Flávio Bolsonaro mira empresários em São Paulo e reforça discurso econômico na corrida presidencial

Flávio Bolsonaro mira empresários em São Paulo e reforça discurso econômico na corrida presidencial

Candidato do PL se reúne com direção da Fiesp, participa de premiação empresarial e promete responsabilidade fiscal, redução de impostos e menor intervenção do Estado

A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) dedicou a segunda-feira (24) a uma frente estratégica da disputa eleitoral: o diálogo direto com o setor produtivo. Em São Paulo, o candidato participou de uma reunião com a direção da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e, posteriormente, esteve em um evento voltado às maiores empresas do país. A agenda colocou empresários, indústria, investimentos e política econômica no centro da estratégia eleitoral do senador.

O movimento ocorre em uma etapa decisiva da campanha, na qual Flávio tenta consolidar-se como principal adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ampliar sua interlocução para além do eleitorado tradicionalmente identificado com o bolsonarismo. Levantamentos divulgados no mesmo dia mostraram uma disputa apertada entre os dois principais candidatos.

O encontro com a Fiesp

O compromisso mais importante da agenda econômica foi a reunião com a diretoria da Fiesp, na sede da entidade, na Avenida Paulista.

Segundo a programação divulgada para o candidato, Flávio deveria participar de uma conversa com representantes da indústria e utilizar os 30 minutos finais do encontro para apresentar suas ideias e responder a questões levantadas pelos empresários.

A escolha da Fiesp tem forte significado político. São Paulo concentra uma parcela decisiva da indústria brasileira e representa um dos principais centros econômicos e eleitorais do país. Aproximar-se desse público significa falar não apenas com empresários, mas também com setores ligados a investimentos, emprego, exportações, crédito, infraestrutura e produção.

Flávio apresentou uma agenda econômica baseada em responsabilidade fiscal, redução de despesas, busca por novas fontes de receita e redução de impostos. Também defendeu uma presença menor do Estado na economia e argumentou que a recuperação da credibilidade brasileira poderia contribuir para a queda dos juros e para a redução do endividamento das famílias.

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, elogiou a agenda econômica apresentada pelo candidato e afirmou que ela está alinhada a valores defendidos pela entidade. Ao mesmo tempo, ressaltou o caráter apartidário da Fiesp, uma distinção importante em uma campanha presidencial cada vez mais polarizada.

O discurso para o setor produtivo

A mensagem de Flávio aos empresários procura construir uma imagem de candidato preocupado com previsibilidade econômica.

Em vez de restringir seu discurso às pautas culturais e à disputa ideológica com o PT, o senador tenta apresentar-se como alternativa para empresários preocupados com carga tributária, juros, dívida pública e ambiente de negócios.

A estratégia é particularmente relevante porque o setor produtivo costuma reagir com atenção a mudanças de política fiscal e monetária. Para conquistar esse eleitorado, Flávio precisa demonstrar que sua campanha dispõe não apenas de força política, mas também de uma equipe capaz de transformar promessas econômicas em políticas públicas.

Nesse sentido, a campanha vem reforçando seu núcleo econômico. Entre os nomes incorporados recentemente está Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia do governo Jair Bolsonaro, que passou a integrar a equipe econômica coordenada por Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal. Também foram anunciados nomes como o economista Adriano Pires, para a área de energia, e o advogado Alexandre Chequer, ligado à discussão de infraestrutura.

Críticas ao governo Lula

Durante a agenda paulista, Flávio também manteve o tom de confronto com Lula.

O candidato afirmou que o Brasil não suportaria mais quatro anos de governo petista e comparou os efeitos econômicos da administração Lula aos impactos provocados pela pandemia. Entre suas críticas estão o aumento do endividamento da população e da carga tributária.

O discurso revela o eixo central de sua campanha: apresentar a eleição como uma escolha entre a continuidade do governo Lula e uma mudança radical de orientação econômica.

Flávio tenta associar o PT a aumento de impostos, crescimento das despesas e maior intervenção estatal, enquanto apresenta sua candidatura como alternativa de contenção fiscal e estímulo à iniciativa privada.

A disputa por São Paulo

A escolha de São Paulo para intensificar o contato com empresários não é casual.

Pesquisa RealTime Big Data divulgada nesta segunda-feira mostrou Flávio com 38% das intenções de voto no primeiro turno entre eleitores paulistas, contra 33% de Lula. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

Outro levantamento divulgado no mesmo dia, da BTG/Nexus, colocou Lula com 41% e Flávio com 37% no cenário nacional de primeiro turno. No segundo turno, os dois apareceram tecnicamente empatados: 46% para Lula e 45% para Flávio, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

O resultado explica parte da importância estratégica do eleitor paulista. Além de ser o maior colégio eleitoral do país, São Paulo reúne uma parcela significativa do empresariado, da indústria e dos setores financeiros.

Para Flávio, ampliar a vantagem ou consolidar uma posição competitiva no estado pode representar uma peça importante para chegar ao segundo turno em condições favoráveis.

O jantar com empresários

A agenda não terminou na Fiesp.

Flávio também participou de um jantar com empresários, oportunidade na qual voltou a alertar para os efeitos econômicos que, segundo sua avaliação, uma eventual reeleição de Lula poderia produzir.

A iniciativa demonstra que a campanha pretende estabelecer uma interlocução contínua com o setor privado, e não apenas participar de encontros protocolares durante o período eleitoral.

Para o candidato, esse público pode exercer influência não somente pelo voto individual, mas também pela capacidade de mobilização de setores empresariais e pela formação de opinião econômica.

A ausência no primeiro debate

A ofensiva junto aos empresários ocorre também sob o impacto da ausência de Flávio no primeiro debate presidencial da TV Bandeirantes, realizado no domingo (23).

O candidato não participou do encontro e foi criticado por adversários. Depois do debate, publicou um vídeo nas redes sociais no qual criticou Lula e afirmou que pretendia debater com quem, em sua avaliação, estaria “destruindo o Brasil”. Lula também não participou do debate.

A ausência produziu um paradoxo para a campanha: enquanto Flávio evitava o primeiro confronto direto entre presidenciáveis, no dia seguinte dedicava sua agenda a conversas com empresários e representantes do setor produtivo.

A estratégia parece ser a de deslocar parte da disputa para ambientes nos quais o candidato consiga apresentar propostas econômicas com maior tempo e menor dependência do formato de confronto televisivo.

O diálogo com Tarcísio

A agenda econômica também deve ser observada dentro da relação política entre Flávio e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Tarcísio participou de agendas recentes com Flávio e esteve ao lado do senador em Barretos durante a Festa do Peão. Em São Paulo, os dois têm procurado demonstrar proximidade política, embora Tarcísio seja candidato à reeleição ao governo estadual e Flávio dispute o Palácio do Planalto.

Dias antes, em encontro com empresários da Mooca, Flávio havia declarado que pretendia entrar para a história “nem que seja como presidente de transição”. Na ocasião, afirmou que o país precisava atravessar um período de turbulência e fez referências à trajetória política do pai, Jair Bolsonaro.

A presença de Tarcísio no entorno político de Flávio acrescenta uma dimensão paulista à campanha e ajuda o candidato a circular entre grupos empresariais e políticos do estado.

A tentativa de ampliar o eleitorado

O desafio de Flávio é transformar a força eleitoral do sobrenome Bolsonaro em uma candidatura nacional capaz de alcançar setores que não necessariamente se identificam com o bolsonarismo mais radical.

O encontro com empresários cumpre exatamente essa função.

O candidato procura falar de juros, impostos, dívida, responsabilidade fiscal, emprego e investimentos, temas capazes de dialogar com um público diferente daquele mobilizado por pautas ideológicas.

Essa tentativa de ampliação ocorre paralelamente à manutenção de uma retórica fortemente crítica ao PT.

O resultado é uma campanha que combina dois elementos: de um lado, a identidade política herdada do bolsonarismo; de outro, uma tentativa de apresentar Flávio como candidato com programa econômico próprio.

O próximo passo

Depois da agenda paulista, Flávio prepara uma incursão pelo Nordeste. Segundo a programação divulgada, ele deve viajar para Alagoas, com compromissos em Maceió e Arapiraca, marcando a primeira passagem pela região desde o início da campanha. Até então, sua agenda havia se concentrado principalmente no Sudeste.

A mudança de território será importante para avaliar se a estratégia construída em São Paulo — baseada em empresários, setor produtivo e discurso econômico — consegue ser adaptada a outras regiões do país.

Uma campanha em busca de credibilidade econômica

O encontro com empresários em São Paulo representa, portanto, mais do que um compromisso de campanha.

É uma tentativa de Flávio Bolsonaro de construir credibilidade econômica, aproximar-se do setor produtivo e apresentar uma alternativa ao governo Lula em um momento no qual as pesquisas apontam para uma disputa nacional extremamente apertada.

O desafio será transformar declarações sobre responsabilidade fiscal, redução de impostos e menor intervenção estatal em um programa detalhado, com números, prioridades e mecanismos de execução.

Para os empresários, a pergunta é objetiva: como o próximo governo pretende equilibrar as contas públicas sem comprometer investimentos, emprego e serviços essenciais?

Para Flávio, a resposta poderá ser decisiva para transformar sua vantagem em São Paulo em força nacional.

E, em uma eleição na qual Lula e Flávio aparecem praticamente empatados no segundo turno, cada segmento conquistado — inclusive o empresariado paulista — pode representar uma diferença importante na corrida pelo Palácio do Planalto.

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