Lula usa disputa por ilha, segurança pública e Banco Master para atacar Flávio Bolsonaro; senador rebate acusações no último debate da Globo

Lula usa disputa por ilha, segurança pública e Banco Master para atacar Flávio Bolsonaro; senador rebate acusações no último debate da Globo

Presidente questionou a relação do adversário com o advogado Willer Tomaz e a disputa envolvendo o jogador Richarlison, enquanto Flávio negou participação na negociação e afirmou que a Justiça já examinou o caso. O confronto também envolveu Daniel Vorcaro, o financiamento do filme Dark Horse, uma garrafa de uísque avaliada em R$ 500 mil e propostas para a segurança pública.

O último debate presidencial da TV Globo antes do segundo turno, realizado na noite de sexta-feira (23 de outubro de 2026), foi marcado por uma sequência de acusações entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). No quarto bloco, de tema livre, os candidatos passaram pela disputa de um imóvel em Angra dos Reis, pela relação do senador com o advogado Willer Tomaz, pelo caso do Banco Master e pelas propostas de segurança pública.

O confronto ocorreu a dois dias da votação de domingo, 25 de outubro, e transformou questões judiciais, econômicas e administrativas em instrumentos de disputa eleitoral. Lula tentou associar Flávio a controvérsias envolvendo Tomaz e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O senador negou irregularidades e procurou devolver as acusações ao presidente, questionando, entre outros pontos, uma suposta garrafa de uísque de R$ 500 mil que teria sido destinada a Lula.

A discussão mais detalhada começou com a Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), imóvel que o atacante Richarlison afirma ter tentado adquirir por cerca de R$ 10 milhões. A controvérsia, porém, exige uma distinção essencial: o senador Flávio Bolsonaro não afirma ser dono da ilha. O caso envolve direitos de ocupação e uma mansão em área sujeita a regras patrimoniais da União, além de uma disputa judicial entre empresas ligadas aos envolvidos.

Lula questiona Flávio sobre a ilha e acusa advogado de obter regularização mais rapidamente

Lula levou ao debate a denúncia pública de Richarlison, atacante da Seleção Brasileira e do Tottenham, que afirma ter investido aproximadamente R$ 10 milhões na aquisição de direitos sobre uma mansão na Ilha Comprida.

O presidente questionou como a empresa ligada ao advogado e empresário Willer Tomaz teria conseguido regularizar sua situação em prazo muito menor que aquele enfrentado pelo grupo do jogador. Lula afirmou que Tomaz, a quem descreveu como sócio de Flávio, teria conseguido o registro da área em uma semana, enquanto Richarlison aguardava havia meses.

“Como é que vocês tomaram a ilha do Richarlison?”, perguntou Lula.

O presidente também questionou se Flávio teria indicado um dirigente da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), órgão responsável pela administração de bens imobiliários da União. O petista procurou sugerir que a relação entre o senador e o advogado poderia ajudar a explicar a diferença de tratamento nos procedimentos administrativos.

Essas afirmações foram apresentadas por Lula durante o confronto e precisam ser distinguidas de conclusões judiciais. A existência de amizade entre Flávio e Tomaz não comprova, por si só, que o senador tenha interferido no processo administrativo ou participado de alguma irregularidade.

Flávio rebate: “Essa ilha nunca foi do Richarlison”

O senador rejeitou a acusação e afirmou que a disputa já havia passado pelo Judiciário.

“Essa ilha nunca foi do Richarlison”, respondeu Flávio.

Em seguida, o candidato do PL dirigiu-se ao jogador e sustentou que ele teria sido enganado na negociação dos direitos sobre o imóvel.

“Richarlison, com todo o respeito, craque, você está tomando volta do seu empresário. Parece que você comprou a sua ilha de um invasor de terras, do MST. Infelizmente essa ação já transitou em julgado e você não tem direito. A Justiça decidiu e eu não tenho nada a ver com isso”, declarou.

A resposta foi contundente porque procurou desmontar a premissa utilizada por Lula. Na versão de Flávio e de Willer Tomaz, Richarlison teria negociado com pessoas que não possuíam os direitos legítimos que afirmavam transferir. Por isso, argumentam que o jogador não poderia considerar a área sua apenas com base nos contratos que apresentou.

O senador também negou que Tomaz seja seu sócio. Disse que os dois são amigos e contestou a tentativa do presidente de apresentar a relação pessoal como prova de vínculo empresarial.

A expressão “invasor de terras” e a referência ao MST foram utilizadas como provocações políticas. O ponto jurídico central é outro: quais direitos os vendedores anteriores efetivamente possuíam, quais documentos foram apresentados e quais decisões judiciais e administrativas definiram a situação.

O que Willer Tomaz diz sobre a aquisição

Willer Tomaz afirma que sua empresa, a WT Administração de Imóveis e Bens S/A, adquiriu legalmente os direitos relacionados ao imóvel. O advogado também sustenta que Richarlison teria comprado direitos de ocupação de pessoas que não eram proprietárias legítimas da área.

Segundo informações publicadas pelo UOL, Tomaz declarou ter desembolsado R$ 3,6 milhões na operação realizada em 2022. Desse total, R$ 600 mil constariam como pagamento pela compra na escritura pública, enquanto aproximadamente R$ 3 milhões teriam sido usados para quitar impostos atrasados do imóvel, acumulados por mais de dez anos. A prefeitura avaliava a propriedade em cerca de R$ 2,6 milhões naquele período.

O imóvel tem uma área de aproximadamente 1.435,50 metros quadrados, com uma mansão de 140 metros quadrados. Parte do terreno envolve domínio útil de ocupação em faixa de marinha, o que torna a situação patrimonial mais complexa do que uma simples compra e venda de terreno particular.

Richarlison, por sua vez, afirma que investiu cerca de R$ 10 milhões desde 2020, incluindo pagamentos a antigos ocupantes, obras e despesas de segurança. O jogador sustenta que acreditava estar adquirindo direitos legítimos e que acabou prejudicado por acontecimentos posteriores.

As duas versões são incompatíveis. Richarlison afirma que pagou e perdeu o imóvel; Tomaz diz que adquiriu legalmente os direitos e que o atleta negociou com pessoas sem legitimidade para transferi-los. Flávio nega participação na negociação.

O que aconteceu na Justiça

A disputa chegou ao Judiciário em 2022. A M Locadora de Veículos e Transportes Turísticos Ltda. ajuizou ação envolvendo a Sport 70, empresa relacionada ao jogador, e outros réus, em uma controvérsia sobre os direitos relativos à área.

Em maio de 2023, o processo principal foi extinto sem resolução do mérito, depois de divergências entre sócios da empresa autora sobre a ocupação do imóvel. Essa decisão, isoladamente, não estabeleceu quem tinha o direito definitivo à área nem comprovou fraude.

Segundo a cobertura da SpaceMoney e os relatos publicados sobre a tramitação, houve decisões posteriores favoráveis à empresa de Tomaz, inclusive no Superior Tribunal de Justiça (STJ), em 2025. Em outubro daquele ano, o autor da ação apresentou renúncia, e o arquivamento definitivo foi registrado em janeiro de 2026.

Por isso, a declaração de Flávio de que o caso foi encerrado judicialmente precisa ser entendida dentro do processo específico e de seus resultados. O encerramento de uma ação não significa necessariamente que toda suspeita sobre eventuais atos administrativos tenha sido investigada ou julgada em todas as esferas.

Lula, por sua vez, pode cobrar esclarecimentos e defender apuração de possíveis irregularidades. O que não se pode fazer é tratar uma suspeita política como prova definitiva de crime ou presumir que a promessa de um presidente seja suficiente para reverter uma decisão judicial.

Repúdio à exploração política do caso: Lula precisa apresentar provas, não apenas acusações

A utilização da disputa pela ilha no debate eleitoral merece uma cobrança rigorosa de todos os envolvidos. Se existem indícios de favorecimento administrativo, eles devem ser apurados com independência, documentos e transparência. Se houve interferência política, é necessário demonstrá-la. E, se a situação foi decidida judicialmente, qualquer tentativa de revisão deve respeitar os instrumentos legais.

O que merece repúdio é transformar uma controvérsia patrimonial complexa em uma narrativa de culpa já estabelecida, sem separar as acusações das provas e das decisões judiciais.

Lula tentou associar Flávio ao caso por meio de sua amizade com Willer Tomaz e da suposta rapidez na regularização do imóvel. Flávio negou envolvimento, contestou a afirmação de que o advogado seria seu sócio e invocou o histórico judicial da disputa.

A cobrança política é legítima; a condenação antecipada, não. A população tem o direito de saber como a área foi regularizada, quais documentos fundamentaram os procedimentos da SPU e se houve tratamento desigual. Essas respostas devem vir de registros verificáveis, e não apenas de acusações em um debate presidencial.

Segurança pública: Flávio critica a proposta do governo e cobra atuação contra o crime

Depois da discussão sobre a ilha, o debate avançou para a segurança pública. Flávio Bolsonaro criticou a PEC da Segurança Pública defendida pelo governo Lula e questionou a relação do presidente com as forças policiais.

O senador defendeu medidas mais duras contra organizações criminosas, incluindo a classificação de grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e milícias como organizações narcoterroristas. Também propôs pena mínima de oito anos para roubo de celular e redução da maioridade penal para 14 anos em casos de estupro, além de defender castração química para condenados por crimes sexuais.

Lula afirmou que, se a PEC da Segurança for aprovada, pretende criar um Ministério da Segurança Pública e fortalecer a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal. O presidente também voltou a associar o adversário às milícias, repetindo a acusação durante as considerações finais.

As propostas representam visões diferentes sobre o combate à criminalidade: Flávio enfatizou o endurecimento penal e a ampliação dos instrumentos de repressão; Lula defendeu maior coordenação federal e fortalecimento das forças policiais. A efetividade de cada medida dependerá de sua viabilidade jurídica, de recursos, de implementação e de resultados concretos.

Banco Master: Lula acusa Flávio de proximidade com Daniel Vorcaro

O confronto também envolveu Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, cuja prisão preventiva e as investigações sobre o banco foram usadas pelos candidatos para atacar um ao outro.

Lula acusou Flávio de ter proximidade com Vorcaro e afirmou:

“Quem é filhote do Vorcaro é você, quem aceita dinheiro do Vorcaro é você, quem pegou R$ 134 milhões do Vorcaro e até agora não apareceu é você, não me coloca nessa vala comum, não.”

O presidente também declarou que teria prendido o banqueiro e procurou apresentar o senador como alguém ligado ao empresário investigado.

A discussão tem como pano de fundo o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro e analisadas pela Polícia Federal indicam negociações para um financiamento de R$ 134 milhões relacionado ao projeto. Reportagens informaram que ao menos R$ 61 milhões teriam sido repassados entre fevereiro e maio de 2025. A investigação ainda apura a destinação dos recursos e a diferença entre valores enviados ao exterior e os que teriam chegado a produtoras no Brasil. <Cite refs={[“turn339027news12″,”turn339027news13”]}/>

Flávio afirmou que os recursos foram destinados a uma produção privada e negou contrapartidas relacionadas ao seu mandato parlamentar. Disse ainda que um relatório da Polícia Federal, na interpretação apresentada por ele, não indicaria uso de dinheiro público no filme.

A existência de repasses e contatos não comprova, por si só, corrupção ou lavagem de dinheiro. Ao mesmo tempo, o fato de a produção ser privada não elimina a necessidade de esclarecer a origem, o destino e a documentação dos valores. O caso permanece sujeito à investigação.

Flávio questiona Lula sobre uísque de R$ 500 mil

Em resposta às acusações envolvendo Vorcaro, Flávio perguntou a Lula sobre uma garrafa de uísque Macallan, avaliada em aproximadamente R$ 500 mil, que teria sido destinada ao presidente pelo ex-banqueiro.

“Qual é o gostinho desse uísque, hein, Lula? Conta para eles aqui”, provocou o senador.

A suposta oferta da bebida foi mencionada em reportagens baseadas em mensagens atribuídas a Vorcaro. Lula não confirmou ter recebido a garrafa e respondeu que Flávio estaria mentindo. O presidente também fez referência a um encontro em uma lancha, em 2020, que teria reunido o senador e empresários interessados em negociar vacinas contra a Covid-19 com o governo Bolsonaro. Flávio negou as acusações feitas por Lula.

O episódio demonstrou a estratégia dos dois candidatos de responder a uma acusação lançando outra. Isso pode produzir impacto eleitoral, mas não substitui a comprovação documental. A suposta entrega do uísque e os repasses relacionados ao filme precisam ser avaliados separadamente, de acordo com os registros e as apurações correspondentes.

Covaxin, balas sem identificação e novas acusações

Lula também questionou a atuação de Flávio em 2020, durante a pandemia, ao mencionar um encontro com representantes ligados à vacina indiana Covaxin. O presidente insinuou que a reunião merecia explicações; Flávio negou irregularidades e contestou a acusação.

O petista ainda questionou uma votação de Flávio, quando deputado estadual, relacionada à identificação de balas utilizadas por forças de segurança. O senador respondeu que a proposta mencionada não foi aprovada e voltou a atacar Lula com a pergunta sobre o uísque.

A sequência deixou o debate marcado por interrupções, mudanças de assunto e ataques pessoais. Em vez de se concentrarem exclusivamente em propostas e resultados de governo, os candidatos utilizaram controvérsias envolvendo empresários, processos e relações pessoais para colocar em dúvida a credibilidade do adversário.

O que ficou do último debate antes do segundo turno

O confronto da Globo reuniu três eixos principais: a disputa pela Ilha Comprida, a segurança pública e o caso Banco Master. Em cada um deles, Lula procurou associar Flávio a relações e episódios controversos; o senador negou irregularidades e tentou apresentar o presidente como alguém que evita responder às próprias contradições.

Nas considerações finais, Lula defendeu a democracia e voltou a chamar Flávio de “miliciano”. O senador prometeu recuperar o poder de compra dos brasileiros, defender a liberdade e a soberania nacional e pediu ao eleitor que avaliasse se sua vida havia melhorado ou piorado nos últimos quatro anos.

O debate foi marcado por acusações graves dos dois lados, mas a avaliação pública precisa distinguir o que está documentado, o que foi alegado por cada candidato e o que ainda depende de apuração. Na disputa pela ilha, a amizade entre Flávio e Willer Tomaz é reconhecida pelos dois, mas a existência de uma sociedade empresarial é contestada pelo senador. Richarlison afirma ter investido R$ 10 milhões; Tomaz diz ter adquirido legalmente os direitos por meio de sua empresa e sustenta que os vendedores anteriores não eram os proprietários legítimos.

No caso Master, existem registros e investigações sobre repasses relacionados ao filme Dark Horse, mas isso não equivale automaticamente à comprovação de crime. E, no debate sobre segurança, as propostas precisam ser julgadas pela legalidade e pela capacidade de reduzir a criminalidade.

O destaque político da noite foi a tentativa de transformar disputas judiciais e investigações em armas eleitorais. Lula precisa responder por suas acusações com fatos verificáveis, assim como Flávio deve esclarecer os pontos que estão sob investigação. O eleitor merece transparência, respeito ao devido processo legal e respostas concretas — não apenas provocações, rótulos e promessas feitas diante das câmeras.

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