
No Panamá, Lula afia o discurso e manda recados “sem citar nomes” para Trump
Em fórum econômico, presidente fala em integração regional, critica paralisia da Celac e defende neutralidade do Canal do Panamá
Cidade do Panamá — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou o palco do Fórum Econômico da América Latina e Caribe, nesta quarta-feira (28/1), para fazer aquilo que ele sabe bem: mandar recado com luva de veludo e farpa escondida, mirando diretamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — mesmo sem pronunciar o nome dele.
A fala foi carregada de indiretas bem calculadas, principalmente quando Lula tocou em temas sensíveis como intervenções externas na região, protecionismo econômico e a disputa em torno do Canal do Panamá, assunto que Trump vinha tratando como prioridade política.
Recados para Trump sem citar Trump
Durante o discurso, Lula não mencionou Trump nem fez referência direta à situação da Venezuela, mas desenhou o cenário de forma clara: lembrou que a América Latina vive uma realidade complexa por estar ao lado da “maior potência militar do mundo” — uma frase que, na prática, dispensa legenda.
Na sequência, Lula defendeu que os países latino-americanos precisam agir de forma coordenada, com mais integração e menos dependência, porque, segundo ele, ninguém resolve nada sozinho nessa região.
Celac travada e América Latina sem reação
Um dos trechos mais fortes do discurso foi quando Lula criticou a paralisia da Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos), apontando que o bloco está imobilizado por conflitos ideológicos internos.
Segundo Lula, a Celac estaria tão travada que não consegue nem cumprir o básico: produzir uma declaração conjunta diante de intervenções ilegais que afetam países da região.
“A única organização que engloba a totalidade dos países da América Latina e Caribe, a Celac, está paralisada, apesar dos esforços do nosso querido presidente Petro. A Celac não consegue produzir nem mesmo uma única declaração contra intervenções militares ilegais que abalam a nossa região”, afirmou.
Ou seja: Lula deixou o recado de que a América Latina, dividida e desorganizada, vira um território fácil de ser pressionado — e que isso não é acidente, é consequência.
Canal do Panamá: Lula entra no tema e defende “neutralidade”
Outro ponto que chamou atenção foi quando Lula defendeu a neutralidade do Canal do Panamá, uma discussão que ganhou temperatura depois que Trump passou a sinalizar interesse em influenciar a rota marítima, mas recuou após acordo com o presidente panamenho José Mulino.
Lula fez questão de destacar que infraestrutura não deveria ser tratada como disputa ideológica e elogiou a forma como o canal vem sendo administrado há décadas:
“A integração em infraestrutura não tem ideologia. Por isso, o Brasil defende a neutralidade do Canal do Panamá, administrado de forma eficiente, segura e não discriminatória há quase três décadas”, disse.
Na prática, foi um recado com endereço certo: Canal do Panamá não é brinquedo de campanha, nem moeda de pressão geopolítica.
Aplausos, história e a “boa vizinhança” como cutucão diplomático
Lula foi aplaudido ao defender a união regional e ainda puxou uma referência histórica: citou o ex-presidente americano Franklin D. Roosevelt e a política da boa vizinhança, lembrando um tempo em que a relação com os Estados Unidos era menos baseada em ameaça e mais em diplomacia.
Foi o tipo de lembrança que parece elogio… mas funciona como comparação incômoda.
“Já fomos colonizados e recolonizados”: discurso com tom de alerta
Em outro trecho, Lula subiu o tom e fez um resgate histórico para justificar a urgência da integração regional. Disse que a América Latina carrega séculos de exploração e que precisa mudar de postura para não repetir a história em ciclos.
“Não há nenhuma possibilidade de qualquer país da América Latina sozinho achar que vai resolver problemas. Temos 525 anos de história. Já fomos colonizados, recolonizados. Independência. Precisamos mudar de comportamento. Precisamos criar um bloco econômico que possa ajudar a acabar com a fome”, afirmou.
O recado aqui foi bem direto: se a região continuar fragmentada, vai continuar sendo tratada como quintal de potência.
Tarifaço e protecionismo: Lula cutuca de novo
Lula também comentou, de forma indireta, sobre medidas protecionistas adotadas por Trump, que teria aplicado um tarifaço contra diversos países.
Segundo ele, o Brasil respondeu a esse tipo de prática com três ferramentas: diálogo, firmeza e apoio às empresas brasileiras — tentando mostrar que o país não pretende ficar passivo diante de barreiras econômicas.
Integração é difícil, mas necessária
No fechamento, Lula afirmou que recuperar a confiança na integração latino-americana é um trabalho duro, porém indispensável. Para ele, a região tem potencial para ocupar espaço relevante no mundo, mas precisa de lideranças comprometidas e instituições capazes de equilibrar interesses nacionais diferentes.
Ele defendeu que a integração só vai funcionar se os países aprenderem a conviver com suas diferenças políticas — e que isso é essencial para manter a América Latina como uma zona de paz e cooperação.
Em resumo: Lula usou o Panamá como palco e o fórum como microfone para dizer, sem dizer, que a América Latina não pode continuar desunida enquanto o mundo vira um tabuleiro de disputa — e que Trump não vai ter caminho livre por aqui sem ouvir resposta.