
Ministro de Lula se diz ofendido com bandeira — mas só quando é o aliado de Bolsonaro que carrega
Márcio França acusa Tarcísio de ‘humilhar’ comunidade árabe por usar bandeira de Israel, mas ignora que seu próprio governo envia armas para o mesmo conflito
Em mais um episódio da série “indignações seletivas do governo Lula”, o ministro Márcio França resolveu se revoltar — não com a guerra no Oriente Médio, nem com a política externa brasileira, mas com a bandeira que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, colocou nos ombros durante a Marcha para Jesus.
O ministro, que anda de olho nas eleições paulistas de 2026, disse que Tarcísio “humilhou” a comunidade árabe, síria e libanesa do Brasil ao se enrolar na bandeira de Israel, diante de milhões de evangélicos em um dos maiores eventos religiosos do país. “Mais de 10 milhões de pessoas têm origem árabe em São Paulo. Foi um gesto de humilhação”, afirmou o socialista, que parece ter descoberto o mapa demográfico do Estado só agora.
Mas o tom professoral do ministro escorrega na hipocrisia: enquanto condena o uso simbólico de uma bandeira, seu governo continua mantendo relações comerciais com países envolvidos até o pescoço no mesmo conflito, inclusive com venda de armas e posicionamentos dúbios.
França ainda tentou dar lição de geopolítica: “São Paulo não tem que se meter em guerra”, disse ele, ignorando que Tarcísio não declarou conflito algum — só compareceu a um evento religioso e fez acenos políticos ao seu público, como todo político em ano pré-eleitoral.
Durante a 33ª Marcha para Jesus, Tarcísio cantou, orou e discursou com direito a citações bíblicas. E aproveitou para sancionar uma lei transformando a banda gospel Renascer Praise em patrimônio imaterial do Estado — o que certamente ofende os ouvidos da esquerda mais do que qualquer bandeira.
A ironia maior é que, enquanto Tarcísio é acusado de “humilhar povos” por segurar um pedaço de pano azul e branco, o ministro de Lula ignora que sua própria diplomacia faz malabarismos para agradar os dois lados da guerra — desde que não envolva um aliado do ex-presidente Bolsonaro.
No fim das contas, parece que o problema não é a guerra, nem a paz. O problema, para o governo Lula, é a cor da bandeira — e o partido de quem a segura.