
PF amplia investigação sobre Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, e Flávio enfrenta pressão por transparência
Flávio Dino autoriza Polícia Federal a acessar dados apreendidos em investigação da Polícia Civil contra produtora do longa; senador afirma que não cabe a ele prestar contas e diz que responsabilidade é da empresa
A produção de Dark Horse, cinebiografia ficcional sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, ganhou uma nova dimensão nesta segunda-feira (24). O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal (PF) a acessar dados obtidos em uma investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo contra a Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme. A medida abre uma nova frente de apuração sobre a origem e a utilização dos recursos relacionados à obra.
O filme já vinha cercado por questionamentos envolvendo financiamento, contratos, emendas parlamentares e a relação política de seus responsáveis. Agora, informações apreendidas pela polícia paulista poderão ser utilizadas pela PF em uma investigação que apura a possibilidade de uso irregular de emendas parlamentares para custear a produção.
A autorização de Dino é particularmente relevante porque o ministro é relator, no STF, de processos relacionados a possíveis irregularidades na destinação de emendas parlamentares.
A investigação que chegou ao STF
A apuração da Polícia Civil de São Paulo tem como alvo a Go Up Entertainment e pessoas relacionadas à produtora. Entre os investigados está Karina Ferreira da Gama, apontada como proprietária da empresa.
Segundo informações reunidas pelas investigações, a Polícia Civil apura suspeitas de irregularidades envolvendo um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil, entidade presidida por Karina.
O contrato tinha como finalidade a instalação de pontos de Wi-Fi gratuito em comunidades carentes. A suspeita investigada é de que parte dos recursos possa ter sido desviada ou utilizada de maneira incompatível com a finalidade originalmente estabelecida, inclusive com possível conexão com a produção de Dark Horse.
É importante ressaltar que se trata de suspeitas sob investigação, e não de uma conclusão judicial definitiva sobre desvio de recursos.
O que a PF procura descobrir
A investigação federal tem foco diferente da investigação paulista, embora os dados possam se cruzar.
A PF apura se emendas parlamentares foram utilizadas, direta ou indiretamente, para financiar o filme.
A partir do compartilhamento autorizado por Dino, os investigadores poderão examinar informações obtidas na operação paulista e procurar eventuais conexões entre contratos, empresas, transferências financeiras, parlamentares e a produtora.
O objetivo é reconstruir o caminho do dinheiro.
A pergunta central é: de onde vieram os recursos utilizados na produção de Dark Horse e para onde efetivamente foram destinados?
Flávio Bolsonaro no centro da discussão política
O caso ganhou dimensão eleitoral porque envolve diretamente Flávio Bolsonaro, senador do PL e candidato à Presidência da República em 2026.
Flávio é filho de Jair Bolsonaro e assumiu papel importante na defesa e divulgação do projeto cinematográfico.
Em maio, após a divulgação de um áudio em que aparece pedindo recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do filme, Flávio prometeu que apresentaria uma prestação de contas sobre os valores envolvidos.
Segundo reportagens publicadas desde então, o senador chegou a estabelecer prazo para que a produtora apresentasse informações sobre os gastos.
A promessa, porém, não se concretizou da forma anunciada. Em julho, já havia passado o prazo indicado sem que Flávio ou a produtora divulgassem publicamente o detalhamento completo dos recursos.
Agora, diante da nova decisão de Dino, o episódio volta ao centro do debate.
“Quem tem que prestar contas não sou eu”
Questionado sobre o assunto nesta segunda-feira, Flávio mudou o eixo da responsabilidade.
O senador passou a sustentar que não cabe a ele apresentar a prestação de contas do filme, porque a produção pertence à Go Up Entertainment.
Segundo relatos publicados nesta segunda, a justificativa apresentada por seus interlocutores é que Flávio não teria acesso a todos os dados financeiros necessários, já que a produção está sob responsabilidade da empresa de Karina Ferreira da Gama.
Em declaração pública, Flávio também afirmou que quem deve explicações é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, numa tentativa de deslocar o debate para as investigações envolvendo o entorno do governo petista.
A mudança de posição, entretanto, alimenta a pressão política sobre o candidato.
Isso porque a cobrança por transparência não depende necessariamente de Flávio ser formalmente o responsável contábil pela produtora. O ponto político é outro: ele próprio havia prometido esclarecer publicamente a origem e a aplicação dos recursos relacionados ao filme.
Os R$ 61 milhões e Daniel Vorcaro
O financiamento de Dark Horse passou a ser alvo de atenção depois da divulgação de conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, então banqueiro ligado ao Banco Master.
Reportagens apontaram que Flávio teria solicitado recursos para a produção do filme. Uma das cifras mencionadas publicamente foi de aproximadamente R$ 61 milhões, enquanto outras reportagens trataram de valores maiores relacionados às negociações e ao projeto.
Flávio afirmou que não houve irregularidade e sustentou que a produção tinha prestação de contas.
A própria produtora, por sua vez, contestou versões segundo as quais Vorcaro teria efetivamente financiado o filme, afirmando que não recebeu dinheiro dele. O conflito entre as diferentes versões é justamente uma das razões pelas quais a origem dos recursos passou a despertar atenção dos investigadores.
Uma produção de grande escala
Dark Horse não é apresentado como uma produção política amadora.
O longa foi produzido com estrutura internacional e tem o ator Jim Caviezel interpretando Jair Bolsonaro. A obra pretende retratar episódios da vida pessoal e política do ex-presidente.
Documentos analisados anteriormente indicaram que contratos previam retorno financeiro de 20% aos financiadores privados, segundo perícia citada pela CNN. Isso significa que, para cada R$ 1 investido, os contratos analisados previam retorno de R$ 1,20 ao financiador.
O aspecto financeiro, portanto, tornou-se tão importante quanto o conteúdo político da produção.
Emendas parlamentares entram no radar
Outro eixo da investigação envolve deputados que teriam destinado recursos por meio de emendas parlamentares para entidades relacionadas à produtora.
Entre os nomes citados nas apurações está o deputado Mário Frias (PL-SP), que destinou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil. Frias afirma que os recursos não foram aplicados na produção do filme.
Também aparecem nas investigações referências a outros parlamentares do PL, como Bia Kicis e Marcos Pollon, no contexto da destinação de recursos.
A existência de emendas, entretanto, não significa automaticamente que houve desvio ou irregularidade. O que a PF procura estabelecer é qual foi o destino efetivo desses recursos e se houve conexão financeira com a produção cinematográfica.
Eduardo Bolsonaro também aparece no caso
As apurações anteriores sobre Dark Horse também colocaram Eduardo Bolsonaro no centro da estrutura da produção.
Reportagens indicaram que o deputado federal cassado teria assinado contrato como produtor-executivo do filme e teria participação na estrutura relacionada ao dinheiro utilizado no projeto.
A presença de Eduardo, somada à atuação de Flávio na busca por financiamento e à ligação da produtora com contratos públicos investigados, ampliou a dimensão política do episódio.
A produtora e Karina Ferreira da Gama
A Go Up Entertainment é controlada por Karina Ferreira da Gama, personagem que passou a ser examinada pelas autoridades paulistas.
A produtora já apresentou parte dos dados em investigação que tramita na Justiça de São Paulo. A Polícia Civil busca esclarecer suspeitas relacionadas aos contratos do Instituto Conhecer Brasil com a Prefeitura de São Paulo.
Agora, informações obtidas nessa investigação poderão chegar à PF.
Isso significa que documentos que estavam restritos a uma apuração estadual poderão contribuir para uma investigação federal sobre possíveis irregularidades na utilização de emendas.
O papel de Flávio Dino
A decisão de Flávio Dino não significa que o ministro tenha concluído que houve crime.
Sua decisão autoriza o compartilhamento de elementos de uma investigação para que a Polícia Federal possa utilizá-los em outra apuração.
O procedimento ocorre em meio a uma investigação mais ampla sobre possíveis irregularidades na destinação de emendas parlamentares.
O ministro, portanto, atua no âmbito judicial, autorizando o acesso às informações solicitadas pela PF.
Ancine também entrou no radar
A produção ainda enfrenta questões regulatórias.
O filme recebeu, em agosto, registro de obra estrangeira na Agência Nacional do Cinema (Ancine), primeiro passo para uma eventual exibição regular no Brasil.
Entretanto, segundo informações publicadas pela Folha, a agência abriu procedimento administrativo relacionado ao fato de a produção não ter informado adequadamente as filmagens realizadas no país. O procedimento poderia resultar em multa de até R$ 100 mil.
Assim, o filme enfrenta simultaneamente questionamentos financeiros, policiais e regulatórios.
A disputa narrativa
O episódio também se tornou uma batalha de narrativas na campanha presidencial.
Para Flávio Bolsonaro, o caso é utilizado por adversários para atingir sua candidatura e sua família.
O senador tenta transferir o foco para as investigações envolvendo o governo Lula, especialmente o caso de Lulinha.
Para seus críticos, porém, a questão é objetiva: se Flávio anunciou que apresentaria a prestação de contas do filme, por que agora afirma que não é sua responsabilidade fazê-lo?
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas jurídica e passa a ter peso eleitoral.
A campanha de Flávio precisa explicar não apenas a origem dos recursos, mas também a mudança de posição sobre a divulgação dos dados.
O que está comprovado e o que continua sob investigação
Até o momento, é necessário separar fatos documentados de suspeitas.
A Go Up Entertainment produziu Dark Horse.
A Polícia Civil de São Paulo investiga contratos envolvendo o Instituto Conhecer Brasil e recursos públicos.
A PF investiga possível uso irregular de emendas parlamentares relacionado à produção.
Flávio Dino autorizou o acesso da PF aos dados apreendidos na investigação paulista.
Flávio Bolsonaro foi associado às negociações para obtenção de recursos destinados ao filme e havia prometido transparência sobre os gastos.
Mas essas circunstâncias não equivalem, por si só, a uma condenação criminal ou à comprovação de desvio de dinheiro público.
É justamente para esclarecer essas conexões que as investigações continuam.
Um filme que virou problema político
Dark Horse nasceu como uma tentativa de transformar a trajetória de Jair Bolsonaro em narrativa cinematográfica. No entanto, antes mesmo de chegar às telas, a produção acabou se transformando em um dos assuntos mais delicados da campanha presidencial de 2026.
A obra agora está cercada por três perguntas fundamentais: quem financiou o filme, de onde veio o dinheiro e se algum recurso público foi utilizado de maneira irregular.
A decisão de Flávio Dino acrescenta uma nova peça ao quebra-cabeça.
Com acesso aos dados apreendidos pela Polícia Civil, a Polícia Federal terá condições de cruzar informações e aprofundar a investigação sobre contratos, emendas parlamentares, empresas e transferências financeiras.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro enfrenta uma escolha política difícil: continuar dizendo que a responsabilidade é exclusivamente da produtora ou apresentar, de maneira pública e detalhada, os elementos que sustentem sua versão sobre o financiamento.
A frase de que “quem tem que prestar contas não sou eu” resume o novo capítulo da crise.
Para a Justiça e para a PF, a questão será descobrir quem efetivamente movimentou o dinheiro.
Para o eleitor, a pergunta é mais simples: quem pagou pela história que pretende contar a história de Jair Bolsonaro?
E é essa resposta — mais do que o próprio filme — que poderá determinar o tamanho político do caso Dark Horse.