Lula reforça defesa de investimentos militares e chama presença feminina no Exército de “revolução comportamental”

Lula reforça defesa de investimentos militares e chama presença feminina no Exército de “revolução comportamental”

Durante cerimônia do Dia do Soldado, no Quartel-General do Exército, presidente afirmou que Defesa deve ser prioridade permanente e que o Brasil precisa se preparar “não para a guerra”, mas para a paz

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a defender, nesta terça-feira (25), o aumento da prioridade dada pelo governo aos investimentos em Defesa Nacional. A declaração ocorreu durante a cerimônia do Dia do Soldado, realizada no Quartel-General do Exército, em Brasília, e ganhou peso político por ocorrer em meio à campanha eleitoral de 2026.

Em conversa com jornalistas após a solenidade, Lula afirmou que a Defesa não pode depender da existência de recursos sobrando no Orçamento. “A defesa não pode ser uma coisa quando sobrar dinheiro. Nós temos que priorizar”, declarou.

O presidente acrescentou que a finalidade dos investimentos não seria preparar o país para um conflito, mas garantir capacidade de proteção nacional.

“Preparar esse país não para a guerra, preparar esse país para a paz. Preparar esse país para defender o nosso território, as nossas riquezas e o nosso povo.”

Defesa como prioridade de governo

A fala de Lula representa a continuidade de uma mensagem que o presidente vem repetindo nas últimas semanas: a necessidade de ampliar os investimentos nas Forças Armadas e, ao mesmo tempo, fortalecer a indústria brasileira de Defesa.

Ao justificar a posição, Lula mencionou as dimensões territoriais do Brasil, as fronteiras terrestres e marítimas e a quantidade de recursos naturais existentes no país. Segundo ele, a proteção brasileira envolve não apenas a segurança militar, mas também a preservação de riquezas estratégicas.

O presidente citou 16,8 mil quilômetros de fronteiras terrestres, cerca de 8 mil quilômetros de fronteira marítima, reservas florestais, minerais críticos, população de aproximadamente 215 milhões de habitantes e reservas de petróleo.

A argumentação coloca a Defesa dentro de uma perspectiva mais ampla de soberania nacional. Na visão apresentada pelo presidente, investir nas Forças Armadas não significa necessariamente adotar uma política voltada para a guerra, mas assegurar que o país tenha capacidade de proteger seu território e seus interesses estratégicos.

“Não para a guerra, mas para a paz”

A frase escolhida por Lula é também uma tentativa de estabelecer uma distinção entre fortalecimento militar e preparação para conflitos.

Ao defender mais recursos para o setor, o presidente procurou apresentar a política de Defesa como instrumento de prevenção. A lógica exposta é a de que um país com território extenso, fronteiras amplas e riquezas estratégicas precisa possuir capacidade permanente de proteção, mesmo em períodos sem guerras.

Essa posição também dialoga com o discurso de soberania que vem sendo incorporado à campanha de Lula para a reeleição.

O debate, contudo, envolve uma questão concreta: o orçamento federal é limitado e a ampliação dos recursos para Defesa precisa disputar espaço com outras prioridades públicas. A própria imprensa destacou que a promessa de ampliar investimentos ocorre diante de restrições orçamentárias.

Mulheres no Exército são apresentadas como símbolo de mudança

Outro ponto de destaque na fala presidencial foi a presença das primeiras mulheres incorporadas como recrutas do Exército.

Lula classificou a participação feminina no desfile do Dia do Soldado como uma “revolução comportamental”.

“Para um país com cultura machista, para uma Forças Armadas com cultura machista, isso é mais do que uma evolução, é uma revolução comportamental.”

O presidente afirmou ainda que as primeiras recrutas demonstram que as mulheres podem ocupar diferentes funções dentro das Forças Armadas.

“Elas estão preparadas para mostrar que mulher pode estar em qualquer lugar, fazendo qualquer coisa, desde que ela queira fazer.”

Neste ano, 1.010 mulheres passaram a integrar as Forças Armadas como recrutas, em um processo inédito de incorporação feminina ao Serviço Militar Inicial.

A primeira mulher general do Exército

Lula também destacou a presença da primeira mulher promovida ao posto de general do Exército, mencionada pelo presidente como outro marco da transformação da instituição.

A cerimônia, portanto, acabou reunindo dois temas centrais da agenda presidencial: o fortalecimento da Defesa e a ampliação da participação feminina nas Forças Armadas.

A solenidade contou com a presença do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, do comandante do Exército, general Tomás Ribeiro Paiva, e de autoridades dos Três Poderes. Também participaram os ministros do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin e Gilmar Mendes, além do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), general da reserva e ex-vice-presidente no governo de Jair Bolsonaro.

O contraste político da cerimônia

A presença de Mourão ao lado de Lula acrescentou uma dimensão política à solenidade. O senador foi vice-presidente durante o governo Jair Bolsonaro e é uma das figuras mais conhecidas da direita brasileira com trajetória militar.

O encontro ocorreu em um momento de forte disputa eleitoral e de tentativa do governo Lula de estabelecer uma relação institucional mais estreita com as Forças Armadas.

A mensagem presidencial, nesse contexto, procurou evitar uma oposição entre governo e militares. Ao contrário, Lula apresentou o investimento em Defesa como uma política de Estado e enfatizou a necessidade de preparar o Brasil para a paz.

Lula falou sobre Defesa, mas não respondeu sobre Lulinha

A participação do presidente também teve um segundo episódio relevante. Depois da cerimônia, Lula foi abordado por jornalistas sobre as investigações envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e seu ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola.

O presidente não respondeu às perguntas e deixou o local enquanto os jornalistas questionavam se as investigações poderiam prejudicar sua campanha e sobre sua relação com o ex-assessor.

Assim, a breve conversa de Lula com a imprensa acabou dividida entre uma mensagem política cuidadosamente construída sobre Defesa, soberania e participação feminina e a ausência de respostas sobre um assunto que ganhou espaço no noticiário eleitoral.

Uma mensagem com dois objetivos

A fala de Lula no Dia do Soldado pode ser interpretada, portanto, a partir de duas frentes.

De um lado, o presidente tenta consolidar a ideia de que Defesa Nacional deve deixar de ser tratada como uma despesa residual, afirmando que o setor precisa ser planejado e financiado de maneira permanente.

De outro, ao chamar a entrada das mulheres de “revolução comportamental”, Lula procura associar sua presença nas Forças Armadas a uma transformação institucional e social.

O resultado foi uma declaração que combinou soberania, orçamento militar, paz, riquezas estratégicas e igualdade de gênero, em uma cerimônia tradicionalmente marcada pela aproximação entre o presidente da República e as Forças Armadas.

A mensagem central, porém, foi direta: para Lula, o Brasil precisa estar preparado antes que uma crise apareça — e investir em Defesa, em sua visão, não deve ser uma decisão tomada apenas quando houver dinheiro sobrando.

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