Lula promete “inteligência artificial em português”, mas projeto já existe e discurso de campanha levanta dúvidas sobre execução

Em entrevista ao Flow, candidato à reeleição voltou a prometer uma tecnologia brasileira e disse que país será potência econômica e energética; proposta, porém, já está prevista no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, voltou a apresentar durante a campanha eleitoral a promessa de que o Brasil terá uma “inteligência artificial em português”. A declaração foi feita na noite de quinta-feira (1º), durante entrevista ao Flow Podcast, em meio à reta final da campanha presidencial e apenas três dias antes do primeiro turno.

Lula afirmou que pretende transformar o Brasil em uma potência econômica e energética e associou esse projeto ao desenvolvimento tecnológico, à exploração de minerais críticos e terras raras e à produção nacional de equipamentos de alta tecnologia.

Entre as promessas apresentadas pelo presidente está a criação de uma inteligência artificial desenvolvida para o português.

A ideia, porém, não nasceu na entrevista do Flow nem representa um projeto que esteja apenas começando agora.

O governo federal já possui o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê investimentos e ações para desenvolver modelos de inteligência artificial baseados em dados nacionais e especializados na língua portuguesa. O documento oficial estabelece, inclusive, a meta de construir um modelo de linguagem de grande escala — um LLM — robusto e seguro para o português.

É justamente essa diferença entre promessa política, projeto governamental já existente e resultado efetivamente entregue que merece atenção.

Lula volta a falar da IA brasileira

Durante a entrevista ao Flow, Lula afirmou que o Brasil precisa dominar tecnologias estratégicas e não depender exclusivamente de soluções produzidas por Estados Unidos ou China.

Segundo a reportagem do Estado de Minas, o presidente afirmou que o país desenvolverá inteligência artificial em português e também produzirá celulares e artigos de alta tecnologia. A declaração foi feita no contexto de uma visão mais ampla de transformação econômica e energética do país.

A fala faz parte de uma sequência de declarações semelhantes realizadas pelo presidente nas últimas semanas.

Em setembro, durante entrevista à Band, Lula já havia defendido explicitamente a criação de uma inteligência artificial brasileira para reduzir a dependência tecnológica de outros países.

Na ocasião, afirmou que havia desafiado o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, dois anos antes, a desenvolver uma inteligência artificial que falasse português. Também defendeu a formação de especialistas em institutos federais e universidades.

Em outro discurso de campanha, Lula voltou a dizer que queria inteligência artificial em português, e não em inglês ou chinês. A declaração foi relacionada ao PBIA e à meta de investimentos de R$ 23 bilhões até 2028.

Mas o projeto já está previsto

Aqui está um dos pontos mais importantes da discussão.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial já estabelece uma ação específica para o desenvolvimento de modelos de linguagem em português.

O documento oficial do governo prevê o incentivo à curadoria de bases de dados nacionais e ao desenvolvimento de modelos fundacionais, especialmente LLMs especializados em português.

A meta estabelecida no plano é construir um modelo robusto e seguro para a língua portuguesa em um prazo de 12 meses, além de ampliar a oferta de conjuntos de dados nacionais para treinamento. O plano prevê R$ 1,1 bilhão em recursos para essa ação no período de 2024 a 2028.

Portanto, quando Lula diz que o Brasil “vai criar” uma inteligência artificial em português, é importante explicar ao eleitor que existe uma estrutura governamental anterior à declaração e que a proposta faz parte de um plano já apresentado pelo próprio governo.

A questão que permanece é outra:

quando essa tecnologia estará efetivamente disponível, qual será sua capacidade e quanto custará aos cofres públicos?

A diferença entre uma IA em português e uma “IA brasileira”

Outro ponto que merece esclarecimento é a expressão utilizada no discurso político.

Criar uma inteligência artificial que funcione bem em português não significa necessariamente criar do zero uma tecnologia comparável aos maiores sistemas privados desenvolvidos internacionalmente.

Um modelo pode utilizar infraestrutura, chips, sistemas computacionais, bibliotecas, componentes e tecnologias desenvolvidas em diferentes países.

O próprio PBIA fala em modelos de linguagem baseados em dados nacionais e especializados em português. Isso é diferente de afirmar que o Brasil produzirá isoladamente toda a cadeia tecnológica necessária para uma IA de ponta.

Essa distinção é fundamental para que uma promessa eleitoral não seja transformada em uma expectativa tecnológica impossível de medir.

Lula quer reduzir dependência de EUA e China

O argumento central de Lula é a soberania tecnológica.

Em setembro, o presidente afirmou que não queria que o Brasil dependesse da inteligência artificial chinesa ou americana e defendeu a construção de uma tecnologia nacional.

O raciocínio acompanha uma tendência internacional: governos passaram a considerar inteligência artificial, semicondutores, data centers, energia e minerais críticos como setores estratégicos.

No caso brasileiro, Lula também tem associado a discussão às terras raras e aos minerais críticos, defendendo que o país agregue mais valor aos recursos naturais antes de exportá-los.

Na entrevista ao Flow, esse conjunto apareceu novamente como parte de uma proposta de transformação econômica.

A promessa dos celulares

Além da inteligência artificial, Lula também afirmou que o Brasil produzirá celulares e outros artigos de alta tecnologia.

O discurso apresenta uma visão de industrialização tecnológica na qual o país deixaria de atuar apenas como fornecedor de matérias-primas e passaria a produzir equipamentos e tecnologias de maior valor agregado.

A proposta, porém, também exige explicações práticas.

Quais empresas produzirão esses equipamentos?

Quais serão os investimentos privados?

Qual será a participação do governo?

Quanto será subsidiado pelo Estado?

Como os produtos brasileiros competirão com fabricantes internacionais?

E, principalmente, qual será o impacto para o consumidor?

Sem respostas para essas perguntas, a promessa permanece no campo das diretrizes políticas.

O dinheiro já previsto no PBIA

O PBIA é um dos principais elementos para entender o discurso de Lula.

O plano brasileiro prevê um conjunto de ações para inteligência artificial, incluindo infraestrutura computacional, formação de profissionais, desenvolvimento científico e utilização de IA no setor público.

A ação relacionada especificamente a modelos de linguagem em português prevê R$ 1,1 bilhão entre 2024 e 2028. O objetivo declarado é reduzir a dependência externa e desenvolver modelos alinhados às características e necessidades brasileiras.

Isso significa que o debate não deveria começar perguntando apenas “o Brasil vai criar uma IA?”.

A pergunta mais importante é:

o que já foi executado do plano, quanto dinheiro já foi aplicado, quais modelos estão sendo desenvolvidos e quais resultados concretos já foram entregues?

Crítica: promessa tecnológica precisa virar resultado

O discurso de Lula pode soar grandioso quando apresenta o Brasil como futura potência de inteligência artificial, energia, minerais críticos e indústria tecnológica.

Mas o país já possui uma longa história de promessas de grandes projetos tecnológicos que precisam ser avaliadas pela execução.

Anunciar uma inteligência artificial é fácil.

Criar infraestrutura computacional competitiva, reunir bases de dados de qualidade, formar pesquisadores, desenvolver modelos eficientes, garantir segurança, financiar pesquisa e colocar uma ferramenta competitiva nas mãos da população é outra história.

É justamente nesse ponto que a crítica se torna necessária.

Não basta anunciar a IA brasileira. É preciso mostrar a IA brasileira funcionando.

E, principalmente, apresentar números.

Quanto já foi investido?

Quantos pesquisadores estão envolvidos?

Qual modelo está sendo desenvolvido?

Quais instituições participam?

Qual capacidade computacional estará disponível?

Quem fornecerá os chips?

Qual será o custo de treinamento?

Qual será o custo de operação?

Como o projeto será auditado?

Sem essas respostas, o eleitor recebe principalmente uma promessa.

A ironia do discurso eleitoral

Há também uma ironia inevitável no momento escolhido para a promessa.

Lula fala de uma inteligência artificial brasileira justamente em uma eleição na qual a própria inteligência artificial se tornou um dos grandes instrumentos da disputa política.

O TSE estabeleceu regras específicas para o uso de IA nas eleições de 2026, incluindo restrições temporais para circulação de novos conteúdos sintéticos que modifiquem imagem, voz ou manifestação de candidatos e pessoas públicas. A Corte também proibiu sistemas de IA de recomendar candidaturas aos usuários durante o processo eleitoral.

Ou seja: enquanto o governo promete ampliar a capacidade brasileira em inteligência artificial, a Justiça Eleitoral tenta controlar os efeitos políticos dessa mesma tecnologia.

É uma contradição interessante do momento atual.

A tecnologia avança.

A política tenta acompanhar.

E o Estado procura estabelecer limites.

O Brasil realmente pode desenvolver uma IA própria?

Sim, o Brasil possui universidades, pesquisadores, empresas, infraestrutura tecnológica e capacidade científica suficientes para desenvolver modelos e aplicações relevantes em inteligência artificial.

O desafio está na escala.

Os maiores sistemas de IA exigem enorme capacidade computacional, grandes volumes de dados, especialistas altamente qualificados e investimentos muito elevados.

Por isso, uma eventual estratégia brasileira precisa ser medida não apenas pela existência de um modelo em português, mas por sua capacidade de competir em qualidade, segurança, custo, velocidade e aplicações práticas.

Uma IA brasileira pode ter vantagens específicas justamente por compreender melhor o português e características dos dados brasileiros.

Mas isso não significa automaticamente que será melhor ou mais avançada que os grandes sistemas internacionais.

O governo já utiliza inteligência artificial

O próprio governo federal já possui iniciativas de utilização de inteligência artificial.

A Secretaria de Governo Digital informa que o Executivo Federal mantém um Núcleo de Inteligência Artificial destinado a apoiar órgãos públicos na adoção da tecnologia. Dados apresentados pelo governo apontam 182 soluções de IA em operação e 144 órgãos planejando adotar assistentes de IA, com informações referentes a 2025.

Isso mostra que o debate não começa do zero.

Existe infraestrutura institucional e existem projetos em andamento.

O desafio é transformar essas iniciativas em uma política tecnológica capaz de produzir resultados de longo prazo.

A promessa que precisa ser cobrada

A declaração de Lula no Flow, portanto, deve ser entendida dentro de um projeto que já está formalizado no governo.

O PBIA não é uma novidade criada durante a entrevista.

A novidade é o modo como o presidente volta a utilizar a inteligência artificial como uma promessa eleitoral de soberania tecnológica.

E isso exige cobrança.

Se o Brasil realmente pretende construir uma IA em português, o eleitor tem o direito de saber quanto será gasto, quem desenvolverá, quais empresas participarão, quais universidades estarão envolvidas e quando o primeiro modelo competitivo estará disponível.

Também é necessário distinguir uma ferramenta pública brasileira especializada em português de uma tecnologia capaz de competir diretamente com os maiores modelos internacionais.

Entre a promessa e a entrega

Lula apresenta uma visão ambiciosa: um Brasil produtor de inteligência artificial, celulares, tecnologias avançadas e produtos derivados de seus minerais estratégicos.

A proposta pode ser transformadora se sair do discurso e resultar em pesquisa, empresas, empregos, inovação e produtos competitivos.

Mas campanha eleitoral não deve ser confundida com entrega tecnológica.

O Brasil já tem um plano.

Já existem metas.

Já existem recursos previstos.

Agora vem a parte mais difícil: executar, medir e entregar resultados.

Porque inteligência artificial não nasce de palanque, slogan ou promessa presidencial.

Ela nasce de pesquisa, computadores, dados, pesquisadores, investimento, empresas, universidades e anos de desenvolvimento.

E, se o governo realmente pretende colocar uma “inteligência artificial em português” entre os grandes projetos nacionais, a cobrança precisa ser feita desde já:

menos promessa de campanha e m

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags