Mais um peso no bolso dos pobres: aumento do IOF escancara impacto desigual

Mais um peso no bolso dos pobres: aumento do IOF escancara impacto desigual

Especialistas alertam que o novo imposto não atinge só os ricos — encarece crédito, afeta o consumo e penaliza a baixa renda de forma silenciosa

O recente aumento do IOF, que já causou atrito entre o governo e o Congresso, está longe de ser uma medida que pesa apenas sobre os mais ricos. Economistas e tributaristas ouvidos pelo Valor afirmam que essa narrativa é simplista e ignora os efeitos indiretos sobre quem vive com menos — justamente os que têm mais dificuldade para lidar com o encarecimento do crédito e o aumento dos preços.

José Andrés Lopes da Costa, sócio do DCLC Advogados, ressalta que o IOF não se limita à cobrança sobre envio de dinheiro ao exterior — algo restrito à elite econômica. “Num país com juros ainda altos, dificultar o acesso ao crédito é frear a economia e atingir diretamente o consumidor comum”, afirma.

Embora quem viva abaixo da linha do crédito — sem acesso a cartão ou transações internacionais — não sinta o impacto imediato, os efeitos aparecem de forma disfarçada: no preço de bens e serviços do dia a dia. “A cobrança sobre os mais pobres é invisível, mas constante”, observa Lopes da Costa.

O tributarista Júlio César Soares, do escritório Dias de Souza, reforça que o imposto atinge diversas operações comuns a pequenos negócios e cidadãos de baixa renda, principalmente em tempos de aperto financeiro.

Já para os mais ricos, o impacto está concentrado no IOF-Câmbio — que incide sobre viagens internacionais, envio de remessas e investimentos fora do país. Mas, se o objetivo é tributar de fato quem tem mais, o caminho seria outro: “Taxar patrimônio, herança e renda faz mais sentido”, defende Luiz Roberto Peroba, do Pinheiro Neto Advogados.

Ele lembra ainda que o discurso de que o imposto afetaria apenas os ricos não veio do governo, mas surgiu como resposta à rejeição da medida no Congresso. “Quem compra parcelado porque não tem o valor à vista também será penalizado, mesmo sem perceber. O custo sobe e é repassado no produto final.”

A economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, chama atenção para o peso que o crédito ganhou na vida das famílias. “Hoje, todas as classes sociais dependem de algum tipo de financiamento — seja o carro da classe média ou o rotativo do cartão para quem ganha menos. Além disso, empresas também serão afetadas na hora de captar recursos”, diz.

Ela reconhece que a tentativa de igualar alíquotas em operações de câmbio pode fazer sentido — já que atinge principalmente as famílias de alta renda —, mas alerta: “Não é um bom sinal. Essa medida vai na contramão dos compromissos do Brasil com a OCDE, que previa a eliminação do IOF nesse tipo de operação”.

O aumento do IOF, agora suspenso por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que convocou uma audiência de conciliação entre governo e Congresso, poderia render até R$ 40 bilhões ao Tesouro em 2026 — mas, segundo os especialistas, o custo social pode ser muito maior e mais difícil de medir.

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