
O poder que janta, atrasa e faz vista grossa: os passos de Hugo Motta sob a sombra da Refit
Da mesa farta em Nova York ao silêncio conveniente em Brasília: o projeto contra devedores contumazes avança só quando a pressão explode — e a sociedade paga a conta.
A cada nova revelação, fica mais claro que o Brasil vive preso a um roteiro cansado, onde interesses privados sempre parecem andar alguns passos à frente do interesse público. E, dessa vez, o protagonista desse enredo não é nenhum figurante: é Hugo Motta, presidente da Câmara, que aparece no centro de uma história que mistura jantar de luxo, megaoperação bilionária e um atraso inexplicável na pauta de um projeto crucial para o país.
O jantar que não cheira bem
Seis meses atrás, em Nova York, enquanto o país já sabia que a Refit era uma campeã na arte de sonegar impostos, Motta era “estrela da noite” em um jantar oferecido justamente pelo grupo que hoje é alvo de uma das maiores operações contra devedores contumazes do Brasil.
Tudo registrado oficialmente, com passagem da FAB, hospedagem bancada pelos cofres públicos e uma conta de diárias de R$ 14 mil.
É o tipo de coincidência que não passa despercebida, principalmente quando se considera o impacto bilionário da sonegação que sufoca estados e municípios — mas, claro, parece que não sufoca a agenda de certas autoridades.
A megaoperação que expôs o óbvio
A Refit, centro da Operação Poço de Lobato, operava um esquema tão gigantesco de sonegação que chegava a R$ 26 bilhões em impostos não pagos.
Era dinheiro que deveria ir para saúde, educação, segurança, e que, no fim das contas, virou combustível para a economia do crime, como apontam os investigadores.
E, quando o torniquete da lei finalmente aperta, surgem até rumores de delações que podem virar uma espécie de “Lava Jato do Centrão”.
Nem precisava de muito esforço para saber por que havia tanta resistência em avançar o projeto que pune justamente quem vive de dever eternamente ao Estado — mas agora, com a operação estourando, tudo ficou ainda mais evidente.
A pressão para Motta agir — finalmente
O projeto de lei que pune o devedor contumaz, aprovado no Senado, estava há quase três meses parado na gaveta de Motta, sem sequer ter um relator designado.
O governo cobrava.
Haddad cobrava.
Até setores do mercado cobravam.
Mas Motta? Nada. Silêncio.
Foi só depois da operação contra a Refit — aquela mesma empresa do jantar — que o presidente da Câmara, num súbito despertar, resolveu nomear um relator.
Coincidência outra vez? O Brasil já está cansado de tantas coincidências que sempre parecem beneficiar os mesmos.
Um sistema que trata o contribuinte honesto como tolo
Enquanto o país tenta combater uma engrenagem de sonegação que desvia bilhões e alimenta facções, quem cumpre a lei é tratado como otário.
E quando a política demora para agir, não é por falta de informação: é por falta de vontade.
É um jogo de poder onde alguns parecem apostar no tempo, esperando tudo esfriar. Mas, desta vez, não esfriou.
A verdade é simples e dura:
não dá para jantar com quem drena o país e depois fingir que se está combatendo o problema.
E quando a pressão só funciona depois que a polícia bate à porta de alguém, o Legislativo mostra exatamente para quem está trabalhando.