Para o samba tem milhões, para o remédio falta verba

Para o samba tem milhões, para o remédio falta verba

Governo banca Carnaval com dinheiro público enquanto pacientes seguem esperando por tratamentos caros e raros

Enquanto milhares de brasileiros fazem vaquinha, recorrem à Justiça ou simplesmente aguardam em filas intermináveis por medicamentos caros e raros, o governo federal mostrou que, quando o assunto é Carnaval, dinheiro não é problema. Pelo contrário: sobra.

Um acordo firmado entre o Ministério da Cultura e a Embratur garantiu R$ 12 milhões às escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro para o Carnaval de 2026. Cada agremiação vai receber R$ 1 milhão, num ano em que uma das estreantes leva justamente o presidente Lula como tema de enredo.

O contrato foi assinado no dia 19 pelo secretário da pasta, Cassius Rosa, e pelo presidente da Embratur, Marcelo Freixo (PT). Oficialmente, trata-se de incentivo cultural e turístico. Na prática, o contraste salta aos olhos: há verba generosa para desfile, alegoria e fantasia — mas falta orçamento quando o pedido envolve remédio de alto custo ou tratamento raro no SUS.

A Acadêmicos de Niterói, escola fundada há apenas quatro anos e que fará sua estreia no Grupo Especial, escolheu contar a trajetória de Lula, da infância pobre em Pernambuco à chegada ao Palácio do Planalto. Para isso, além do repasse federal, a agremiação também receberá recursos do governo estadual e das prefeituras do Rio de Janeiro e de Niterói. Só o município de Niterói destinou R$ 4,4 milhões.

Somando os aportes estaduais e municipais, cada escola pode ultrapassar facilmente a casa dos milhões. No grupo de acesso, o cenário se repete: a União de Maricá recebeu R$ 8 milhões da prefeitura local.

Tudo isso acontece enquanto pacientes com doenças raras continuam ouvindo que “não há previsão orçamentária”, famílias entram em longas batalhas judiciais para conseguir medicamentos importados e hospitais relatam falta de insumos básicos. Para o Carnaval, não se discute teto de gastos. Para a saúde, a resposta quase sempre é “não há recursos”.

Defensores do repasse dizem que cultura gera emprego, turismo e visibilidade internacional. Críticos veem outra coisa: prioridade política travestida de incentivo cultural. Ainda mais num ano em que um presidente em exercício vira tema central de um desfile milionário, financiado com dinheiro público.

O Brasil segue sendo esse país curioso: onde o samba nunca pode parar, mas o tratamento médico pode esperar. Onde há verba garantida para alegorias, carros e fantasias, mas o cidadão comum segue lutando para conseguir um remédio que pode significar a diferença entre viver e morrer.

No fim das contas, a mensagem que fica é dura, mas clara: para a avenida, o cofre abre; para o hospital, quase sempre permanece fechado.

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