
Moraes critica “descompasso” entre inquérito e operação no Rio que deixou 121 mortos
Ministro do STF apontou que apenas cinco pessoas entre as vítimas eram, de fato, alvos da investigação original e defendeu apuração rigorosa sobre a ação policial.
Durante uma audiência no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Alexandre de Moraes expressou preocupação com o que chamou de “descompasso” entre o inquérito policial e a operação no Rio de Janeiro que resultou em 121 mortes na última semana. O encontro, realizado nesta quarta-feira (5), ocorreu no âmbito da ADPF das Favelas, ação que estabelece diretrizes para reduzir a letalidade policial no país.
De acordo com relatos de participantes da audiência, Moraes destacou que, entre mortos, feridos e presos, apenas cinco pessoas eram alvos dos mandados de busca e apreensão originais.
“Das mais de 200 vítimas da operação, apenas cinco estavam no inquérito inicial. Esse descompasso chamou bastante atenção do ministro, que afirmou que o caso precisa ser apurado”, relatou a deputada Dani Monteiro (PSOL-RJ), presente à reunião representando a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
🚨 Pedidos de investigação independente
As entidades de direitos humanos que participaram da audiência defenderam a necessidade de controle externo da atividade policial, ou seja, por órgãos que não participaram da operação. Elas pediram ainda a federalização das investigações, para garantir imparcialidade.
Segundo relatos, Moraes afirmou que vai discutir com a Procuradoria-Geral da República (PGR) a decisão que retirou o Ministério Público Federal (MPF) do caso — medida determinada pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que transferiu a responsabilidade de fiscalização ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ).
A advogada e professora da UFRJ Luciana Boiteux manifestou preocupação com essa decisão, afirmando que o MPRJ participou do planejamento da operação, o que, segundo ela, compromete a isenção necessária para apurar possíveis abusos.
“Se o Ministério Público participou do planejamento, ele não pode fiscalizar a si mesmo”, afirmou.
🌿 Moraes questiona governador sobre segurança
De acordo com os participantes, Moraes contou ainda que chegou a pedir ao governador Cláudio Castro (PL) autorização para visitar a área de mata onde ocorreu a operação. Castro, no entanto, respondeu que não poderia garantir a segurança do ministro no local.
A reunião ocorreu dois dias após Moraes se encontrar com o governador e outras autoridades estaduais. O episódio reacende o debate sobre o uso excessivo da força policial e a falta de controle nas ações de segurança pública — um problema que, como disse uma das entidades presentes, “transforma favelas em campos de guerra”.