
Promessa emperrada: programa que levaria pacientes do SUS a hospitais privados parou no ato inaugural com Lula
Lançado com festa em Recife, o “Agora Tem Especialistas” atendeu só oito pessoas e ainda não saiu do papel na prática
O Ministério da Saúde lançou no último dia 14 de agosto, em Recife, um programa ambicioso: permitir que pacientes do SUS fossem atendidos em hospitais da rede privada, usando como moeda de troca as dívidas que operadoras de planos de saúde têm com o sistema público. A estreia contou com direito a cerimônia ao lado do presidente Lula e até visita do petista a alguns pacientes. O problema é que, depois do evento, nada mais aconteceu.
Foram apenas oito atendimentos no Hospital Ariano Suassuna, da Hapvida: duas próteses de quadril, duas cirurgias de vesícula, duas tomografias e duas ressonâncias. De lá para cá, nenhum novo procedimento foi feito pelo programa.
O ministério insiste que o “Agora Tem Especialistas” está em fase de expansão, aguardando a adesão de mais operadoras privadas. Mas não há prazo para que os serviços virem rotina para quem depende do SUS. Até agora, só a Hapvida confirmou oficialmente a entrada.
A iniciativa é tratada pelo governo como aposta de Lula para marcar seu terceiro mandato na saúde. A ideia é simples no papel: os planos que devem ao SUS — porque seus beneficiários usaram a rede pública — deixariam de pagar em dinheiro e compensariam com consultas, exames e cirurgias na rede própria. A previsão é movimentar R$ 1,3 bilhão por ano nesse modelo.
Apesar do entusiasmo inicial, gestores do SUS avaliam que o anúncio foi apressado. Como a adesão depende da boa vontade das operadoras e ainda há várias etapas burocráticas em aberto, dificilmente os atendimentos começariam em poucas semanas, como chegou a prometer o ministro Alexandre Padilha.
Enquanto isso, o governo tenta avançar em outros braços do programa: parcerias com hospitais e clínicas privadas dispostos a trocar dívidas federais por serviços, envio de carretas com atendimento a regiões isoladas e ampliação da rede de especialistas no SUS.
O setor privado aplaudiu a proposta. Para entidades como a Abramge e a FenaSaúde, o projeto abre caminho para maior integração entre os sistemas público e privado. Mas, na prática, por enquanto, a marca registrada do “Agora Tem Especialistas” continua sendo apenas o palanque político do dia do lançamento.