
Prédio de quatro andares desaba no Brás, deixa trabalhadores feridos e expõe falhas na segurança do imóvel
Subtítulo: Edifício comercial localizado na Rua Maria Joaquina não possuía Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) regular. Cerca de 35 pessoas estavam no local durante o desabamento; 27 foram retiradas pelos bombeiros e quatro precisaram de atendimento médico. Excesso de peso provocado pelo armazenamento de tecidos é uma das principais hipóteses investigadas.
Um prédio comercial de quatro andares desabou no início da noite de sexta-feira (6), na Rua Maria Joaquina, número 192, no Brás, região central de São Paulo. O acidente mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar, da Defesa Civil e da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). A ocorrência provocou momentos de pânico entre trabalhadores e pessoas que circulavam por uma das regiões de maior movimento comercial da capital paulista.
No momento do desabamento, havia aproximadamente 35 pessoas dentro do imóvel, onde funcionava uma loja de roupas e tecidos e também era utilizado um espaço para armazenamento de mercadorias. Segundo informações divulgadas pelas autoridades, oito pessoas conseguiram deixar o prédio por conta própria. As outras 27 foram retiradas pelas equipes de resgate.
Quatro pessoas foram encaminhadas à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Mooca com ferimentos leves e quadro considerado estável. As primeiras informações divulgadas durante a ocorrência apresentaram números diferentes de vítimas e feridos, mas as atualizações das equipes de resgate indicaram que todos os trabalhadores contabilizados no local haviam sido retirados. Não havia confirmação de mortes.
Suspeita de excesso de peso na estrutura
Uma das principais hipóteses levantadas pelas autoridades é que o prédio não tenha suportado o peso de grandes quantidades de tecidos armazenadas nos andares superiores. O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou que conversou com a proprietária da loja e recebeu informações sobre a chegada de dois contêineres de mercadorias.
De acordo com o relato apresentado pelo secretário, um dos contêineres teria sido descarregado durante a manhã, com parte da carga levada para os pavimentos superiores. O descarregamento de outro contêiner começou depois das 18h, momento em que havia dezenas de trabalhadores no imóvel.
A suspeita inicial é de que o colapso tenha começado na região do mezanino, onde havia grande concentração de mercadorias. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, também afirmou que o excesso de peso é uma das possibilidades consideradas. Segundo ele, caminhões chegaram ao endereço para abastecer o estabelecimento com tecidos, e a sobrecarga pode ter contribuído para o desabamento.
Apesar das declarações, a causa definitiva ainda depende de perícia técnica. Será necessário avaliar as condições da estrutura, a distribuição da carga, a capacidade de sustentação dos pavimentos e as eventuais alterações feitas no imóvel. Portanto, a hipótese de sobrepeso não deve ser tratada como conclusão definitiva antes do resultado das investigações.
Imóvel não tinha AVCB regular
Outro ponto que chamou a atenção das autoridades foi a situação documental do edifício. O Corpo de Bombeiros informou que o imóvel não possuía Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) regular.
O AVCB é o documento emitido pelo Corpo de Bombeiros que atesta que uma edificação atende às exigências de segurança contra incêndio e pânico previstas na legislação. Sua ausência ou irregularidade representa um alerta sobre a situação de segurança do estabelecimento, embora, por si só, não determine a causa de um colapso estrutural.
A informação levanta questionamentos sobre as condições de funcionamento do imóvel, as atividades comerciais desenvolvidas no local e a fiscalização das condições de segurança. Também será importante esclarecer se o prédio estava sendo utilizado de acordo com sua finalidade original e se a estrutura tinha capacidade para suportar o armazenamento de grandes volumes de mercadorias.
Resgate foi suspenso por risco de novo desabamento
O Corpo de Bombeiros foi acionado por volta das 18h40 e mobilizou dezenas de profissionais e viaturas para atender à ocorrência. Durante os trabalhos, as equipes encontraram uma situação delicada: partes da estrutura haviam desabado, deixando concreto, ferragens e outros materiais espalhados pelo local.
Por volta das 22h, os bombeiros suspenderam as buscas no interior do edifício depois de identificarem sinais de instabilidade. Foram relatados estalos e movimentações na estrutura, indicando a possibilidade de um novo desabamento. Por segurança, os profissionais precisaram deixar áreas consideradas perigosas.
A operação também contou com cães farejadores, utilizados para verificar a possível presença de pessoas sob os escombros. O trabalho de busca e a avaliação da estrutura precisaram respeitar as condições de segurança dos próprios agentes, já que uma nova movimentação poderia colocar em risco as equipes de resgate.
O imóvel permaneceu isolado e interditado, enquanto técnicos avaliavam as condições da construção e a necessidade de escoramento. A Defesa Civil também passou a verificar os prédios vizinhos para identificar eventuais danos ou riscos provocados pelo impacto do desabamento.
Trabalhadores relatam momentos de desespero
Pessoas que estavam no interior do prédio relataram momentos de medo e desespero. Um trabalhador identificado como Wesley contou que a estrutura começou a desmoronar rapidamente, avançando da parte da frente para o fundo do imóvel. Segundo ele, o colapso aconteceu de maneira repentina.
Outro trabalhador, Paulo Fernandes, de 25 anos, relatou que os tecidos armazenados no local podem ter ajudado a sustentar parte da estrutura durante o desabamento. O relato mostra como os funcionários enfrentaram uma situação de extremo perigo enquanto tentavam escapar ou aguardavam o resgate.
Imagens de câmeras de monitoramento registraram o momento em que parte do prédio veio abaixo. Nas gravações, pessoas aparecem correndo para fora do estabelecimento pouco antes de uma grande nuvem de poeira tomar conta da rua. O registro deverá contribuir para a reconstrução da sequência dos acontecimentos.
Investigação deverá esclarecer responsabilidades
A Polícia Civil deverá apurar as circunstâncias do desabamento, enquanto a perícia técnica terá a responsabilidade de identificar o que provocou a queda da estrutura. Entre os pontos que precisam ser esclarecidos estão as condições de conservação do edifício, sua capacidade de suportar o peso das mercadorias, possíveis intervenções estruturais e a regularidade de funcionamento do estabelecimento.
Também será necessário verificar quem era responsável pela administração e manutenção do imóvel, quem autorizou o armazenamento da carga nos pavimentos superiores e se foram observadas as condições técnicas de segurança para a atividade exercida no local.
A ausência de AVCB regular acrescenta outro elemento importante à apuração. As autoridades deverão esclarecer a situação do imóvel perante os órgãos competentes e verificar se houve falhas de fiscalização ou descumprimento de exigências legais.
O caso reacende o debate sobre a segurança de imóveis comerciais em regiões de grande circulação de trabalhadores e consumidores. No Brás, onde lojas, depósitos e estabelecimentos de diferentes portes recebem diariamente grandes volumes de mercadorias, a fiscalização das condições estruturais e de segurança é fundamental para evitar acidentes.
Mais um desabamento grave em São Paulo
O episódio também chama a atenção por ocorrer menos de 60 dias depois de outro desabamento grave na capital paulista. Em 12 de setembro, seis pessoas, entre elas uma criança, morreram após um prédio em construção desabar sobre uma residência na região da Penha, na zona leste de São Paulo.
Embora sejam ocorrências diferentes e não haja indicação de ligação entre os dois casos, a proximidade dos acidentes reforça a necessidade de rigor na fiscalização, no acompanhamento de obras e na verificação das condições de segurança das edificações.
O desabamento no Brás poderia ter terminado em uma tragédia ainda maior, considerando o número de pessoas que estavam dentro do imóvel e a dimensão dos escombros. A retirada dos trabalhadores sem registro confirmado de mortes foi um resultado positivo em meio à gravidade da ocorrência, mas não elimina as perguntas que precisam ser respondidas.
A investigação deverá esclarecer se o colapso foi provocado pelo excesso de peso, por problemas estruturais anteriores ou pela combinação de diferentes fatores. Mais do que identificar a causa imediata, será necessário apurar se o acidente poderia ter sido evitado e se houve negligência na manutenção, na utilização ou na fiscalização do edifício.