
Quando a fé vira escudo político: PT recorre a Benedita para apagar incêndio criado por Lula
Após desfile polêmico no Carnaval, partido tenta acenar aos evangélicos usando discurso de “defesa da família”, em um movimento visto como tardio e contraditório
Depois de provocar forte reação entre evangélicos por conta do desfile que homenageou Luiz Inácio Lula da Silva no Carnaval, o Partido dos Trabalhadores decidiu correr atrás do prejuízo. A estratégia escolhida foi colocar a deputada Benedita da Silva, agora apresentada como voz da fé e da família, para tentar conter a sangria junto ao eleitorado evangélico.
O vídeo divulgado nas redes do partido surgiu logo após críticas à ala “Neoconservadores em conserva”, do desfile da Acadêmicos de Niterói, que retratou famílias enlatadas com símbolos religiosos. A resposta de Lula ao ser questionado sobre o tema — dizendo que “não pensou” e que apenas aceitou a homenagem — caiu como gasolina no fogo. Para muitos fiéis, soou como descaso; para o Planalto, virou um problema político imediato.
É nesse cenário que Benedita entra em cena. Evangélica há décadas, a deputada surge defendendo que “Deus não pode ser instrumento de campanha política”. A fala, no entanto, veio carregada de ironia involuntária: dita justamente em um vídeo institucional de partido, no calor de uma crise eleitoral. Para críticos, a mensagem parece menos um testemunho de fé e mais uma tentativa calculada de reposicionar o discurso do governo.
Benedita afirma ter orgulho de sua trajetória religiosa e acusa adversários de usarem a Bíblia como “crachá político”. Ao mesmo tempo, exalta Lula como alguém que “cuida das famílias”, listando programas sociais, isenção de imposto de renda e políticas públicas. O problema, apontam opositores, é a contradição: a mesma Benedita que hoje fala em valores familiares é lembrada por sua atuação política no Rio de Janeiro e por silêncios constrangedores diante da violência do tráfico em comunidades dominadas pelo crime — tema sensível para muitos evangélicos.
A reação negativa não ficou restrita às redes. Michelle Bolsonaro foi direta ao rebater Lula, afirmando que o presidente teve “anuência da chacota e do escárnio” e que não bastava dizer que não era o carnavalesco. Para ela, aceitar a homenagem sem se opor foi, na prática, concordar com a provocação.
Nos bastidores, o desconforto é maior do que o discurso público admite. O mal-estar entre evangélicos acendeu um alerta no Palácio do Planalto, especialmente porque respinga em temas sensíveis, como a tentativa de emplacar nomes no Supremo Tribunal Federal e manter pontes com bancadas religiosas no Congresso.
No fim das contas, a aposta em Benedita escancara um velho método do PT: quando a crise aperta, muda-se o porta-voz, mas não o roteiro. A ironia é que, ao tentar provar que respeita a fé e a família, o partido acaba reforçando a percepção de que religião, ali, continua sendo tratada menos como convicção e mais como ferramenta de conveniência política.