legal não necessariamente elimina a atividade econômica.
O Flamengo citou uma pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada em maio de 2026 com 2.291 apostadores, e um estudo da LCA Consultores baseado nesses dados.
Segundo a estimativa mencionada pelo clube, entre 38% e 44% do valor apostado on-line no Brasil estaria atualmente em plataformas clandestinas.
O Flamengo também destacou que essa estimativa teria sido de 41% a 51% em 2025, antes da consolidação do atual modelo regulatório, e teria caído para 38% a 44% no primeiro semestre de 2026.
O argumento apresentado pelo clube é que a regulamentação teria permitido ao Estado deslocar parte da atividade para um ambiente sujeito a fiscalização, tributação e regras de proteção.
Por isso, a entidade questiona o que aconteceria caso as empresas autorizadas fossem retiradas do mercado.
A frase central da manifestação resume a posição do clube: “O jogo não vai acabar com uma canetada. O que acaba é a parte que o Brasil consegue regular, fiscalizar, tributar e responsabilizar.”
Impacto financeiro no Flamengo
O Flamengo possui uma exposição especialmente grande ao mercado de apostas.
Segundo levantamento da Sports Value, o clube recebeu R$ 269 milhões em patrocínios de bets em 2025. O valor representou aproximadamente 50% da receita de marketing e 13% da receita total do clube.
Bap afirmou que o impacto total seria ainda maior quando considerados outros contratos, placas e propriedades comerciais relacionadas ao setor.
Na estimativa apresentada pelo presidente do Flamengo, o valor direta ou indiretamente relacionado às empresas de apostas poderia chegar a aproximadamente R$ 400 milhões.
O dirigente também afirmou que seria praticamente impossível substituir integralmente essa receita no curto prazo.
Não é apenas o futebol profissional
O Flamengo argumenta que os efeitos não ficariam restritos ao time principal.
Segundo a nota do clube, uma mudança repentina atingiria:
- futebol profissional;
- categorias de base;
- futebol feminino;
- esportes olímpicos;
- campeonatos;
- empregos diretos e indiretos;
- fornecedores;
- empresas de comunicação;
- empresas de marketing;
- empresas de tecnologia;
- arenas;
- prestadores de serviços.
O clube também sustenta que existe impacto sobre a arrecadação pública, já que o mercado regulamentado paga impostos e outras obrigações previstas na legislação.
O tamanho do mercado das bets no futebol
A dimensão da discussão ajuda a explicar a reação dos clubes.
Segundo levantamento citado pelo Lance!, 14 dos 20 clubes da Série A tinham empresas de apostas como patrocinadoras principais de suas camisas, além de outros contratos comerciais envolvendo o setor.
A Sports Value aponta que as bets responderam por cerca de R$ 1,1 bilhão dos R$ 3,2 bilhões em receitas de marketing dos 20 maiores clubes brasileiros em 2025, equivalente a aproximadamente 34%.
Ou seja, o problema não atinge exclusivamente o Flamengo.
A crítica à mudança repentina
A principal crítica apresentada pelo Flamengo não é que as regras jamais possam ser modificadas.
O próprio clube afirma que, se existem problemas na regulamentação, as regras podem ser endurecidas, e empresas que descumprirem a legislação devem ser punidas.
A crítica está na diferença entre aperfeiçoar uma regulamentação e simplesmente acabar com o mercado legalizado.
Essa distinção é importante porque as empresas receberam autorização para operar, pagaram outorgas, investiram em tecnologia, publicidade e estrutura e firmaram contratos com clubes dentro das regras estabelecidas pelo Estado.
Segundo levantamento divulgado pelo Poder360, a União já havia arrecadado aproximadamente R$ 2,5 bilhões em taxas de outorga desde a regulamentação do setor.
Agora, poucos anos depois da regulamentação, o governo pretende extinguir esse mercado.
A resposta do governo
O governo Lula apresenta uma justificativa diferente.
A posição oficial é de que as apostas on-line produzem danos sociais, especialmente relacionados ao endividamento e à dependência, e que seria necessária uma intervenção mais dura.
A Medida Provisória anunciada em 25 de setembro também prevê medidas contra plataformas ilegais, bloqueio de contas bancárias e atuação conjunta com órgãos de fiscalização e provedores para retirar sites clandestinos do ar.
Portanto, a disputa não é simplesmente entre “Flamengo contra Lula”.
De um lado estão o governo e seus argumentos de proteção social e combate ao vício e ao mercado de apostas. Do outro estão clubes, empresas e representantes do setor que defendem um mercado regulado e afirmam que a proibição pode fortalecer justamente as plataformas clandestinas.
A questão da segurança jurídica
O ponto mais sensível da reação do Flamengo está na segurança jurídica.
O clube argumenta que o Estado não pode estabelecer um modelo regulatório, permitir que empresas invistam e que instituições esportivas firmem contratos com base nessas regras e, posteriormente, simplesmente eliminar o mercado.
Bap resumiu a posição afirmando que o Flamengo não praticou ilegalidade e que todas as suas atividades relacionadas às bets ocorreram dentro das regras estabelecidas.
Para ele, qualquer mudança deveria passar pelo processo legislativo adequado e ser acompanhada de uma transição capaz de reduzir os impactos sobre o futebol.
Uma disputa que vai além do Flamengo
O embate entre Lula e Flamengo transformou as bets em um dos assuntos mais controversos do futebol brasileiro neste momento.
O presidente diz que os clubes precisam procurar novas fontes de receita.
O Flamengo responde que não está fazendo nada ilegal e que a retirada das empresas autorizadas pode aumentar o espaço para o mercado clandestino.
A discussão agora chega ao Congresso Nacional, que terá de analisar a Medida Provisória, e poderá também chegar ao Judiciário, diante das possíveis consequências para empresas que receberam autorização para operar e realizaram investimentos com base no marco regulatório existente.
O ponto central permanece: combater o jogo ilegal e proteger os apostadores é uma finalidade declarada pelo governo; a controvérsia está em saber se a proibição do mercado regulado alcançará esse objetivo ou se poderá deslocar parte ainda maior da atividade para plataformas clandestinas.
É justamente essa resposta que Flamengo, governo, clubes, empresas, Congresso e consumidores terão de enfrentar nos próximos passos da mudança anunciada.