
“Mesada do poder”: PF aponta pagamentos a aliado próximo de Lula em esquema de influência
Investigação mostra R$ 210 mil transferidos por empresário que buscava contratos públicos; relação com amigo da família presidencial reacende debate sobre tráfico de influência
A Polícia Federal voltou a colocar os holofotes sobre um velho conhecido da família Lula: Kalil Bittar, ex-sócio de Lulinha e figura que, ao longo dos anos, circulou com desenvoltura ao redor do núcleo íntimo do presidente. Desta vez, ele aparece como peça central de um suposto esquema de tráfico de influência ligado à área da Educação.
Segundo a PF, o empresário André Gonçalves Mariano, dono da empresa Life Educacional, teria recorrido a Kalil para abrir portas em governos estaduais e no próprio governo federal. Em troca da suposta intermediação, Mariano teria pago uma espécie de “mesada” de R$ 210 mil, distribuída ao longo de pouco mais de um ano, entre novembro de 2022 e fevereiro de 2024.
A apuração faz parte da Operação Coffee Break, que também mira Carla Ariane, ex-nora de Lula, alvo de buscas recentes. Na casa dela, os agentes recolheram celulares, computadores e um caderno de anotações que, segundo a PF, ajudaria a amarrar o quebra-cabeça.
Um velho personagem que ressurge com força
Kalil não é figura inédita em investigações. Ele apareceu nas apurações do sítio de Atibaia, em 2016, quando foi flagrado pedindo a Lulinha autorização para fazer um churrasco na propriedade. A amizade entre as famílias sempre foi usada pela defesa de Lula como prova de que o ex-presidente frequentava o sítio apenas por laços pessoais — argumento que, anos depois, volta a ecoar, mas agora sob novo contexto.
Com a volta de Lula ao Planalto, dizem investigadores, Kalil recuperou o trânsito em Brasília. E foi justamente nesse ambiente que, segundo a PF, sua relação com André Mariano se estreitou.
A rota do dinheiro e o interesse em “estados do PT”
Documentos apreendidos mostram Mariano planejando negócios voltados especialmente para regiões comandadas pelo PT. Em anotações encontradas pela PF, ele lista livros escolares, materiais pedagógicos, propostas para o MEC e até “games educacionais” como parte do portfólio que pretendia apresentar “com discrição e sem problemas que respinguem no governo”.
Num diálogo revelado pela investigação, um secretário municipal de Educação chegou a aconselhar o empresário: investir no “programa do amigo [Kalil]” seria vantajoso em caso de vitória de Lula. “Esse espaço é dele. Ninguém tira”, escreveu.
Pagamentos iniciam logo após a eleição
Os repasses de Mariano para Kalil começam um mês após o resultado das urnas. Para os investigadores, esse timing reforça a suspeita de que Mariano vislumbrava um canal privilegiado para chegar ao governo federal. As transferências foram feitas diretamente entre contas pessoais.
A defesa de Kalil, no entanto, afirma que ele está “à disposição para colaborar” e que tem plena certeza da inocência do empresário.
Mas o fato é que, para quem acompanha a cena política de perto, o padrão que se desenha é conhecido: personagens periféricos, mas conectados ao entorno do poder, orbitando contratos bilionários, agendas de influência e encontros discretos.
A PF continua destrinchando as mensagens, extratos bancários e anotações. E, enquanto isso, a história vai se assentando como mais um capítulo incômodo em um ambiente político que insiste em repetir velhas práticas — só muda o cartão de visitas.