
Lula cobra Alcolumbre e diz ter certeza de que fim da escala 6×1 será votado: “Não adianta jogar contra”
Presidente afirma que PEC que reduz a jornada de trabalho deve avançar no Senado e pressiona Davi Alcolumbre às vésperas das eleições; proposta prevê o fim do modelo de seis dias trabalhados por um de descanso
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a colocar o fim da escala de trabalho 6×1 no centro de sua agenda política e afirmou ter certeza de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), levará a proposta à votação no plenário. A declaração ocorre em meio à reaproximação entre Lula e Alcolumbre e à tentativa do governo de acelerar a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) antes das eleições de outubro.
Em mensagem de campanha divulgada nesta terça-feira (25), Lula mencionou o avanço da proposta na Câmara dos Deputados e atribuiu parte desse processo à atuação do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). Na sequência, demonstrou confiança de que Alcolumbre dará continuidade ao processo no Senado.
“Eu tenho certeza que o Alcolumbre vai colocar para votar”, afirmou Lula, ao defender o avanço da proposta.
O presidente também fez um apelo político aos parlamentares que resistem à mudança. Segundo Lula, “não adianta jogar contra” uma medida que, em sua avaliação, atende aos interesses dos trabalhadores.
Reaproximação entre Lula e Alcolumbre destravou a proposta
A PEC que trata do fim da escala 6×1 estava parada no Senado desde maio, depois de ter sido aprovada pela Câmara dos Deputados. O impasse ganhou dimensão política diante do desgaste entre Lula e Alcolumbre.
A relação entre os dois havia se deteriorado após o Senado rejeitar a indicação de Jorge Messias, então advogado-geral da União, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. O episódio foi considerado uma derrota importante para o governo.
Nas últimas semanas, entretanto, Lula e Alcolumbre retomaram o diálogo. Depois de encontros entre os dois, o presidente do Senado encaminhou a PEC para as comissões e, posteriormente, assinou despacho para que o texto avançasse rumo à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
O movimento foi interpretado como um gesto de reaproximação institucional e política. A tramitação da proposta passou, assim, a integrar novamente a agenda prioritária do Congresso.
O que prevê o fim da escala 6×1
A chamada escala 6×1 é o modelo em que o trabalhador exerce suas atividades durante seis dias consecutivos e tem apenas um dia de descanso.
A proposta em discussão prevê redução da jornada semanal, passando do limite atual de 44 para 40 horas, além de dois dias de descanso. O texto também preserva a remuneração dos trabalhadores.
A matéria já recebeu ampla aprovação na Câmara e agora precisa superar as etapas regimentais no Senado. O relator da proposta na Casa é o senador Omar Aziz (PSD-AM), que decidiu preservar o texto aprovado pelos deputados, estratégia que pode evitar que a matéria precise retornar à Câmara.
Pressão política antes das eleições
O calendário eleitoral tornou a discussão ainda mais sensível. O Congresso terá uma janela reduzida para votar matérias antes do primeiro turno das eleições, marcado para outubro.
Lula transformou o fim da escala 6×1 em uma das bandeiras de sua campanha à reeleição. O presidente procura apresentar a mudança não apenas como uma questão trabalhista, mas também como uma política de qualidade de vida.
Em outra manifestação recente, Lula associou a redução da jornada à possibilidade de o trabalhador ter mais tempo para a família e para o lazer. Em publicação nas redes sociais, afirmou que seu governo está mobilizado para aprovar o fim da escala “sem redução do salário”.
A estratégia também procura transformar o tema em uma questão eleitoral: quem apoia a proposta passa a ser apresentado pelo governo como defensor dos trabalhadores, enquanto seus opositores são pressionados a justificar publicamente sua posição.
“Não adianta jogar contra”
A frase de Lula — “não adianta jogar contra” — resume a ofensiva política do presidente para tentar impedir que a proposta seja novamente retardada no Congresso.
O governo considera que o fim da escala 6×1 possui forte apelo popular. Pesquisa Datafolha citada em levantamento recente aponta aprovação de aproximadamente 71% à mudança.
A oposição, por outro lado, discute alternativas. O senador Rogério Marinho (PL-RN) defende uma proposta baseada em maior negociação entre empregados e empregadores, em vez de uma alteração constitucional que estabeleça uma nova regra geral.
O debate, portanto, ultrapassa a simples discussão sobre jornada de trabalho. De um lado, Lula apresenta a PEC como uma conquista social e uma forma de ampliar o tempo livre dos trabalhadores. De outro, setores empresariais e parlamentares oposicionistas questionam os efeitos econômicos e trabalhistas de uma mudança nacional obrigatória. Entidades como Fiesp e Fecomercio-SP já defenderam maior discussão sobre os impactos específicos em diferentes setores.
Alcolumbre ainda precisa conduzir votação
Apesar da confiança manifestada por Lula, a votação ainda depende da tramitação regimental no Senado. O presidente da Casa já encaminhou a proposta, mas o calendário e a construção de maioria continuam sendo fatores decisivos.
O relator Omar Aziz prevê condições favoráveis para aprovação. A estratégia de manter o texto da Câmara pode facilitar o processo porque, se os senadores aprovarem a proposta sem alterações, ela não precisará retornar aos deputados.
A previsão é que a CCJ analise o texto no início de setembro, durante o chamado esforço concentrado do Congresso. Depois, a matéria poderá seguir para o plenário, onde precisará cumprir as exigências constitucionais para aprovação de uma PEC.
Uma pauta trabalhista transformada em bandeira eleitoral
A disputa em torno da escala 6×1 ganhou, assim, uma dimensão que vai além das relações entre trabalhadores e empresas. Para Lula, o tema representa uma oportunidade de associar sua candidatura a uma agenda de direitos sociais e qualidade de vida.
Para Alcolumbre, a condução da matéria também ocorre em meio à reorganização das alianças políticas para o período pós-eleitoral. A reaproximação com Lula destravou não apenas a PEC da 6×1, mas também outras prioridades do governo, como a PEC da Segurança Pública e o projeto sobre minerais críticos.
O cenário coloca o presidente do Senado no centro de uma das principais disputas legislativas do período eleitoral. Lula, por sua vez, elevou o tom da cobrança e deixou clara sua expectativa de que Alcolumbre leve o tema ao plenário.
A mensagem política do presidente é direta: para Lula, a hora de votar a mudança na jornada chegou — e, como ele próprio resumiu, “não adianta jogar contra”.