
Nepal começa a sepultar vítimas enquanto tragédia entre Nepal e China deixa centenas mortos e milhares desaparecidos
Desastre provocado pelo colapso parcial de uma geleira transformou rios em torrentes de lama, gelo e destroços; autoridades nepalesas iniciam enterros diante de necrotérios lotados, enquanto equipes de resgate continuam procurando sobreviventes na região do Himalaia
O Nepal começou nesta segunda-feira (31) a sepultar algumas das vítimas da gigantesca tragédia que atingiu a região do Himalaia, perto da fronteira com a China. Enquanto famílias ainda procuram parentes desaparecidos, autoridades enfrentam uma situação dramática: a quantidade de corpos recuperados ultrapassou a capacidade disponível para identificação e armazenamento.
O balanço divulgado ao longo desta segunda-feira sofreu novas atualizações. Em um primeiro levantamento, as autoridades nepalesas contabilizavam 903 mortos e 4.247 desaparecidos no Nepal, enquanto a China registrava 16 mortes e 546 desaparecidos no Tibete. Com esses números, o total entre os dois países chegava a 919 mortos e 4.793 desaparecidos.
Posteriormente, uma nova atualização informou 939 mortos no Nepal e 3.925 desaparecidos, além dos 16 mortos e 546 desaparecidos registrados pelas autoridades chinesas, elevando o balanço conjunto para 955 mortos e 4.471 desaparecidos.
A diferença entre os números reflete a dificuldade de identificação e contabilização em uma região devastada por uma imensa onda de água, gelo, lama e pedras.
Uma tragédia que começou nas montanhas
O desastre ocorreu na quarta-feira (26), quando o colapso parcial de uma geleira provocou uma gigantesca enxurrada na região montanhosa.
A água desceu pelos vales carregando pedras, lama, gelo e outros detritos.
Em questão de minutos, áreas habitadas foram atingidas por uma força semelhante à de um tsunami.
Segundo informações citadas pelo Estado de Minas, o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) apontou que a ruptura da geleira transformou um curso de água relativamente tranquilo em uma torrente devastadora.
Inicialmente, chegou-se a considerar a possibilidade de um terremoto ter desencadeado o fenômeno. Posteriormente, análises indicaram que o tremor registrado foi consequência da própria energia sísmica produzida pelo desmoronamento.
O Nepal começa a enterrar seus mortos
O início dos sepultamentos revela a dimensão humana da tragédia.
As autoridades nepalesas ficaram sobrecarregadas pelo número de corpos recuperados e pela falta de instalações adequadas para mantê-los armazenados.
Por isso, alguns corpos começaram a ser enterrados antes mesmo da identificação definitiva.
Para permitir que as famílias ainda possam confirmar posteriormente a identidade dos mortos, amostras de DNA estão sendo coletadas.
É um procedimento de emergência diante de uma situação que ultrapassou a capacidade normal das autoridades.
Famílias procuram respostas
Enquanto os enterros começam, familiares lotam centros de resgate, hospitais e locais improvisados de identificação.
Muitos procuram nomes em listas.
Outros observam fotografias dos corpos encontrados.
Alguns ainda esperam uma ligação.
Outros já enfrentam a dolorosa possibilidade de reconhecer alguém que amavam.
Segundo a reportagem do Estado de Minas, telas de LED exibem fotografias dos corpos recuperados para auxiliar os familiares no processo de identificação.
É uma cena particularmente dolorosa: famílias diante de fotografias tentando descobrir, em uma imagem, se aquela pessoa desconhecida é alguém que conheciam por toda uma vida.
“Parece ele, com certeza”
Entre os relatos publicados está o de Shobha Adhikary, que observou uma fotografia em um necrotério improvisado e acreditou reconhecer seu melhor amigo de infância.
“Parece ele, com certeza”, teria dito aos coordenadores, segundo o relato divulgado na reportagem.
São momentos como esse que demonstram que os números do desastre não são apenas estatísticas.
Cada número representa uma família.
Uma história.
Uma casa.
Uma fotografia.
Uma pessoa que alguém espera reencontrar.
Trabalhadores ficaram presos em túnel
Um dos episódios mais dramáticos ocorreu em uma central hidrelétrica atingida pela enxurrada.
Equipes do Exército do Nepal e engenheiros trabalharam entre os escombros para tentar alcançar trabalhadores que poderiam estar presos dentro de um túnel.
Os socorristas conseguiram introduzir um tubo no local para facilitar o acesso e a comunicação.
Entre os sobreviventes estava Surendra Dowluri, de 33 anos, natural do estado de Andhra Pradesh, na Índia.
Depois de ser resgatado, ele relatou que uma enorme correnteza atingiu o local onde trabalhava.
Segundo seu relato, seis trabalhadores ficaram presos. Cinco foram resgatados, mas um morreu.
933 trabalhadores de hidrelétricas entre os desaparecidos
A tragédia atingiu duramente instalações de geração de energia na região.
Segundo o balanço divulgado pelo Estado de Minas, entre os desaparecidos no Nepal estão 933 trabalhadores de usinas hidrelétricas.
Lama e pedras também bloquearam 11 projetos hidrelétricos nos distritos de Rasuwa e Nuwakot, segundo o levantamento publicado nesta segunda-feira.
O setor energético, portanto, foi atingido diretamente pelo desastre.
A situação na fronteira com a China
A destruição não ficou limitada ao território nepalês.
Do outro lado da fronteira, na região autônoma do Tibete, na China, a tragédia também deixou mortos e desaparecidos.
A imprensa estatal chinesa informou 16 mortos e 546 desaparecidos.
A região atingida é próxima ao posto fronteiriço de Gyirong, por onde passa uma importante rota entre o Tibete e o Nepal.
Segundo a imprensa estatal chinesa, cientistas estimaram que a onda de lama proveniente do lado nepalês levou entre seis e sete minutos para alcançar o posto de fronteira.
Socorristas chineses também enfrentam novos riscos
As operações de resgate continuam perigosas.
No domingo, socorristas chineses que trabalhavam perto da área fronteiriça precisaram ser deslocados para um lugar seguro depois da formação de um novo lago causado por um deslizamento.
O surgimento dessas massas de água aumenta o risco de novos rompimentos e inundações repentinas.
Isso torna a busca ainda mais difícil.
Os próprios socorristas precisam trabalhar sabendo que o terreno pode voltar a se mover.
Mais de 2 mil socorristas no Tibete
A China mobilizou mais de 2,1 mil integrantes das equipes de busca e resgate para atuar na região atingida.
As condições de acesso, porém, são extremamente difíceis.
Segundo a reportagem, os socorristas que tentavam abrir caminho até o epicentro do desastre no Tibete conseguiram avançar apenas cerca de 285 metros em determinado trecho no domingo.
É uma demonstração da dimensão da destruição.
Turistas e peregrinos estão entre os desaparecidos
A tragédia também atingiu pessoas que estavam na região por motivos religiosos e turísticos.
Entre os desaparecidos nos dois países há turistas e peregrinos que viajavam em direção ao Monte Kailash, considerado sagrado por diferentes tradições religiosas.
O desaparecimento dessas pessoas amplia a dimensão internacional da catástrofe.
Famílias de diferentes países agora aguardam informações sobre parentes que estavam na região quando a enxurrada atingiu os vales.
O Monte Kailash e a região do Himalaia
O desastre aconteceu em uma das regiões geográficas mais impressionantes e vulneráveis do planeta.
O Himalaia concentra algumas das maiores montanhas do mundo e enormes massas de gelo.
O Nepal, localizado entre a Índia e a China, possui uma geografia marcada por montanhas, vales estreitos e rios alimentados por neve e geleiras.
Em condições normais, essa paisagem é uma das grandes atrações naturais da Ásia.
Durante a tragédia, porém, a mesma geografia transformou a água e os detritos em uma força de destruição.
O impacto das mudanças climáticas
Cientistas citados na cobertura alertaram que não é correto atribuir um fenômeno específico exclusivamente às mudanças climáticas.
Entretanto, o aquecimento global e o derretimento das geleiras podem contribuir para tornar regiões de alta montanha mais instáveis, alterando condições de gelo, água e rocha.
Simon Cox, cientista-chefe do programa Mountains to Sea, do Earth Sciences New Zealand, explicou que o aumento das temperaturas pode reduzir a sustentação proporcionada pelo gelo, aumentar a água de degelo e alterar padrões de congelamento e descongelamento.
O resultado é um ambiente potencialmente mais vulnerável a grandes deslizamentos.
O alerta das Nações Unidas
O chefe da ONU para o clima, Simon Stiell, classificou o desastre como um lembrete devastador da fragilidade dos ambientes montanhosos.
Segundo a declaração divulgada, o aquecimento global provocado pela queima em larga escala de carvão, petróleo e gás pode tornar tragédias desse tipo mais prováveis, frequentes e graves.
Isso não significa que o aquecimento global tenha sido apontado como causa única do desastre.
Significa que ele pode estar alterando as condições que tornam regiões de alta montanha mais suscetíveis a instabilidades.
“Não sobrou nada”
Entre as frases mais dolorosas da cobertura está a declaração de Buddhi Ram Dangol, morador do distrito de Nuwakot, no Nepal.
Ao descrever a destruição, ele afirmou:
“Todos os vilarejos próximos do rio foram arrasados. Não sobrou nada.”
Poucas frases conseguem representar melhor a extensão da tragédia.
Casas desapareceram.
Estradas foram destruídas.
Comunidades inteiras foram atingidas.
Pontes e instalações de infraestrutura ficaram soterradas ou destruídas.
Um país diante de uma reconstrução bilionária
O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, classificou a situação como um desastre “inimaginável e desolador” e afirmou que a reconstrução deverá custar bilhões de dólares.
A declaração dá uma dimensão do desafio que virá depois do resgate.
Encontrar sobreviventes é apenas a primeira etapa.
Depois será necessário reconstruir casas.
Estradas.
Pontes.
Hospitais.
Escolas.
Sistemas de abastecimento.
Usinas.
Linhas de transmissão.
E comunidades inteiras.
O sofrimento continua depois da água baixar
Desastres desse tamanho não terminam quando a enchente recua.
Começa outra fase.
A procura pelos desaparecidos.
A identificação dos mortos.
O atendimento aos sobreviventes.
A perda das casas.
A falta de infraestrutura.
O risco de novas inundações.
A reconstrução econômica.
E o trauma psicológico.
Para milhares de pessoas, a vida foi dividida entre o antes e o depois da avalanche e da enxurrada.
Resgatar em meio à destruição
As equipes nepalesas utilizam escavadeiras, explosões controladas e ferramentas especiais para abrir caminho entre pedras e lama.
O trabalho é lento porque qualquer movimento pode provocar novos deslizamentos.
Soldados e engenheiros trabalham lado a lado.
Helicópteros são utilizados quando as condições permitem.
Mas a geografia continua sendo o principal obstáculo.
A situação dos corpos
A dificuldade de identificação é uma das cenas mais dolorosas da tragédia.
Os corpos recuperados precisam ser catalogados e, quando possível, identificados.
Mas algumas vítimas estavam em condições que tornam o reconhecimento visual difícil.
Por isso, a coleta de DNA tornou-se indispensável.
Enquanto isso, famílias aguardam.
Algumas já receberam confirmação.
Outras continuam sem saber.
Um número que ainda pode mudar
O balanço da tragédia permanece em movimento.
Isso explica por que diferentes veículos apresentaram números diferentes ao longo do dia.
O levantamento inicial citado no Estado de Minas registrou 919 mortes e 4.793 desaparecidos nos dois países.
Posteriormente, outra atualização elevou o número para 955 mortos e 4.471 desaparecidos.
A redução no número de desaparecidos não significa necessariamente que pessoas tenham simplesmente deixado de existir nas estatísticas.
Ela pode ocorrer à medida que autoridades identificam sobreviventes, corrigem listas e confirmam corpos.
Observação em destaque
OBSERVAÇÃO: os números da tragédia estavam sendo atualizados pelas autoridades ao longo desta segunda-feira (31). O balanço de 919 mortos e 4.793 desaparecidos, divulgado anteriormente, foi posteriormente revisado. A atualização mais recente localizada informa 955 mortos e 4.471 desaparecidos, somando Nepal e Tibete chinês. No Nepal, são 939 mortos e 3.925 desaparecidos; no Tibete, 16 mortos e 546 desaparecidos.
O peso de cada número
É fácil ler:
955 mortos.
4.471 desaparecidos.
E seguir para a próxima notícia.
Mas cada número contém uma história.
Uma mãe.
Um pai.
Um filho.
Um marido.
Uma esposa.
Um trabalhador.
Um peregrino.
Um turista.
Alguém que saiu de casa e não voltou.
É essa dimensão humana que os números sozinhos não conseguem transmitir.
Uma região transformada em cenário de luto
O Nepal agora enfrenta uma paisagem marcada pela destruição.
Os vales que antes recebiam rios e comunidades foram tomados por lama e pedras.
As famílias começaram a realizar funerais.
Os sobreviventes procuram abrigo.
Os soldados procuram desaparecidos.
Os engenheiros tentam abrir caminhos.
E os médicos trabalham para atender os feridos.
Ao mesmo tempo, a chuva e o risco de novos deslizamentos continuam ameaçando as operações.
Um desastre que atravessou fronteiras
A natureza não respeitou a linha política que separa Nepal e China.
A água desceu pela montanha.
Passou pelos vales.
Atingiu cidades e comunidades.
Chegou à fronteira.
E levou a tragédia para o território tibetano.
Por isso, os dois países agora enfrentam simultaneamente operações de resgate e reconstrução.
O Nepal diante de uma ferida profunda
O início dos enterros representa um momento particularmente doloroso.
Enquanto uma parte dos corpos é sepultada, outra parte da população ainda espera encontrar familiares vivos.
É uma mistura cruel de luto e esperança.
Para alguns, a busca terminou.
Para outros, continua.
A tristeza que não cabe em uma estatística
A maior tragédia talvez seja justamente essa: por trás dos números existem comunidades inteiras que perderam sua estrutura.
Casas.
Trabalho.
Famílias.
Memórias.
Projetos de vida.
A reconstrução material poderá levar anos.
A reconstrução emocional, provavelmente, levará muito mais.
Conclusão
O Nepal começou a sepultar suas vítimas enquanto equipes de emergência continuam enfrentando lama, pedras, gelo, água e novos riscos para tentar localizar milhares de desaparecidos.
O desastre atingiu a região do Himalaia, próxima à fronteira com a China, depois do colapso parcial de uma geleira que desencadeou uma gigantesca correnteza de água e detritos.
Os números ainda são atualizados, mas a dimensão já é devastadora: a atualização mais recente localizada aponta 955 mortos e 4.471 desaparecidos no Nepal e no Tibete chinês.
No Nepal, autoridades foram obrigadas a iniciar sepultamentos diante da falta de espaço para armazenar os corpos. Amostras de DNA estão sendo coletadas para permitir identificações posteriores.
Enquanto isso, soldados e engenheiros continuam cavando entre os escombros à procura de sobreviventes, inclusive trabalhadores que podem estar presos em túneis de centrais hidrelétricas.
No outro lado da fronteira, a China mantém uma grande operação de resgate no Tibete.
E, acima de tudo, permanecem as famílias.
As que procuram.
As que esperam.
As que reconhecem fotografias.
As que recebem uma confirmação.
E as que ainda não sabem.
O primeiro-ministro Balendra Shah resumiu o sentimento de um país diante de uma destruição que parece impossível de dimensionar ao chamar a tragédia de “inimaginável e desoladora”.
O Nepal agora precisa fazer duas coisas ao mesmo tempo: continuar procurando quem desapareceu e começar a reconstruir o que a montanha levou.
E, para milhares de famílias, a reconstrução mais difícil não será feita com concreto, máquinas ou dinheiro.
Será a reconstrução de uma vida depois de perder alguém.
No Himalaia, a avalanche passou em minutos. Para quem ficou, o luto poderá durar uma vida inteira.