
Lula usa o Planalto para atacar cantor e posar de defensor moral
Ao chamar crítica de “cretinice”, presidente mistura solidariedade seletiva, discurso conveniente e velho hábito de transformar polêmica em palanque
Em mais um episódio que expõe o estilo personalista e agressivo de governar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu usar uma entrevista oficial no Palácio do Planalto para atacar publicamente o cantor Zezé Di Camargo. O motivo foi a crítica feita pelo sertanejo à presença de Lula e de ministros do STF na inauguração do canal SBT News — um evento privado, mas politicamente carregado.
Sem qualquer esforço de moderação, Lula classificou a fala do artista como “cretinice” e ainda pediu que jornalistas do SBT transmitissem sua “solidariedade” às filhas de Silvio Santos, atuais gestoras da emissora. O gesto, longe de soar nobre, pareceu mais uma encenação calculada: Lula escolheu o alvo, escolheu o tom e escolheu o momento — tudo diante das câmeras.
O presidente afirmou que Zezé “não teria coragem” de fazer críticas semelhantes a homens, tentando enquadrar o episódio como um ataque de gênero. A retórica é conhecida: Lula se coloca como guardião moral, enquanto desqualifica qualquer discordância como ignorância, covardia ou desvio de caráter. Não há diálogo, apenas carimbo ideológico.
A polêmica começou depois que o cantor criticou duramente a direção do SBT por, segundo ele, trair os valores defendidos por Silvio Santos ao se aproximar do atual governo. Em vídeo nas redes sociais, Zezé atacou a condução da emissora e usou termos duros — o que gerou reação interna e levou ao cancelamento de seu especial de Natal, além de seu afastamento informal da casa.
O que chama atenção, porém, é o silêncio seletivo de Lula diante de críticas muito mais graves feitas diariamente ao governo — inclusive vindas de aliados. Quando convém, o presidente ignora. Quando interessa politicamente, reage com agressividade, como se o cargo lhe desse licença para humilhar e rotular.
No fim, o episódio revela mais sobre Lula do que sobre Zezé Di Camargo. Um presidente que se diz democrata, mas reage à crítica com ataque pessoal. Que fala em respeito, mas trata divergência como afronta. E que insiste em transformar qualquer microfone em palanque, mesmo quando o país espera liderança, não espetáculo.