
Motoboys fazem motociata em apoio a Lula em São Paulo, criticam Flávio Bolsonaro e cobram direitos, melhores tarifas e segurança no trabalho
Mobilização realizada em 21 de outubro percorreu o trajeto entre a Praça Charles Miller, no Pacaembu, e a Praça Roosevelt, passando pela Avenida Paulista. Organizado por movimentos ligados à pauta trabalhista, o ato defendeu a reeleição de Lula, criticou a proposta de trabalho por hora atribuída a Flávio Bolsonaro e cobrou tarifa mínima de R$ 10 por entrega, adicional de R$ 2,50 por quilômetro e maior proteção aos profissionais dos aplicativos.
Motoboys levam apoio a Lula às ruas da capital paulista
Entregadores de aplicativos e motoboys realizaram, na manhã de quarta-feira, 21 de outubro de 2026, uma motociata em São Paulo em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A manifestação começou na Praça Charles Miller, em frente ao Estádio do Pacaembu, na zona oeste da capital, e seguiu em direção à Praça Roosevelt, na região central, passando por vias como a Avenida Paulista e a Rua Augusta.
O ato reuniu trabalhadores que utilizam motocicletas e outros meios de transporte para realizar entregas, além de representantes de movimentos sociais e parlamentares ligados à esquerda. Entre as organizações envolvidas estavam o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), a Frente Povo Sem Medo, o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), o Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos (TSD) e entidades de entregadores de diferentes regiões do país.
A mobilização combinou apoio eleitoral a Lula, defesa da democracia e reivindicações por melhores condições de trabalho. Nas mochilas de entrega, conhecidas como bags, os participantes exibiram adesivos de apoio ao presidente e mensagens contrárias ao senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula no segundo turno, além de críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Os manifestantes também levaram cartazes com a frase “Abre o sigilo, Flávio”, em referência à disputa política envolvendo a divulgação de informações bancárias e fiscais dos candidatos.
A escolha do nome “motociata” teve significado político. Nos últimos anos, a palavra ficou fortemente associada às manifestações organizadas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Os organizadores do ato pró-Lula afirmaram que pretendiam disputar esse símbolo e mostrar que as motocicletas também representam trabalhadores que dependem diariamente do veículo para garantir a própria renda.
JR Freitas critica modelo de negociação com empresas de aplicativos
Uma das principais lideranças da manifestação foi JR Freitas, conhecido como “motoboy do Lula”, ligado ao Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos e primeiro suplente de deputado estadual pelo PSOL nas eleições de 2026. Ele recebeu 22.589 votos, conforme os dados mencionados na cobertura da manifestação.
Freitas criticou a proposta de negociação direta entre trabalhadores e empresas de aplicativos defendida por Flávio Bolsonaro. Segundo ele, muitos entregadores sequer conseguem estabelecer contato com as plataformas para questionar bloqueios, reduções nas taxas e mudanças nas regras de distribuição das corridas.
Na avaliação da liderança, a liberdade de negociação individual não resolve o desequilíbrio entre os trabalhadores e as grandes empresas de tecnologia. Os entregadores argumentam que, sem canais efetivos de diálogo, ficam sujeitos às decisões das plataformas, mesmo quando dependem delas para sobreviver.
Freitas também reconheceu que parte da categoria se afastou de partidos de esquerda nos últimos anos por não se identificar com o modelo tradicional de contratação pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ele afirmou, porém, que rejeitar o enquadramento tradicional não significa abrir mão de direitos e garantias mínimas.
A posição apresentada pelos organizadores é que os profissionais devem poder manter flexibilidade de horários e autonomia para trabalhar, mas também precisam de remuneração previsível, transparência nas regras dos aplicativos e mecanismos de proteção contra bloqueios considerados injustos.
As principais reivindicações: R$ 10 por entrega e R$ 2,50 por quilômetro
Entre as reivindicações apresentadas na motociata estão a criação de uma tarifa mínima por corrida, remuneração adicional por distância percorrida, transparência nos algoritmos utilizados pelas plataformas, acesso a direitos previdenciários e melhores condições de segurança.
JR Freitas defendeu uma remuneração mínima de R$ 10 por entrega, para rotas de até quatro quilômetros, e um adicional de R$ 2,50 por quilômetro rodado além desse limite. A proposta busca estabelecer um piso para o pagamento dos trabalhadores, evitando que o valor recebido por uma corrida fique excessivamente baixo diante dos custos e dos riscos envolvidos.
É importante distinguir a reivindicação dos trabalhadores de uma regra já em vigor: os valores apresentados no ato são uma proposta defendida pelo movimento, e não uma tarifa mínima nacional que esteja automaticamente garantida a todos os entregadores.
Os participantes também cobraram transparência nos algoritmos das empresas. A preocupação é que mudanças no sistema de distribuição de pedidos, nos critérios de remuneração ou nas avaliações possam afetar a renda dos trabalhadores sem explicações claras ou possibilidade efetiva de contestação.
Outro ponto destacado foi a segurança. Motoboys e ciclistas enfrentam trânsito intenso, risco de acidentes, exposição à violência urbana e jornadas prolongadas. Para os manifestantes, melhorar a remuneração é importante, mas não resolve sozinho o problema de quem passa grande parte do dia nas ruas e precisa arcar com combustível, manutenção do veículo, equipamentos e outros custos da atividade.
O governo Lula também é cobrado pelos entregadores
Embora a manifestação tenha sido organizada em apoio à candidatura de Lula, os discursos não representaram um apoio sem ressalvas ao governo. JR Freitas afirmou que a categoria ainda não teve todas as suas demandas atendidas e cobrou que o presidente, caso reeleito, avance na regulamentação do trabalho por aplicativos.
O governo federal já apresentou ao Congresso Nacional uma proposta de regulamentação do setor, mas a iniciativa enfrentou resistência política e não havia avançado o suficiente para atender às reivindicações expostas no ato.
A liderança dos entregadores afirmou que pretende continuar pressionando o governo depois das eleições. Na avaliação dos organizadores, o apoio eleitoral não elimina a necessidade de cobrança: o compromisso é que as demandas sejam transformadas em medidas concretas, com regras para remuneração, transparência e proteção social.
Essa posição revela uma contradição importante na disputa política: os trabalhadores manifestaram preferência por Lula, mas também reconheceram que o governo ainda precisa apresentar resultados para uma categoria que continua enfrentando dificuldades de renda e segurança.
Portanto, a motociata não deve ser interpretada apenas como uma demonstração de apoio partidário. Ela também foi um recado ao governo e às empresas de aplicativos de que os entregadores esperam mudanças concretas, independentemente de quem vencer a eleição.
Críticas a Flávio Bolsonaro após encontro com motoboys
A manifestação ocorreu poucos dias depois de Flávio Bolsonaro participar de um encontro com representantes de motoboys em São Paulo. Na noite de 13 de outubro, o senador esteve no chamado Espaço Motoboy, equipamento mantido pela prefeitura paulistana, acompanhado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Na ocasião, Flávio conversou com trabalhadores e participou de uma ação que incluiu a distribuição de pizzas, esfihas e refrigerantes. O encontro foi apresentado como uma aproximação com a categoria, mas provocou críticas de lideranças ligadas aos movimentos de esquerda, que questionaram a utilização de um espaço público em uma atividade de caráter eleitoral.
JR Freitas afirmou que a categoria não precisava de comida oferecida em um evento político, mas de condições para trabalhar, obter uma remuneração adequada e voltar para casa em segurança. Ele também apresentou uma representação ao Ministério Público Eleitoral questionando a distribuição de alimentos e o uso do equipamento público no contexto da campanha.
A existência da representação não significa, por si só, que tenha sido comprovada uma irregularidade eleitoral. A questão depende da análise das circunstâncias, das regras aplicáveis e de eventual decisão das autoridades competentes.
O episódio, entretanto, tornou-se parte da disputa entre as campanhas. De um lado, Flávio procurou se aproximar dos profissionais e apresentar suas propostas para a categoria. De outro, lideranças favoráveis a Lula argumentaram que iniciativas pontuais não substituem uma política permanente de remuneração e proteção.
A proposta de trabalho por hora e a discussão sobre a escala 6×1
Outro ponto de conflito foi a proposta de Flávio Bolsonaro relacionada ao trabalho por hora, criticada pelos participantes da motociata. Os organizadores afirmaram que preferem um modelo capaz de preservar a flexibilidade de horários sem deixar os trabalhadores sujeitos à redução unilateral de pagamentos e às decisões das plataformas.
A discussão ocorre em meio ao debate nacional sobre a jornada de trabalho, a escala 6×1 e a regulamentação de atividades mediadas por aplicativos. São questões relacionadas, mas não idênticas: uma mudança na jornada de empregados formais não resolve automaticamente os problemas específicos de entregadores que trabalham por demanda e não possuem necessariamente vínculo empregatício tradicional.
Os manifestantes argumentaram que a categoria precisa de regras próprias, capazes de considerar as particularidades da atividade. Isso inclui o tempo de espera entre pedidos, as distâncias percorridas, os custos do veículo, os riscos no trânsito e a necessidade de preservar a autonomia do trabalhador.
A posição dos organizadores é que a flexibilidade não deve servir de justificativa para que os profissionais assumam praticamente todos os custos e riscos da operação, enquanto as empresas mantêm o controle sobre a distribuição dos pedidos e os valores pagos.
Quem participou e quais grupos organizaram o ato
A manifestação contou com a participação de entidades ligadas à pauta dos entregadores e de organizações populares. Entre os nomes e grupos mencionados na cobertura estão:
JR Freitas, liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos e um dos organizadores da mobilização; Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que defende melhorias nas condições de trabalho e na jornada; Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST); Frente Povo Sem Medo; e associações de entregadores de diferentes estados.
Também participaram representantes políticos ligados ao PSOL e ao PT, entre eles a deputada estadual reeleita Ediane Maria (PSOL) e o deputado estadual eleito Leonardo Grandini (PT), conforme as reportagens sobre o evento.
A presença dessas lideranças reforçou o caráter político da manifestação, mas a pauta apresentada foi centrada nas condições de trabalho da categoria. Os organizadores buscaram demonstrar que a participação eleitoral e a reivindicação por direitos trabalhistas podem caminhar juntas.
O ato terminou na região central de São Paulo, e os trabalhadores se dispersaram para retomar suas atividades. A necessidade de voltar às entregas foi mencionada na cobertura como um retrato da rotina de profissionais que dependem da demanda diária para garantir renda.
Uma categoria dividida e uma disputa eleitoral em aberto
A motociata mostrou que não existe uma posição única entre todos os entregadores de aplicativos. Embora os participantes daquele ato tenham declarado apoio a Lula, reportagens sobre a categoria registram aproximações de outros trabalhadores com candidatos de direita, incluindo Flávio Bolsonaro e outras lideranças políticas.
As divergências envolvem a relação com a CLT, a autonomia para escolher horários, a forma de remuneração, o papel do Estado e a responsabilidade das plataformas. Há trabalhadores que priorizam a flexibilidade e o trabalho autônomo, enquanto outros defendem uma regulamentação mais ampla, com garantias semelhantes às de outras categorias profissionais.
O principal desafio para os candidatos é demonstrar como suas propostas poderão produzir resultados. Para os entregadores, discursos de campanha e encontros com lideranças precisam se transformar em regras claras, pagamentos adequados, transparência nos aplicativos e maior segurança nas ruas.
A manifestação de 21 de outubro foi, portanto, simultaneamente um ato de apoio eleitoral a Lula, uma crítica à proposta trabalhista de Flávio Bolsonaro e uma cobrança por respostas concretas do governo federal. Os trabalhadores que participaram não limitaram suas reivindicações ao dia da votação: afirmaram que continuarão pressionando por mudanças depois do resultado eleitoral.
A mensagem central do protesto foi direta: os entregadores querem flexibilidade para trabalhar, mas também remuneração digna, proteção e condições para voltar para casa em segurança. O apoio declarado a Lula representa a escolha política dos participantes daquele ato, mas o compromisso que eles exigem do próximo governo será medido pelas medidas efetivamente aprovadas e implementadas.
A eleição presidencial está marcada para 25 de outubro de 2026. Independentemente do resultado, a situação dos entregadores continuará sendo um teste importante para as propostas dos candidatos sobre trabalho por aplicativos, renda, segurança e direitos sociais.