O silêncio seletivo da indignação: quando o protesto escolhe lado

O silêncio seletivo da indignação: quando o protesto escolhe lado

Para algumas causas, grito e cartaz; para outras, um constrangedor silêncio absoluto

Eles não foram às ruas contra a roubalheira no INSS.
Não apareceram quando mulheres eram assassinadas todos os dias.
Não levantaram a voz contra a violência que engole periferias inteiras.
Não marcharam quando os Correios afundaram, nem quando o rombo nas contas públicas virou rotina.
Muito menos quando o déficit do Brasil virou herança permanente.

Mas bastou surgir a discussão sobre anistia para o 8/9 de janeiro — e pronto. A indignação acordou, os megafones apareceram, os discursos inflamados voltaram a circular como se a moral tivesse sido reencontrada no fundo da gaveta.

É curioso como a revolta tem agenda, endereço e partido. Alguns problemas parecem pequenos demais para mobilizar militância, como fome, violência, corrupção estrutural ou serviços públicos em colapso. Outros, quando tocam interesses ideológicos, ganham imediatamente status de “defesa da democracia”.

A ironia é que muitos dos que hoje gritam contra qualquer anistia já foram beneficiados por ela no passado. Já tiveram penas revistas, histórias apagadas e biografias reescritas com tinta generosa. Ontem, a anistia era reconciliação. Hoje, virou pecado mortal — dependendo de quem está do outro lado.

Não se trata de defender crimes, mas de apontar a hipocrisia. Porque quem realmente se preocupa com o país não escolhe causas como quem escolhe figurino para protesto. Quem se importa de verdade não ignora corrupção previdenciária, colapso econômico, violência cotidiana e descontrole fiscal.

O Brasil real segue pagando a conta enquanto parte da classe política e dos “lacradores profissionais” escolhe o tema do dia para parecer virtuosa. Protestam muito, mas só quando convém. Gritam alto, mas apenas para os próprios.

No fim, não é sobre justiça. É sobre narrativa.
E o povo, mais uma vez, fica fora do enquadramento.

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